Edição #350
Feira do livro
matinal.org · 31 de outubro de 2026
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Nesta edição
- Rock GaúchoO rock gaúcho – Parte XXArthur de Faria
- EntrevistaUm poeta que explica tudoLuís Augusto Fischer
- CrônicaNaming Rights às avessasMiguel da Costa Franco
- Corte RasoCordel do Corte Raso – Capítulo 18 – Parte IVGonçalo Ferraz
- EnsaioCrimes que assombram o mundoJuremir Machado da Silva
- FolhetimA dama da Duque – Capítulo XJosé Roberto Iglesias
- Feira do Livro de Porto AlegrePalestina ReveladaHanan Kattan
- ResenhaEnsaios sobre o invisível: uma análise da cosmologia como espelho da sociedadeHoracio Dottori
- CrônicaO tempo e o retornoZara Gerhardt
Editorial
Feira do livro
A tradicional Feira do Livro de Porto Alegre começou ontem, e nós, leitores, não podemos deixar de direcionar nosso olhar para lá. Nesta segunda (2 de novembro), a escritora Hanan Kattan lança a primeira tradução de seu livro Palestina Revelada e participa de uma conversa no Clube do Comércio. Partindo da história de sua própria família, a autora percorre mais de um século da história palestina. Aqui, na Parêntese, temos uma prévia da prosa sensível de Hanan: o primeiro capítulo está disponível na íntegra, permitindo uma espiada nesta narrativa que busca preservar a memória e a identidade de um povo que resiste ao apagamento.
O escritor e roteirista Miguel da Costa Franco imagina uma Porto Alegre em que os bairros passam a levar nomes de marcas e empresas. Em uma crônica bem-humorada, o autor satiriza a mercantilização da cidade e a transformação de sua memória e identidade em espaços de negociação.
A geóloga Zara Gerhardt viaja no tempo e no espaço, na companhia de Diadorim. Ou, melhor dizendo: relata seu retorno a Poço de Fora, um vilarejo que conheceu em 1970, onde trabalhou e viveu por sete anos. Horácio Dottori fala dos confins do universo ao resenhar o livro Ensaios sobre o invisível, do astrofísico Reinaldo Ramos de Carvalho, e Juremir Machado da Silva compartilha dois textos derivados de uma oficina literária sobre as obras V13, de Emmanuel Carrère, e Tela total, de Jean Baudrillard.
Na série sobre o rock gaúcho, Arthur de Faria dedica um texto à trajetória de Jimi Joe, autor do sucesso Sandina, cantado e tocado por uma infinidade de artistas. Luís Augusto Fischer entrevista o compositor Suriel Moisés Ribeiro. A conversa passa pelas análises métricas de poesia, pelas composições e pelas repercussões dos vídeos do artista.
Mais um ciclo chega ao fim nas páginas da Parêntese: o folhetim A dama da Duque, de José Roberto Iglesias, chega ao décimo e último capítulo. Para quem não acompanhou a tensão semana a semana, fica o convite para ler a história na íntegra. Já o Cordel do Corte Raso, de Gonçalo Ferraz, chega a um fim diferente: a quarta parte do capítulo 18 encerra uma jornada. Mas ainda há muitas outras pela frente.
Não esquece, hein: daqui a pouco, às 10h30, Luís Augusto Fischer discute o legado Guarani das Missões com Artur Barcelos, em mais um evento da Sabatina Parêntese, na livraria Paralelo 30. Neste ano, o historiador e arqueólogo publicou uma série de textos sobre o tema – confira no site da Matinal.
Boa Sabatina e boas leituras!
Rock Gaúcho
O rock gaúcho – Parte XX

Hora de falar no já tantas vezes citado Jimi Joe, parido em Arroio Grande, em 1955, criado em Canguçu (extremo sul do Estado), filho de militar e professora. Quando os dois se separaram pela primeira vez, Jimi tinha oito anos e a mãe foi morar com os filhos e a irmã em Pelotas. Voltemos à sua entrevista para o site Culturíssima:
Foi do caralho porque, com oito anos de idade, eu ia ao cinema sozinho, de tarde. Então eu vi vários filmes nos cinemas de Pelotas. Me apaixonei pelo Kirk Douglas, que era meu herói dos filmes de cowboy, Elvis Presley conheci no cinema também.
Um ano mais tarde retomaram o casamento, que desandou de vez quando ele tinha 12 anos. Agora a mãe e a filharada se mandariam pra mais longe: Porto Alegre. De Canguçu para a Porto Alegre de 1967. Pra ajudar, a irmã mais velha ganhou um violão. Jimi, canhoto, como Jimi Hendrix (daí o pseudônimo adotado – mas o Joe viria mais tarde):
Em uma coisa instintiva, peguei ele invertido já. Comecei a tocar conforme o método que ela tinha comprado e vi que tinha alguma coisa errada, depois que eu saquei. Mas ela disse pra eu não mexer nas cordas, então aprendi a tocar os acordes pelo avesso.
(...)
E assim fui desenvolvendo, totalmente autodidata. Aos poucos fui começando a fazer músicas minhas. Lá por 1975 foi quando fui para o palco a primeira vez.
Considerando o ano, a estreia, aos 20 anos de idade, não podia ser em melhor lugar: as Rodas de Som do Teatro de Arena. Criadas pelo mesmo Carlinhos Hartlieb que anos mais tarde ele biografaria para uma série de livros sobre personalidades do sul. Mas, naquele momento, já coordenadas por Nelson Rolim. Que foi quem Jimi procurou:
Fui lá um dia e me candidatei pra tocar e ele pediu uma fita. Na época, para qualquer pessoa, era muito difícil ter uma fita demo. Eu não tinha nem um gravador minicassete pra gravar em casa, eu era chinelo mesmo.
“O que posso fazer é vir com o violão e tocar pra ti as músicas”, disse pra ele. Morava ali perto, na Riachuelo, desci a escadaria do viaduto da Borges e busquei o violão. Ele gostou das músicas e falou: “Traz cópias datilografadas das letras, porque tem de passar na censura”. Poucos dias antes do show ele me chamou e disse que, das seis ou sete músicas, quatro haviam sido censuradas. (...) Aí deu né! “Pô, vou tocar só três músicas?” Ele falou: “Não, vamos fazer o seguinte... quando eles mandam esse parecer, eles vêm no máximo na passagem de som”. Na passagem de som toquei as três músicas e no show toquei todas.
