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Meus 64 anos

Quando um cronista fala de si e do seu aniversário

Meus 64 anos
Pausa para reflexão em Itacimirim, uma vila de pescadores no norte da Bahia

Hoje, Romário e eu estamos de aniversário. O senador cujas ideias me desagradam – mas cujo futebol me encantava – é mais jovem. Chego aos 64 anos refugiado em Itacimirim, na receptiva Bahia.

Sem me dar conta, envelheci. Mas me sinto profundamente jovem por dentro, ainda que, volta e meia, já sofra etarismo por meio da sua faceta mais ardilosa, a condescendência, que pode se exprimir até por elogios.

Olho para trás e penso nas pessoas que mais colaboraram para as realizações dos meus sonhos. No jornalismo, Nilson Souza me contratou para trabalhar na Zero Hora por indicação da Núbia Silveira; Juarez Fonseca me deu a oportunidade que eu desejava, de escrever sobre cultura. Augusto Nunes me fez correspondente da Zero Hora em Paris, mais do que sonho, uma utopia.

Telmo Flor me levou para o Correio do Povo e depois de alguns anos de experiência me deu uma coluna diária. Fiquei 22 anos naquele espaço. Um cara do qual eu nunca tinha ouvido falar, Natal Furucho, me deu um programa diário na Rádio Guaíba, que batizei de Esfera Pública, e convidei a competentíssima Taline Oppitz para fazer comigo. Foram dez anos de êxito.

Na vida acadêmica, Irmão Mainar Longhi e Urbano Zilles abriram as portas da PUCRS, onde sou feliz até hoje. Antes, Michel Maffesoli me tirou do fundo do poço e me levou para fazer doutorado na Sorbonne, onde tive banca final com Edgar Morin, Jean Duvignaud e Jean Baudrillard na plateia.

Em 2023, por iniciativa de Philippe Joron, o intelectual que mais conhece a obra do grande Georges Bataille, recebi o inimaginável título de Doutor Honoris Causa da Universidade Paul Valéry de Montpellier.

Neste ano, o Programa de Pós-Graduação em Comunicação da PUCRS, onde atuo desde 1995 e do qual fui coordenador duas vezes, somando quase 15 anos na função, recebeu nota 7 da Capes, a mais elevada – só obtida por outros três programas da área (UFRJ, UFF e UFMG), entre mais de 50 no país todo.

Dei a minha pequena contribuição para esse êxito coletivo, um trabalho duro de equipe. Comemoro como se fosse um presente de aniversário.

Estou naquela fase de pensar na vida ouvindo músicas que me acompanham como trilhas de filmes. A mais frequente é óbvia: Apenas um rapaz latino-americano. Aliás, quando nas suas andanças Belchior me procurou em Porto Alegre, me senti cumprindo uma missão do destino.

Nessa trajetória sinuosa e cheia de armadilhas, criei duas teorias para uso próprio: a teoria da trincheira e a teoria do terreno baldio.

A primeira diz que é preciso ficar na trincheira enquanto a bala come, para poder dizer o possível, mesmo nunca podendo dizer tudo.

A segunda sugere que é preciso ocupar espaços considerados pouco importantes para fazer crescer o que se quer, e oferecer algo contra padronizações e conformismos. Isso sabendo que, quando tudo estiver dando frutos, poderá aparecer alguém de berço para pedir reintegração de posse.

Às vezes, estou ouvindo sonatas de Beethoven e sinto urgência em trocar para Chico Buarque ou, o que parecerá absurdo, para José Mendes:

Andei, andei, andei, andei por este mundo andei
No trono do meu cavalo me sinto maior que um rei
Andei, andei, andei, andei por este mundo andei
Quis ver as coisas do mundo, procurar quem eu não sei
Só vi o mundo mudando, quem sabe se eu mudarei.

Pois mudei muito. Mas ainda sou um guri de Palomas.

As opiniões emitidas por colunistas não expressam necessariamente a posição editorial da Matinal.
Juremir Machado da Silva

Juremir Machado da Silva

Jornalista, escritor e professor de Comunicação Social na PUCRS, publica semanalmente a Newsletter do Juremir, exclusiva para assinantes dos planos Completo e Comunidade. Contato: juremir@matinal.org

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