Confira todos os textos da edição #321
- Entre o Mundo e Eu – Capítulo I, por Marlon Pires Ramos
- Marlon Pires Ramos, entre sorrisos e lágrimas, por Luís Augusto Fischer
- Vida na Pinguela, por Luís Augusto Fischer
- Todas as artes juntas, e mais uma, por Alfredo Fedrizzi
- Porto Alegre, 1911: A árvore e seu monumento, uma inutilidade ou algo mais?, por Arnoldo Doberstein
- As velhas e suas falas, por Fernando Seffner
- Tempo de fúria e desmedida, por Juremir Machado da Silva
- O rock gaúcho – Parte III, por Arthur de Faria
- Com rima e sem solução: ato, fato e Pilatos, por Homero Vizeu Araúho
- A vida retoma o ritmo – e as leituras que se adaptem, por Carlos André Moreira
- Cordel do Corte Raso, por Gonçalo Ferraz
O envelhecimento parece causar certa retração naquilo que eu gosto de chamar de freio social. Gosto de perceber as manifestações disso entre mulheres. Tenho tias que foram a vida toda cuidadosas, ponderadas e diplomáticas quando falavam, evitando provocar brigas, falando sempre baixinho. Com o envelhecimento, passaram a fazer observações bastante diretas, e até mesmo rudes, acerca de outras pessoas. Não é exatamente um caso de grosseria deliberada. É um caso de afrouxamento do freio social, um relaxamento dos cuidados ao falar.
Fui visitar uma tia, praticamente centenária, em uma casa de repouso. Cheguei quando a nova médica geriatra estava se apresentando a cada paciente. Conversou com minha tia, perguntando sobre cuidados, saúde, dores, incômodos. Em seguida, se dirigiu a outra senhora, sentada em uma poltrona quase ao lado onde estávamos. Minha tia fez um comentário em voz alta e clara: “Muito boa essa médica, mas ela é muito gorda, não é? A outra era bem magrinha, mas nem falava com a gente.” Ficou aquele clima.
Outro freio social que parece se perder tem a ver com o respeito pela religião católica, especialmente pelos padres. Tenho tias, na região italiana, que foram o exemplo mais bem acabado de devoção e obediência ao que saía da boca dos padres. Conduzindo três delas no meu carro, anos atrás, de volta de uma atividade justamente ocorrida em um salão paroquial da colônia, o assunto caiu em um tema absolutamente explosivo, que é o aborto. O caso era de uma menina de doze anos de idade, que havia engravidado – ou sido engravidada, ou mais propriamente sido estuprada – de um homem muito mais velho, ali mesmo na região. Pelo que entendi, o padre havia explicitamente dito que a menina deveria levar a gravidez a termo, e cuidar da criança.
Minhas três tias opinaram que a gravidez deveria ser interrompida. Elas não usavam a palavra aborto, mas foram taxativas dizendo que ninguém deveria ser mãe nesta idade. Cheguei a parar o carro na beira da estrada, para manifestar minha surpresa, e fiz uma provocação: vocês estão desobedecendo o próprio Papa! Fui surpreendido com manifestações do tipo “os padres dão muita opinião sobre filhos e casamento, mas eles nunca criaram um filho e nem se casaram”, “na opinião dos padres, a mulher sempre tem que aguentar tudo que o homem faz”, “padre gosta muito de dizer como uma família deve ser, mas eles não têm muita ideia de tudo que acontece numa família”. Fiquei encantado com este feminismo tardio, mas vigoroso.
Noutro dia, o assunto de quatro velhas, numa mesa da cafeteria, são as netas e os netos. A ênfase recai sobre as netas, em particular. Tudo muito diferente hoje em dia. Ainda mais quando se trata do uso do celular. Sempre agarradas no celular. Uma delas conta uma situação.
“Fui ao apartamento da minha filha sábado, estavam lá minhas duas netas, estão com 14 e 15 anos. Sentei-me na sala, fiquei esperando a minha filha para sairmos. Nunca vi tanta bagunça na sala, coisas fora do lugar, poeira nos móveis, restos do café na mesa, pó pelo chão. As duas ali, no celular, quase não tinha como eu iniciar um assunto com elas. Perguntei o que estavam vendo no celular. Mal murmuraram algo como “falando com as amigas”. Mas elas não falavam, só escreviam no celular. Levantei a voz e disse claramente o que eu estava pensando: na idade de vocês, ao invés do celular, eu estava com uma vassoura na mão ajeitando essa sala. É o que vocês deviam fazer agora. As minhas netas apenas riram! E seguiram no celular. Me deu vontade de ir lá na cozinha, buscar a vassoura, e fazer elas trocarem o celular pela vassoura.”
A outra velha da mesa de café eu conhecia, professora de língua portuguesa do Instituto de Educação, aposentada há décadas, lecionou para meninas em outro contexto histórico. Ela contou que sua neta tem seis anos, e só se acalma quando está com o celular dos pais na mão, jogando algo ou assistindo algum desenho. Ela já tentou manter a neta longe do celular. Disse que a neta reage com a seguinte frase: vó, eu fico entediada quando não estou com o celular.