Não foi a melhor das estreias, diga-se, mesmo que ele estivesse acompanhado de dois músicos bem mais experientes, João Antônio e Alexandre Vieira, do grupo folk Inconsciente Coletivo.
João Antônio Araújo, Xandy, nós três. Eu e o Xandy muito bêbados. A gente errou muito. A primeira música foi um fracasso, tivemos que parar, de tão ruim que estava. Ainda bem que a plateia era mais louca que a gente. Daí alguém gritou: “Vai de novo que tá legal”. “Bom, se está legal então vamos!” E fomos até o fim.
Mas carreira musical teve de esperar até o começo da década seguinte, quando o cenário já mudara completamente e uma sensação tomava conta da sua geração. A que ele definiu, para este livro, em 2002:
A gente só faz rock em Porto Alegre pra não morrer de tédio nessa cidade. Como dizia uma amiga minha naquela época de punk/new wave/seja lá o que fosse, a gente só cortava os cabelos pra não cortar os pulsos...

A todas essas, ele sempre levou paralelas as carreiras de jornalista/radialista, tradutor e músico. Traduziu literatura beat para a editora L&PM e, como jornalista, fez absolutamente de tudo. Na Folha da Manhã, Folha da Tarde, Correio do Povo, Diário do Sul, Jornal Multiarte e Zero Hora. Até que se mudou pra São Paulo em 1989, levado pelo amigo Eduardo Peninha Bueno para o Estadão, onde passou quatro anos finalmente escrevendo só sobre cultura – e ainda fazendo uns bicos pra revista Playboy.
Entrevistei muita gente lá. Foi uma escola, aprendi muita coisa. Foi a realização de vários sonhos, como entrevistar David Bowie, o pessoal do Yes, gente que eu curtia de anos e anos e jamais imaginei que fosse entrevistar. O Bowie ligou pra minha casa! Aí tu fica: como assim?!
Antes e depois dessa estada paulista, também fez seu nome no rádio, como uma das estrelas da Ipanema FM, mas também na Farroupilha, Gaúcha, Atlântida FM, Felusp e Unisinos FM.
Pra gente aqui, o mais importante é que Jimi se tornou o autor de pelo menos um dos maiores hits do rock gaúcho, cantado e tocado por uma infinidade de artistas: Sandina.
Como instrumentista, no final dos anos 1980 era um dos destaques da brilhante Expresso Oriente, banda criada para acompanhar Julio Reny cujo melhor registro é o primeiro LP de Julio (onde as guitarras de Jimi e Vasco Piva se costuram com criatividade, originalidade e inteligência). Numa entrevista à época, para o jornal Multiarte, declarou:
Algumas pessoas gostam do que eu faço, outras odeiam. Tem gente que diz que eu sou legal na guitarra, tem gente que diz que eu sou um horror.
Em 1993, para uma festa da rádio Ipanema, montou Os Daltons, banda cover especializada em country e folk, e o que era pra durar um dia e existe até hoje (mas sem ele). Logo depois passou a ser o mais frequente sideman de Wander Wildner em sua carreira solo, gravando meio dúzia de seus discos. Também tocou muito com Os The Darma Lóvers e a instrumental Les Johnson – que, fundada em 1997, se dedicava a fazer “música para elevadores, salas de espera e happy hours”. Com Jimi e Marcelo Fornazier nas guitarras, Régis Sam no baixo e Vilson Picco na bateria.
Já falamos aqui do Atahualpa – resta acrescentar que ali ele ganhou o “Joe”, batizado num trocadilho infame do Rettamozo: Simijou > Jimi Joe. Também contamos a história de Los Três Plantados, mas ainda há as bandas Justine e A Cretinice Me Atray.
Formada por ele na guitarra, a atriz e vocalista Cléo de Páris, Egisto del Santo no baixo, Astronauta Pinguim nos teclados e o veterano Gelson Schneider na bateria, A Cretinice Me Atray lançou uma demo e um CD, Era Uma Vez Um Gato Xadrez (Espírito Q-Anda, 2000). No repertório, canções de Jimi escritas para o Atahualpa, como Boneca Comestível, Sandina e muitas de Egisto e Cléo. A banda volta e meia tinha a participação em seus shows do paulista Edgar Scandurra, o que não era pouca coisa. Dois guitarristas canhotos que não invertem as cordas dividindo o mesmo palco.
Já a Justine tinha Jimi e Celso Coelho nas guitarras, Simone Carvalho na voz, Régis Sam no baixo, guitarra e teclados, Alexandre Birck na bateria e a participação especial de Murilo Biff, autor de metade das músicas do seu único disco, o CD Perto do Fim (Independente, 2004). A outra metade era do Jimi, como Dani e Adeus às Ilusões, outras de suas canções mais conhecidas.
A todas essas, lançou dois discos solo. O primeiro é Saudade do Futuro (Pinneaple Music, 2005), produzido por Astronauta Pinguim. Ali estão Fecha Um, Adeus às Ilusões, Sandina e uma nova obra-prima: Dani.
Quem sabe eu bebi, quem sabe eu estou louco?
Quem sabe eu te ame, meu amor seja pouco?
Quem sabe de nós, o que acontecerá?
O que será o que será?
Eu sei que eu vou te amar
Por anos e anos a fio.
Nadamos tão bem, andamos legal, vamos por aí
E no fim do dia ainda podemos falar e sorrir
Mas quando o espírito se libertar
Quem tomará conta dos gatos?
Doze anos depois vêm o basicamente folk e um tanto dylanesco Nenhum Dano Mental Grave Constatado (independente, 2017), muito bem produzido por Thomas Dreher e dedicado a Juliana, “parceira certa nas horas incertas”. Sua verve poética está mais afiada do que nunca, e o disco soa com uma coerência interna que vale no mínimo uma boa escutada. Está em todas as plataformas. Todas as músicas são de Jimi, com exceção de Amor Manifesto (dele com Nenung, dos Darma Lóvers) e Garoto Troglodita (Julio Reny / Jaqueline Vallandro).
