Autores: Bárbara Sartori, Laura Testa e Leonardo Casagrande
“Desde que a humanidade existe, contamos histórias. Isso, inclusive, é parte do que nos define enquanto espécie. Na era digital, a maneira como contamos histórias sobre nós mesmos, sobre os outros e sobre o lugar onde vivemos se transformou. A ampliação do público, a sensação de apagamento das distâncias e a construção de personas virtuais modificaram profundamente a nossa forma de nos comunicar.” Débora Salvi, conhecida como Deborista, palestrante do 39º SET da Indústria Criativa com o talk da empresa de audiovisual O Clube “Da ideia ao roteiro - criando histórias para marca.”
O segundo dia do 39º SET da Indústria Criativa, com o tema “Coragem para Dialogar”, realizado nesta quarta-feira (21) na Escola de Comunicação, Artes e Design (Famecos) da PUCRS, trouxe talks e oficinas durante os turnos da manhã e da noite. As apresentações foram conduzidas por diversos profissionais da comunicação – nas áreas de jornalismo, audiovisual, publicidade, design e produção de eventos – e buscaram traduzir ao público a identidade das empresas junto à amostragem de cases de sucesso, com a ideia de inspirar estudantes e interessados a conhecer mais o trabalho tanto das empresas quanto da sua função na indústria criativa. Além disso, oficinas interativas foram realizadas durante os dois turnos do evento, oferecendo maior interatividade com o público presente e proporcionando novas aprendizagens.
As empresas patronas foram o Grupo RBS, as agências de publicidade Eyxo, Clube de Criação e House of Creativity (HOC), as produtoras de conteúdo audiovisual Na Buena Onda (NBO) e O Clube, a marca de roupas e acessórios Youcom, a produtora de eventos Inventa Evento, a empresa de design e branding StudioBah, o coletivo de designers negros PretaGD, a plataforma de conteúdos de design e branding Pó de Pólen e a Associação do Mercado e Indústria Digital (ANAMID). Também estiveram presentes a Liga de Produção de Eventos (LIPE) da PUCRS e o PPGDesign da UFRGS. Além disso, ocorreram atividades online.
Confira a programação completa
Um tema prevaleceu ao longo dos talks: a narrativa das organizações e a necessidade do profissional da comunicação de criar, trazer e proporcionar histórias para os ouvintes. Ao apresentar seus trabalhos e insights para os espectadores e compartilhar os cases de sucesso – que não deixam de ser também uma história de sucesso – os palestrantes acabaram por revelar justamente a importância de um bom discurso narrativo e, inclusive, enxergam esse espelhamento no próprio trabalho deles. Um exemplo está na fala de Crystian Gonzalez, da produtora de eventos Inventa Evento: “quando a gente pensa na jornada de um evento, tem uma história a ser contada. Uma história que tanto o participante do evento quanto o nosso cliente possam valorizar.”
No jornalismo, fica evidente como a narrativa torna-se o modo como os fatos vão ser contados para o público. Segundo Rafaella Fraga, coordenadora de Produto de Streaming no Grupo RBS, a importância de ter uma boa narrativa está interligada à boa estratégia de distribuição para que, assim, chegue ao público: “A maior tristeza e lamento é quando a gente tem um bom produto e as pessoas não veem. Algum conteúdo nosso pode não ser entregue porque o algoritmo não entregou e tal, a gente sabe que isso acontece diariamente. A narrativa é fundamental, mas outras coisas que circundam ela são necessárias para que o conteúdo chegue mais longe”, afirma a jornalista, que apresentou com a colega Bárbara Fabres o talk “Grupo RBS: case novos canais digitais da Gaúcha”, no qual se discutiu o processo de adaptação do rádio às novas mídias digitais e a busca para conquistar o público jovem sem perder seus ouvintes mais antigos.
No campo publicitário, a palavra geralmente adotada para a descrição de narrativas é o storytelling, recurso essencial para despertar laços afetivos e engajar a audiência, incentivando-a a responder a uma chamada para ação (ou call to action) – seja por meio de interações, compartilhamentos ou decisões de compra. A efetividade desse processo apoia-se em um rigoroso mapeamento do público-alvo e das dinâmicas de mercado. Conforme observa Deborista, “quando uma história nasce de pesquisa e está ancorada na realidade de seu público, a identificação e o interesse têm mais chances de acontecer. Não basta encontrar um jeito diferente de apresentar uma ideia: é preciso conhecer aquilo que se quer comunicar e para quem se está comunicando. A originalidade chama a atenção, mas é a consistência da história que sustenta essa atenção.”
Quando se trata de capturar um momento de forma documental ou cinematográfica, a fotografia e o audiovisual escolhem elementos simbólicos e momentos decisivos para transformar a história comum em algo extraordinário. Esse é o objetivo do videomaker Mark Daniel, que também palestrou nesta quarta-feira representando a empresa audiovisual Na Buena Onda com o talk “Toda história pode ser extraordinária”. Mark explica que estar atrás da câmera requer mais do que a vontade de filmar, quem roteiriza, registra e produz precisa ser “alguém que esteja obstinado em transformar às vezes algo que pode ser trivial em extraordinário.”
Mark também organizou uma oficina “Enquadre o agora: capture histórias extraordinárias escondidas na vida real”, onde colocou os alunos na busca por “histórias extraordinárias” por meio de registros fotográficos ao redor da PUCRS. A ideia do trabalho era fazer com que os alunos, munidos de molduras laranjas oferecidas por Mark, pensassem por eixos diferentes a importância da contação de histórias em todas as áreas da comunicação: “Normalmente o resultado aparece com uma série de conhecimentos e características trabalhadas em conjunto. Como a curiosidade por exemplo. Todo jornalista é um curioso. Procurando respostas ou perguntas talvez. E a forma que a publicidade encontra histórias e sentido para as coisas. Me parece que todas essas áreas caminham e trabalham juntas”, ressalta.
André Luís Gonzales, estudante de Produção Audiovisual da PUCRS, mostrou-se impactado com a apresentação de Mark. “A importância de tu conseguir analisar todos os pontos, entender o que vai ser formado nessas grandes histórias é o que vai formar um grande profissional. Tu não tem como se tornar alguém experiente na comunicação sem escutar pequenas histórias que podem se tornar (por nós, comunicadores) uma história extraordinária.”
O compromisso com o storytelling também chega às áreas de design visual e de produto. Para Ricardo Franco, do StudioBah, que apresentou junto ao colega Felipe Amaral o talk “Processo de embalagem StudioBah - do briefing à prateleira”, boas embalagens contam uma história. “Produtos podem contar uma história, e a escolha das cores e tipografias corretas, por exemplo, ajuda a posicionar e comunicar o produto de acordo com a essência de cada marca”, ressalta Ricardo.
No entretenimento, a narrativa dialoga com um público específico. No talk “Grupo RBS: case ATL TV”, Myla Jardim, Gerente-Executiva de Entretenimento e Projetos Multimídia do Grupo RBS, mostrou como a Rádio Atlântida se transformou ao longo do tempo para se firmar no meio digital. Ela destacou a importância de conhecer o público para construir suas histórias: “A gente olha muito a construção, tem muito embasamento de pesquisa antes, mas também uma construção mais estratégica de como que eu vou entregar esse conteúdo no fim do dia”, destaca a profissional.
Nesta quinta-feira (22), a programação segue com mais maratonas e oficinas na parte da manhã e talks com empresas patronas no turno da tarde. Às 19h15, o evento termina com a Cerimônia Prêmio SET 2026, no Teatro do Prédio 40 da PUCRS. O tema do dia é como usar a criatividade na Indústria Criativa.