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Gonçalo Ferraz: "Tive a fantasia de escrever uma história sobre arquétipos humanos"

Parêntese #320

Gonçalo Ferraz: "Tive a fantasia de escrever uma história sobre arquétipos humanos"
Gonçalo Ferraz durante leitura do Cordel do Corte Raso em 2024, em uma edição da Sabatina Parêntese. Foto: João Neto / Matinal

Confira todos os textos da edição #320

Pesquisador do departamento de Ecologia do Instituto de Biociências da UFRGS e português de nascimento, Gonçalo Ferraz estuda populações de animais. Antes de se estabelecer em Porto Alegre, acumulou experiência que inclui um doutorado nos EUA e muito anos de trabalho em Manaus. Foi no mundo amazônico que aprendeu, entre muitas outras coisas, o sentido de “corte raso”.

Na entrevista a seguir, o biólogo explica o que tinha em mente quando propôs o extenso poema narrativo. Confira.


Luís Augusto Fischer – Começando pelo nome: “cordel” parece que todo mundo sabe o que é; mas o que significa “corte raso”? Como tu conheceste esse termo e o fenômeno que ele descreve?

Gonçalo Ferraz – Se alguém entra na floresta para cortar algumas árvores e extrair madeira de forma seletiva, se fala de “corte seletivo”. É o tipo de corte que permite mais facilmente a regeneração da floresta. Quando é para valer, quero dizer, quando se corta tudo para substituir a mata por pasto, é corte raso. Não tenho a certeza de onde aprendi o termo, mas assimilei no Amazonas e fui tomando como a forma mais devastadora de destruir seja o que for. Na Amazônia, talvez seja também a forma mais praticada de destruição. Para fazer bem feito, o corte e remoção dos troncos devem ser seguidos de uma queimada que dificulte a regeneração da vegetação arbórea. Na área do Projeto Dinâmica Biológica de Fragmentos Florestais, onde trabalhei, um pouco a norte de Manaus, se percebia a diferença da vegetação que voltava após o corte e abandono das pastagens nas regiões que tinham e que não tinham sido queimadas. Se há chuva suficiente e não há bois pisoteando, a mata volta — dois grandes “ses” — mas o corte raso é mesmo raso, é para não sobrar nada. 

Luís Augusto Fischer – E cordel: como começou teu interesse por essa forma, que é poética mas também é editorial?

Gonçalo Ferraz – Durante anos, ainda no Amazonas, tive a fantasia de escrever uma história de ficção sobre três arquétipos humanos que se encontram numa cidade de fronteira. Não me refiro a uma fronteira política, mas sim cultural, ambiental e de infraestrutura—como é Manaus. Eram três perfis que eu reconhecia recorrentemente entre companheiros de trabalho e figuras que fui encontrando por lá, na sua maioria originárias de outra parte do Brasil ou do mundo: o mercenário, o missionário e o fugitivo. Às vezes os três arquétipos se misturavam na mesma pessoa, mas para efeitos da ficção imaginei cada um em um personagem: o mercenário procurando prosperar a partir das oportunidades únicas do lugar; o missionário pretendendo salvar o mundo e os seus semelhantes salvando a Amazônia; o fugitivo se escapulindo para a fronteira, tentando escapar de algum imbróglio que não conseguiu resolver na vida pregressa. Essa ideia precedeu a escolha do formato. Eu sabia vagamente o que era um cordel e talvez já tivesse me encantado mais de uma vez com o embalo rítmico das narrativas engraçadas, mas nem tinha cordéis em casa nem me lembro se vi algum antes de conceber a ideia. A escolha da forma aconteceu em janeiro de 2019 quando li na piauí a poesia Cada um tem seu silêncio, do Felipe Fortuna, com o subtítulo “Cordel do incrível encontro de Buster Keaton e Samuel Beckett em Nova York e do Film que fizeram lá”. Ali me dei conta da versatilidade da forma e de que nem era necessário ser tão engraçado assim para escrever um cordel. Eu não me acho suficientemente engraçado para fazer as pessoas rir de propósito e, além disso, talvez associasse demasiado o formato do cordel àquele jeito malandro das falas do João Grilo no Auto da Compadecida. Gosto muito do jeito, mas receio falhar ao tentar imitá-lo. Esse receio talvez me tenha mantido longe da forma por algum tempo, mas o cordel do Felipe Fortuna me abriu os horizontes. Anos depois, o poeta Pernambucano Islan Brito, de São José do Egito, me assegurou que o cordel é só uma forma de contar qualquer história que o cordelista tenha para oferecer. Mas isso ainda vinha longe.   

Luís Augusto Fischer – E como tu desenvolveste teu aprendizado do cordel, a ponto de te lançares numa empreitada como esta? Aliás, descreve por favor os contornos principais do Cordel do Corte Raso – assunto, tamanho, dificuldades para compor, prazeres encontrados ao longo do processo?

Gonçalo Ferraz – Primeiro, só aprendi o básico de um formato e fui escrevendo de cabeça enterrada na areia, para não me assustar com o resto. Ainda tenho a piauí de janeiro de 2019 com as primeiras três estrofes do poema anotadas com uma letra no fim de cada verso: “ABCBDDB”. É o padrão de rima que os violeiros do nordeste chamam de “verso mourão”. A escolha da forma libertou a criatividade, mas ao longo dos cinco anos que demorei para escrever a primeira versão evitei ler outros cordéis. Não li nem um, na verdade, por aquele receio de ceder à tentação de imitar algo que eu não saberia fazer. Se tivesse lido, também teria entendido como a maioria dos cordéis usa estrofes de seis versos com rima ABCBDB, que é bem mais fácil de compor, embora menos dançante, que aquela ABCBDDB, de sete versos, que eu encontrei na piauí e acabei adotando. 

Lá pelo meio de 2024 tinha terminado o primeiro rascunho dos 26 folhetos com mais de duas mil estrofes de sete versos. Escrever um trabalho longo nunca foi o objetivo. O problema é que para ser fiel à métrica e rima, muitas vezes, uma estrofe que iniciava com uma ideia não tinha como terminar com a ideia planejada, por falta de palavras que se ajustassem ao plano. Então, para não jogar fora um início de estrofe que me agradava, eu acabava torcendo um pouco o caminho e trazendo uma ideia diferente de permeio, para depois chegar na ideia planejada só umas quantas estrofes depois. Foi um pouco como aceitar uma rotina de ir de Porto Alegre até Canoas com uma passadinha em Passo Fundo. É claro que isto inchou o texto, mas espero que não tenha sido em vão.