Jimi, 2026:
O segundo disco foi um exercício de autoafirmação pós-transplante. Quando fui combinar com o Thomas de gravar com ele, me perguntou quem era a banda. Respondi que eu ia ser o Paul McCartney no primeiro disco solo e ele ia ser o George Martin. Daí quando chegou a hora de fazer as baterias falei que não ia conseguir e disse pra ele fazer. Ele riu e disse "não, o George Martin não toca bateria" e falou pra eu sentar na bateria e gravar peça por peça.
E tem um dedinho do Miranda. Quando já estávamos quase fechando as gravações, mandei uma cópia pra ele. A resposta foi "diz pro Thomas botar tua voz bem na cara e atolar de reverber como naquelas primeiras gravações do Elvis"
Transplante?
Sim. Por uma doença congênita - rins policísticos -, Jimi teve de começar a fazer hemodiálise enquanto esperava, por 10 anos, um transplante. O que só aconteceu em maio de 2013.
Fiquei sabendo que tinha essa doença com 24 anos de idade, em uma casualidade, depois de sofrer um acidente de moto. A partir daí comecei a ter cuidado, a todo ano ir ao médico, fazer exames e acompanhar a função renal. Até que em 2003 (...) os rins já não estavam funcionando como deveriam. (...) Fiquei na fila por 10 anos e um mês.
Em 2015 Jimi lançou um livro há muito tempo esperado: Esta Não Era Pra Tocar no Rádio (Brasa Editora), assinado junto com a jornalista Cristiane Marçal, conta a história das duas rádios mais fundamentais para a música de Porto Alegre das últimas décadas do século XX: Continental AM e Ipanema FM.
Recentemente fez um segundo transplante de rins. Novamente deu tudo certo.

—Arthur de Faria
Arthur de Faria — É compositor de profissão (20 discos, cerca de 60 trilhas), doutor em literatura brasileira pela UFRGS. Publicou "Porto Alegre, uma biografia musical" (vol. 1 e vol. 2); "Lupicínio, uma biografia musical" e "Elis, uma biografia musical".
Entrevista
Um poeta que explica tudo

Eu estava no recreio, andando pelo pátio – o recreio é aquela hora de andar à toa entre um compromisso e outro, o pátio era o Instagram –, quando deparei com uma postagem inusual. Um camarada de ótima fala, explicando como funcionava a contagem de sílabas de um poema que era de fato uma letra de canção.
Ele falava com desembaraço e destreza sobre o tema, nem tão banal assim (esse de contar sílabas poéticas e entender o jogo dos acentos de cada verso, mais o esquema de rimas), e mostrava também intimidade com os temas que apareciam no poema, temas da cultura popular brasileira, em parte originados da tradição imagética de afrodescendentes, em parte não. Tudo muito fluente, e ainda por cima bem editados no vídeo.
Se quiser ter a mesma sensação que tive, procura lá o Suriel Moisés Ribeiro. Ele se mostra com um sorriso convidativo, face meio de banda, falando e falando e cantando. Citando mestres desse mundo da canção e da cultura popular do país como Paulo César Pinheiro e Luiz Alberto Simas, mestres como Paulinho da Viola e Maria Betânia, mas também mestres pouco conhecidos, como aqueles que praticam o repente ou o pessoal do rap.
Mandei mensagem, propus perguntas – inclusive sobre o sentido do nome dele, tão original, Suriel – e agora o leitor vai conhecer melhor a peça.
Luís Augusto Fischer – Me conta da tua história: qual teu caminho pra chegar até esses vídeos? Tu tem formação em Letras ou em algo assim? Ou teu caminho até a poesia popular e a canção corre por outro trilho?
Suriel Moisés Ribeiro – Tudo começa com meus pais. Minha mãe, hoje uma professora de Tai Chi Chuan, tem muita habilidade com as palavras escritas e faladas. Meu pai, um jardineiro de profissão, com grande sensibilidade musical, faz belas poesias. Ele costumava tocar violão e compor, na minha infância.
Mas minha caminhada nesse ofício de fazer versos iniciou na pré-adolescência, quando estava ainda no ensino fundamental. Eu gostava muito de escutar o funk da época, anos 90. Meus primeiros versos foram paródias de faixas dos álbuns, Rap Brasil 1 e 2. Depois comecei a tentar fazer meus próprios funks.
O que sempre me chamou atenção foi a rima. Então, consequentemente, comecei a escutar o Rap, fiquei fã do Racionais, na época eu tinha 13 anos. Eu nasci em Porto Alegre, morei na Vila Canudos, morro da Embratel, até os 7 anos. Aos 9 mudei, com a minha mãe, para Florianópolis. Um detalhe importante: cresci participando de uma comunidade religiosa, de origem amazônica, criada por um seringueiro baiano, na década de 60. Então, tanto em POA quanto em Floripa, eu sempre tive contato com pessoas do norte e nordeste, por conseguinte, com a música e cultura dessas regiões.
Entre os 14 e os 15 anos, eu passei a escutar muito repente, a arte do improviso nordestino. Na época, eu conseguia cópias de fitas gravadas com coletâneas aleatórias. Fiquei aficionado, me encantava a genialidade e a destreza dos poetas em desenvolver os mais variados temas, com as mais inesperadas rimas. De tanto escutar, comecei a perceber, de ouvido, que algumas modalidades tinham versos mais curtos, outras tinham versos mais longos. E, ao transcrever esses repentes, fui percebendo as complexas disposições de rimas.
Esse foi o grande ponto de partida. Digo que a cantoria de improviso é a minha grande escola de verso. Assumir esse gosto pela métrica e pela rima foi um pouco desafiador, em alguns momentos. Na adolescência, muito magro e desprovido de beleza física, minha única ferramenta era a habilidade de alinhar uns versos, ainda bem ingênuos. Um dia, apaixonado por uma menina do grupo de teatro da escola, puxei o assunto da poesia. Ela disse na lata: pra mim, poesia de verdade é sem rima. Acabou com todos os meus recursos de sedução.
O segundo desafio veio ao entrar na faculdade de Letras. Ali eu passei acreditar que aquilo que eu fazia não estava no mesmo nível intelectual da poesia contemporânea, era coisa ultrapassada. Gastei um tempo tentando me encaixar. Mas tive professores que me deram muito apoio, que tinham consideração e admiração pela minha pesquisa. Cito aqui Charles Kiefer e Ricardo Barberena, na PUC. No fim das contas, entendi que a minha relação com a poesia tem um lado de brincadeira, de jogo de montar. Eu gosto do desafio de encaixar na métrica, som e sentido.
Resumindo, por volta de 2019, achei que eu poderia usar essas ferramentas na criação de letras de música. Iniciei um mergulho na obra de alguns letristas como, Paulo César Pinheiro, Toninho Nascimento, Carlos Rennó, Sergio Fonseca, entre outros. Depois, comecei a publicar algumas coisas e logo os parceiros foram surgindo. De lá para cá, tenho muitas letras musicadas, a maioria em registro caseiro. Então, entre final de julho e início de agosto, de 2026, resolvi começar a expor de maneira mais frequente e estratégica, as minhas letras, para que mais pessoas pudessem ter contato com o meu trabalho.
LF – E esse nome, de onde veio, a propósito?
SR – Sobre o meu nome, meu pai tinha um nome místico, Surya Gee, que, segundo seu guru da época, significa sol doce, em sânscrito. Ele e minha mãe juram ter criado meu nome, juntando “suri”, de sol com “el”, do hebraico, que aparece como terminação dos nomes de anjos. Um dia, eu pesquisei em uma bíblia e descobri que Suriel é o nome de um chefe de clã, pertencente a uma família do grupo dos Levitas. Aprendi a gostar dele, mas no começo me sentia meio esquisito...
LF – Como tem sido a recepção dos teus vídeos? Conta algumas reações. Desde quando tu tem produzido esse material?
SR – A recepção dos vídeos tem sido muito boa. Pessoas dizendo que aquele é o instagram premium, agradecendo ao deus algoritmo. Kkkk. Muita gente pedindo curso e livro sobre o assunto. Uma pessoa disse que tinha retirado seu like, pois contou as sílabas de um verso que eu dizia ter 5 e encontrou 7. Eu expliquei que a contagem de sílabas poéticas era diferente. Ele não só entendeu, como escreveu os primeiros versos de sua vida, aos 45 anos, com métrica e rima. Isso me deixou muito feliz. Além disso, muitos compositores de projeção nacional, entre outras pessoas conhecidas, começaram a seguir, compartilhar e curtir os vídeos. Isso tudo significa que o trabalho está tendo êxito.
LF – Outra: tu trabalha em quê? Como professor? E que tal o trabalho?
SR – Eu trabalhei como professor do ensino fundamental durante um ano, achei incrível a experiência, foi na zona rural de Eldorado do Sul, uma escola estadual chamada Sergipe. Desde 2021, comecei a trabalhar com conteúdos para canais no youtube, abri empresa e me sustentei com isso até o fim do ano passado. O youtube modificou algumas políticas e eu perdi muitos canais. De qualquer forma, não era um tipo de conteúdo que eu gostava muito de fazer. Mas, ele me permitiu criar um caixa legal, inclusive, perdemos tudo na enchente de 2024, mas foi o período em que a empresa mais faturou, então conseguimos mudar para Porto Alegre e recomeçar aqui. A ideia agora é viver da minha arte, kkk. Como as pessoas já estão pedindo cursos e livros, penso em investir nisso para ter ali uma fonte de renda.
LF – Como esse gosto e essa prática te levou ao que tu faz hoje, com as postagens?
SR – Eu percebi que o domínio da métrica e de outros recursos estéticos pode ser um ferramental muito interessante para quem faz letras de música. Meus parceiros sempre falam que o texto metrificado, com regularidade na posição das tônicas, facilita a composição. E eu vejo que o treino de encaixar as ideias dentro de medidas preestabelecidas pode ajudar até quem vai colocar letra em uma melodia pronta. Minha ideia é passar um pouco de teoria e prática dessas estruturas.
Temos no Brasil uma quantidade enorme de modalidades poéticas, no campo da poesia oral improvisada. Acredito que o estudo delas pode enriquecer a produção dos compositores. Existe um repentista cubano, chamado, Alexis Díaz Pimienta, que ensina a estrutura da décima espinela para compositores. Já passaram por ele, Juanes, Jorge Drexler, Natalia Lafourcade, entre outros.
Aqui no Brasil, essa mesma décima é usada tanto no sul quanto no nordeste. Mas temos muitas outras estruturas, com variados tamanhos de versos e disposição de rimas. Minha ideia é iniciar um movimento, uma comunidade de compositores que estudam e criam com base em todo esse acervo poético que temos. Partindo disso, o compositor pode até desconstruir, modificar e criar novas estruturas.
Eu penso que essas estruturas tradicionais são linhas de conexão entre as regiões do Brasil e do Brasil com outros países da América Latina. Acredito que podemos expandir esse contato musical, partindo das similaridades que nos unem e das diferenças que enriquecem. Então, minha pretensão, a longo prazo, é ver uma comunidade que firma parcerias para além das fronteiras. Um curso pode ser um bom ponto de partida. E um livro de apoio, com essa abordagem que trago nos vídeos, pode ajudar. Também tenho textos poéticos prontos para publicação.
LF – Tem link pra canções com letra tua?
SR – Quase todas as composições estão, ainda, em registro caseiro. Agora que vou começar a colocar projetos de gravação para rodar. Mas tenho essa aqui, gravada pela Dorina, uma sambista carioca. É uma parceria minha com Luiz Antonio Simas, que além de grande historiador, escritor, é também um ótimo compositor. Ele tem músicas gravadas por Marcelo D2, Maria Rita, Criolo, entre outros. Tenho com ele algumas composições prontas e mais outras em andamento.
Link para Força do Samba no YouTube.
Link para Pedra Sagrado de Xangô no YouTube.
LF – Faltou te perguntar uma: como tem sido a recepção dos teus (excelentes, muito bem editados) vídeos no que se refere ao conteúdo afro, eventualmente marcado com figuras de teor religioso? Algum problema já pintou?
SR – De modo geral, o algoritmo tem acertado bem o público. Tem um vídeo em que analiso a letra de Paulo César Pinheiro, sobre Besouro Mangangá; nele, uma pessoa disse ter gostado do conteúdo, exceto da “oferenda barata e desnecessária do final”. Na conclusão daquele vídeo, eu mostro uma letra minha, com a mesma estrutura que eu vinha analisando, em que falo de Oxóssi. O engraçado é que o álbum dessa música é todo de toques de capoeira e o enredo é um homem negro, perseguido pela polícia, que tinha o corpo fechado através de ritual. Mas ele nem deve ter atentado a isso, o que chocou o rapaz foi o nome de Oxóssi. Eu tenho percebido pastores, cantores de música gospel, que estão acompanhando o perfil e não tenho tido problemas. Eu recebo mais ataques, na verdade, quando cito a quadra popular, batatinha quando nasce, esparrama pelo chão. Aí o time do “espalha rama” se enfurece. Eu acho interessantíssimo.
—Luís Augusto Fischer
Luís Augusto Fischer — Professor e editor da revista Parêntese.
Crônica
Naming Rights às avessas

Um jovem assessor do prefeito de Porto Alegre, alçado ao cargo por ter estagiado num think tank do Alabama, teve uma ideia genial. Espelhando-se no sucesso de operações de naming rights que levaram ao rebatismo do estádio do São Paulo Futebol Clube para MorumBIS e do Estádio Municipal do Pacaembu – também em terras paulistanas – para Mercado Livre Arena Pacaembu, propôs ao nosso ardiloso prefeito buscar caminho semelhante, pela via inversa, para brecar a crescente desvalorização dos bairros atingidos pela enchente de 2024.
Já explico: normalmente são as empresas que pagam por essa mudança para melhor divulgarem sua marca ou seu nome. Aqui, a prefeitura trataria de encaixar o programa nos recursos ofertados pelo governo federal para a recuperação do Rio Grande do Sul após a hecatombe, pagando a empresas idôneas pelo empréstimo de seus nomes ou da marca de algum de seus produtos por um prazo determinado.
O assessor lembrou que a proposta convergia com o interesse das construtoras em promover a revalorização dos imóveis à venda e com a conveniência de apagar da memória os nomes dos bairros atingidos, onde havia muitos lançamentos programados. A má fama estava freando os negócios.
A ideia foi aprovada com entusiasmo. Por sugestão da consultoria internacional contratada para desenhar o projeto, chamaram-no de Cleaning Program. O nome caía bem para enfocar as áreas afetadas e que, diga-se de passagem, ainda fediam a cocô.
A proposta elaborada pela assessoria previa vinte anos de cessão de direitos de uso do nome. O prefeito reduziu o prazo para dez anos, mas a Câmara aprovou apenas cinco. Não quis assustar o empresariado.
Na cerimônia de lançamento, o prefeito agradeceu a parceria cidadã demonstrada por seus aliados da Câmara de Vereadores, da Federação das Indústrias, da Federação do Comércio, das empresas de transporte e do terceiro setor – as forças vivas da comunidade –, que prontamente se haviam associado ao programa. O prefeito estava certo de que o Cleaning Program daria outras cores a uma cidade enlutada, temerosa e sem esperanças.
O primeiro edital selecionou oito bairros da cidade atingidos fortemente pelas enchentes: Menino Deus, Pedra Redonda, Ipanema, Lami e Ponta Grossa, na zona sul; Vila Farrapos, Humaitá e Sarandi, na zona norte.
Com muito bate-boca e cotoveladas, a Câmara aprovou os novos nomes, aqui dispostos em ordem alfabética anunciados sob aplausos da claque e vaias esparsas: Arruelas Farrapos, Canetas BOC Ponta Grossa, Caninha Sarandi, Chinelas Ipanema, Lajotas Pedra Redonda, Lar de Idosos Menino Deus, Massa Miojo Lami e Minimercado Dona Lurdes Humaitá.
O nome de Águas Boas de Lindóia, reivindicado para o Jardim Lindóia, foi rejeitado sem maiores explicações. Talvez porque a menção a “águas” não ajudasse para o esquecimento.
Por iniciativa de um vereador do mesmo partido do prefeito, condicionou-se a assinatura de contrato com o Lar de Idosos Menino Deus à retirada da expressão “de Idosos”, para não dar ao bairro os ares de um condomínio da terceira idade. Mesmo tendo sido acusado de etarista, sua proposta foi aprovada.
Foi tanta a receptividade do Cleaning Program entre o empresariado da capital que o prefeito resolveu atender aos insistentes reclamos das entidades de classe por sua ampliação. Estendeu-o a toda a cidade, sob a alegação de que as enchentes haviam prejudicado Porto Alegre como um todo. Publicou-se um segundo edital, com o que novas denominações foram aprovadas pela Câmara. São elas: Absorvente Bela Vista; Amaciante Nonoai; Avivamento do Bom Jesus Church; Celulose QWTC Floresta; Empório Gourmet Boa Vista; Leite da Vovó Glória; Moinhos das Alagoas; Motel Copa 70 Partenon; Souza, Pinheiro, Lomba Advocacia e Vila Mapa Astral On Line.
A comunidade da Lomba do Pinheiro mostrou-se muito desgostosa com a troca do nome para Souza, Pinheiro, Lomba Advocacia, uma vez que apenas recentemente o bairro ganhara alguma notoriedade, em razão da obra do escritor José Falero, agraciado pela própria Câmara com o título de Cidadão de Porto Alegre.
Uma representante do Clube de Mães do Bairro Partenon formalizou protesto pela nova denominação do bairro – Motel Copa 70 Partenon –, justificando-se: “ninguém mora em motel”.
Um grupo de populares, sete deles com a camiseta da seleção brasileira, protestou pela troca de Moinhos de Vento por Moinhos das Alagoas: uma baixaria, uma piada de mau gosto. Na sessão seguinte, os vereadores reverteram a decisão. Aproveitando o ensejo, aprovaram às pressas outros nomes de bairros: Auxiliadora virou Auxiliadora Condominial; Chapéu do Sol mudou para Chapéu do Virando Sol; Cristal passou a Vinho Lágrimas de Cristal; Medianeira virou Aposta Certa Medianeira e Passo da Areia tornou-se Funerária e Marmoraria Passo da Areia.
O vereador mais ferrenho da oposição citou Riobaldo, personagem de Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa, para justificar seu voto contrário ao projeto: “Como é que podem remover uns nomes assim? (...) Nome de lugar onde alguém já nasceu, devia de estar sagrado. (...) Precisava de se ter mais travação. Senhor sabe: Deus é definitivamente; o demo é o contrário Dele...”. Mas foi muito vaiado pelo público presente na plenária, levado em comboio pelas entidades empresariais e partidos da situação. A presidenta da sessão, de origem capitã da Brigada Militar, ridicularizou o voto do colega pelo teor arrevesado e inculto de seus argumentos e pelo uso do nome de Deus em vão.
Circularam pela internet denúncias de que o CNPJ da empresa Avivamento Bom Jesus Church havia sido registrado há apenas quinze dias, mas ninguém se ocupou de fazer maiores averiguações sobre o fato.
Ainda não se teve notícia da efetiva disponibilização dos recursos da União para o Cleaning Program, mas todos os articulistas da grande imprensa local já foram escalados para fazer louvações a ele e criticar sistematicamente a insensibilidade e a ineficiência do governo federal. Como um afago à oposição, que teria influência sobre a chave do cofre, os vereadores da situação sugeriram conceder-se ao bairro Bom Fim o nome de Berlim Bom Fim, oferecendo uma módica paga ao letrista da clássica canção porto-alegrense, figura frequente nos comícios da esquerda democrática.
O letrista não foi ouvido para expor sua posição a respeito.
Assim, vamos.
Chuva, porém, ainda se chama chuva.
—Miguel da Costa Franco
Miguel da Costa Franco — Escritor e roteirista. Autor de obras como "A filha do Dilúvio" (Libretos, 2021), "Os heróis do Parque Borowski" (Boaventura, 2022) e "Mentiras, verdades e outras falsidades" (Gog, 2025).
Corte Raso
Cordel do Corte Raso – Capítulo 18 – Parte IV

O Cordel do Corte Raso é uma história de biólogos na Amazônia contada em 24 capítulos, mais um preâmbulo e um epílogo. Acompanhe partes do texto em fascículos semanais aqui na Parêntese e em áudio no perfil de Gonçalo Ferraz no SoundCloud. A versão impressa e completa, com ilustrações de Nena Borges, será vendida em folhetos de cordel na Banca Aberta e no brique da Redenção.
Bubuia – Parte IV
Um banho, um susto e um ronco fecham a noite de bubuia, abençoada com amor e amizade.
O terreno tem uma casa
destacada do arvoredo
por um pátio bem espaçoso
revestido por lajedo
com uma piscina plantada
em meio à pedra alisada,
tão limpa que lava o medo.
A Lua que faz a hora,
o lugar e a feição,
faz de vidro a tona d’água,
lambe pedra e coração
com o mesmo azul deslumbrado,
cor do frio e do pecado,
mistério, cor de perdão.
Disseram que está vazia,
a casa que assim parece.
Chegando junto à piscina
o espelho de água agradece
as carícias da poeira
levantada à sua beira
e vagamente estremece.
A Lua nem se atrapalha
por ver Rodrigo pelado:
A camiseta pousada
sobre o tênis descalçado,
revirado e no limite
junto à saia da Judite,
sem ela, pano jogado.
Sem roupa, vergonha, ou frio,
entram na água discreta
que os acolhe com o apreço
da parceria secreta.
Encostados à parede
sentem flutuar a sede
que o corpo imerso arquiteta.
A abóbada enluarada
que o céu estende honestamente
entre as copas e o telhado
respira o hálito quente
de um silêncio pontuado
por grilos e algum clamado
remoto sinal de gente.
Rodrigo levanta um braço,
chegando a mão, verdadeira,
à face morna da amiga
(que seja amante e parceira!),
toca-lhe o lábio no ensejo
do toque terno de um beijo,
mas ela responde arteira.
Respira e desaparece
num mergulho sem ruído.
Levando corpo e cabelo
cruza a piscina ao comprido
e senta do outro lado
num degrau arredondado,
submerso banco estendido.
A água pelo pescoço,
cabelo agora molhado,
brilhando na luz da lua
e o olhar despudorado,
risonho sinal ciente
de quem já sabe o que sente
quem o sinta assim fitado.
Rodrigo vira de costas,
com os pés empurra a parede
e desliza de bubuia
(porque a noite assim lho pede)
ao sabor da gravidade
que a Judite, por vontade,
lhe solicita e concede.
Ao alcance de um abraço,
gira Rodrigo outra vez
e sente os contornos dela,
impossível liquidez
de um corpo sólido a nado,
correspondente ao chamado
que o desejo agora fez.
O que se deu em seguida,
por qual modo, em qual estado,
pode vir a ser assunto
de um cordel mais arretado.
Quem sabe, já chegou lá.
Quem não sabe, saberá
no momento apropriado.
E havendo alguma leitora
ou leitor que pense nisto
com angústia ou nostalgia
—por um sentimento misto—
perdoe a minha atitude
celebrando a juventude
sem pena de ser mal visto.
Mas também note, senhora,
ou senhor mais renitente,
que o desejo se revela
por forma bem diferente
conforme a oportunidade,
sendo que o fator idade
não é sempre consequente.
Aquilo que agora fazem
estes dois tão abraçados
também se faz com palavras
por olhares, ou com recados,
por silêncios, simpatia...
Até por telepatia
em espíritos mais ousados.
Desejo é que nem baralho
de cartas para jogar.
Tem uns que jogam canasta,
mas sabendo variar
tem pif e até solitário
que é o jeito nem tão precário
do amor próprio triunfar.
E entre nós, também tem isto:
esse banho clandestino
não foi proeza da musa
com seu amante latino.
Foi um bom atrevimento,
bonito amor ao relento...
Pena o corte repentino!
Perto do clímax ardente,
um ‘truz’ de porta, malvado,
jogou água sobre o fogo
que, vejam só que engraçado,
pela água foi aceso
e por água se viu preso,
reduzido, e assustado.
Imóveis, sem sair fora
da piscina-esconderijo,
os dois amigos amantes
já sentem o fundo rijo
desse tanque, agora feio,
há pouco leito de enleio,
alcova de regozijo.
A porta é dentro da casa
(parece, pelo ruído)
e o coração agradece.
Não estará tudo perdido!
Som de passos. Como soa,
será de uma só pessoa,
lá dentro, sem alarido.
Do lugar onde ficaram
se enxerga a parede inteira
da casa junto à piscina.
Sendo a parede traseira
tem um ar domesticado:
varal de roupa esticado
e um rolo de mangueira.
Uma porta e três janelas
em alturas diferentes
levam luz do pátio à casa
e uma janela mais rente
ao apoio do telhado
hoje inverte o costumado
sentido que a luz assente.
Em vez de vir Sol de fora,
aclarando o interior,
é luz interna que sai
com esbranquiçado pudor
e concentra, sem demora,
a atenção de quem, por fora,
prende o riso com temor.
Passam assim três minutos
de silêncio interrompido
por vagos sinais discretos
de familiar ruído
completados finalmente
por um puxão de corrente,
descarga de água e sentido.
Soam passos novamente,
se apaga a luz em seguida
e outra vez a mansa lua
é soberana servida
por todo o bicho calado
que se encontra iluminado
por uma luz tão contida.
Escutam a porta outra vez
e depois, imaginado,
um respiro e ronco—suave
som do sono retomado.
Vai-se o medo e volta o beijo
que entrega os dois ao desejo
de acabar o inacabado.
Não fosse Manaus quem é,
perderiam na água fria
todo o pique de apetite
mais o dom da rebeldia
que faz a gente valente
ao colo do tempo quente,
do engenho e da folia.
Mas só perderam foi peso.
Ganharam proximidade
pela graça que se alcança
na gentil cumplicidade
que vem da entrega sem medo
ao som da lira do aedo
escondido na eternidade.
Já escutam de novo os grilos,
estão fora da piscina.
Vestem as roupas que molham,
saem do pátio em surdina
e o cloro, tão bem dosado,
fica turvo e adocicado
com traços de ocitocina.
Regressam com a bicicleta
pela mão, subindo a estrada.
Chegam na Aline e Joana
com a festa quase acabada.
Ainda tomam saideira
e encerrada a brincadeira
vão-se embora os dois no Strada.
Seguem direto para o Centro
onde certo está Babeca
atirado no soalho
entre o sono e a soneca
à última luz rasante
que a lua passa na estante,
altar-mor da biblioteca.
Tem mais comprimento a casa
que largura. Antigamente
construíam desta forma,
com pouca anchura de frente
e muita profundidade.
Saberiam que a vaidade
encurta o valor da gente?
Bem diferente a mensagem,
o testemunho, a herança
que os antigos jesuítas
nos ergueram na lembrança
pela fachada imponente
de um corpo de igreja ausente:
muito arroubo e pouca dança.
(Vagante como estas rimas
é a conversa de pijama
que a Judite e o Rodrigo
terão sentados na cama.
É a trama de quem conhece
a congruência que tece
pelo tear de quem ama.)
Chegando à Joaquim Nabuco,
veio cheira-los contente
o cachorro estremunhado.
Passada a porta da frente
e à esquerda a sala de entrada
mergulharam na morada
que é feito um ninho de gente.
Pela sala de jantar, contígua
à sala de entrada,
chegaram junto à cozinha
por um arco demarcada
e por um portal menor
entraram no corredor,
eixo da casa esticada.
Ao fundo à esquerda é a porta
do quarto que já se viu,
por onde um pássaro afoito
se infiltrou e escapuliu.
No quarto é que estão sentados,
conversando, os namorados
que este nosso enredo uniu.
Judite ficou de frente
para a porta do banheiro,
encostada à cabeceira.
Se percebe o reposteiro
da sacada à sua esquerda
remexendo a aragem lerda
que anima o pátio traseiro.
Rodrigo parou sentado
aos pés da cama. Os joelhos
abraçados contra o peito
e os pensamentos parelhos
com os dela são magia
da alcançada sintonia
qual rosa em lábios vermelhos.
Daqui a pouco amanhece,
mas ainda vão descansar
entregando a pele ao sono,
abraçados, sem pensar
como o calor se avizinha
do abraço de conchinha,
que faz o corpo suar.
Entre voltas e mãos dadas
apagam profundamente
nesse estado que é isento
e aproxima toda a gente
incluindo os animais,
no embrião tão iguais
a um ser humano latente.
Rodrigo acorda primeiro,
sem sinal de luz do dia,
mas pressentindo a alvorada.
Como a fome se anuncia,
tateando se encaminha
em direção à cozinha
que está de pia vazia.
Como conhece as gavetas
e o interior dos armários
prepara um café cheiroso
com os “comes” usuários:
fruta, queijo, pão e doce
cobiçado ainda que fosse
algo além do necessário.
Também faz ovos mexidos
e ao batê-los, na tigela,
o ruído repetido
soa um pouco tagarela.
Se escuta no corredor
onde o Babeca é senhor
da passagem sem janela.
Coloca numa bandeja
a refeição generosa
e carrega até ao quarto
onde a luz do Sol gulosa
já entra pela sacada.
Cheiro, luz, café... deitada,
Judite acorda amorosa.
– Querido, não acredito!
Meu amor... e quer saber?
Estava sonhando ainda agora...
um sanhaço…pode ser?
Tipo um borrão de aquarela
entrando pela janela
cor da sanha de viver.
Fim do Capítulo 18 do Cordel do Corte Raso.
Acesse a versão em áudio com música de Lucas Duarte e edição sonora de Pablo Schinke via QR Code:

—Gonçalo Ferraz
Gonçalo Ferraz — Professor no Departamento de Ecologia, Instituto de Biociências, UFRGS. Autor do "Cordel do Corte Raso".
Ensaio
Crimes que assombram o mundo


Equipamento projetado para adultos
Fernando Mantelli
Em 16 de junho de 1944, o jovem George Junius Stinney Jr. foi executado na cadeira elétrica. Ele tinha 14 anos e foi a pessoa mais jovem a ser executada nos Estados Unidos no século XX.
O crime:
No dia 23 de março de 1944, Stinney Jr. matou a golpes de barra de ferro as meninas Betty June Binnicker, de 11 anos, e Marie Emma Thames, de 7 anos. Stinney confessou o crime. Baseado na confissão de Stinney Jr. e no depoimento dos policiais, o promotor apresentou na sua sustentação oral um relato perturbador sobre o que aconteceu naquele trágico 23 de março:
As duas meninas brancas andavam de bicicleta à procura de flores. Ao passarem pela casa da família Stinney, encontraram um casal de jovens negros, George e a sua irmã Katherine, e perguntaram a eles se sabiam onde encontrar flores-de-paixão. Os irmãos não souberam informar, e então, elas seguiram seu caminho. Em seguida, George inventou uma desculpa para a irmã e foi atrás das meninas. Ele se aproximou de modo sorrateiro e tentou abusar sexualmente de Betty, que catava flores despreocupada. A menina mais nova interferiu e tentou defender a amiga. George perdeu a paciência e a acertou com uma barra de ferro na cabeça.
Apavorada, Betty tentou fugir, mas George foi mais ligeiro e a alcançou. Ela também recebeu violentos golpes na cabeça – os crânios de cada uma delas foram partidos em quatro pedaços.
Depois disso, George atirou os cadáveres em uma fossa lamacenta e, por fim, sepultou as meninas jogando a bicicleta por cima dos seus corpos.
A violência do crime chocou os jurados brancos, que levaram cerca de dez minutos para deliberarem: George Junius Stinney Jr. foi considerado culpado de homicídio qualificado com agravantes por motivo fútil e requintes de crueldade. Ele foi condenado à morte na cadeira elétrica.
A execução:
Em 16 de junho, menos de três meses depois do julgamento, George foi executado no complexo correcional de Columbia, na Carolina do Sul.
Às 19h30, levando uma Bíblia debaixo do braço, Stinney Jr. caminhou pelo corredor da morte até a cadeira elétrica. O problema foi que o equipamento havia sido projetado para adultos, assim, os guardas tiveram dificuldade para prendê-lo à cadeira e posicionar os eletrodos de maneira adequada. A Bíblia foi colocada sobre o assento para ser usada como uma espécie de banqueta, pois Stinney Jr. era muito pequeno.
Quando a primeira descarga de 2.400 volts foi aplicada, a máscara que cobria o rosto do condenado caiu, pois era grande demais para Stinney. Detrás da máscara, seu rosto se contorcia, e lágrimas escorriam de seus olhos.
Foram três descargas. O que se viu foram contrações involuntárias, espuma escorrendo na boca, necroses surgindo na pele que aos poucos começava a ferver e sair fumaça. Parecia que o corpo do jovem George ia explodir. Depois de quatro minutos exasperantes, George Junius Stinney Jr. finalmente veio a óbito. E isso foi tudo.
Em tempo:
Setenta anos depois, em 2014, o processo foi reaberto. Novas provas foram coletadas e a confissão de Stinney Jr. foi considerada inválida, pois ocorreu sob coação. Ao final, ficou provado que Stinney era inocente. A condenação foi anulada, a justiça voltou atrás. Só George que não pode voltar.
A resposta definitiva para a pena de morte
Eduardo Engel de Oliveira
Em termos de política criminal, as sociedades evoluíram da vingança privada para a Lei de Talião e, posteriormente, para formas mais estruturadas de justiça.
Os sistemas modernos passaram a privilegiar outros objetivos além do simples castigo, focados na reparação do dano à vítima e na reconciliação entre as partes, bem como na prevenção e ressocialização, defendendo que a pena deve servir para recuperar o indivíduo e reinseri-lo na sociedade, além de desestimular novos crimes.
Para os crimes mais graves, contudo, a equação é outra. Crimes de extermínio, como chacinas e massacres, ou homicídios perpetrados aleatoriamente contra inocentes, ainda são um desafio para sistemas legais baseados na evolução dos direitos fundamentais.
O debate sobre a pena de morte envolve questões éticas, jurídicas e sociais. Os argumentos favoráveis defendem basicamente a ideia de justiça severa para crimes hediondos e a proteção da sociedade. Baseiam-se na justiça retributiva, calcada no clássico “olho por olho, dente por dente” — voltamos ao Código de Hamurabi.
Para essa corrente, a pena garante que criminosos de extrema periculosidade não retornem mais à sociedade, traz um sentimento de justiça para as famílias das vítimas e desestimula a prática de crimes mais graves, o que, contudo, aplica-se apenas a alguns casos, já que há muitos do tipo perpetrados por motivações políticas, religiosas ou ideológicas em que os agentes sacrificam a própria vida pela causa.
Por outro lado, dentre os argumentos contrários à aplicação da pena, destacam-se o risco irreversível de matar um inocente e as falhas do sistema judicial. Além disso, não há comprovação estatística ou científica de que ela reduza a criminalidade em maior grau do que longas penas de prisão.
Há também violação a direitos humanos, aplicação majoritária da pena a minorias raciais, étnicas e a pessoas de baixa renda que não possuem recursos para contratar uma defesa jurídica de qualidade. Por fim, envolve alto custo financeiro, pois a manutenção do apenado em sucessivos recursos – mesmo das estruturas que mantêm a execução – torna-a mais dispendiosa ao erário do que a manutenção do preso no cumprimento de penas maiores.
De outra parte, não se pode ignorar casos extremos de internação de indivíduos com diagnósticos de psicopatia grave associados a crimes hediondos, o que faz com que, mesmo em países sem prisão perpétua, o infrator simplesmente não possa voltar ao convívio social, dado o evidente grau de periculosidade que apresenta. Não se pode matá-lo, não se pode soltá-lo.
Sendo assim, para a pergunta sobre a aplicação da pena de morte para indivíduos que matam aleatoriamente inocentes, seja por motivações ideológicas, políticas, religiosas ou simplesmente por extrema violência, a resposta é: claro que sim, considerando a ideia de justiça para crimes hediondos e proteção da sociedade, a garantia de que os criminosos não retornem ao convívio social, o sentimento de justiça para as famílias das vítimas afetadas, e o temor dissuasório em criminosos, desestimulando a prática de novos delitos.
Mas também desconsiderando o risco irreversível de executar um inocente — sob um aspecto contingencial, a rigor você também não está livre disso —, a falta de comprovação estatística ou científica de que a pena reduza a criminalidade, violações de direitos humanos, aplicação seletiva e de viés social, e o seu desproporcional custo financeiro.
Portanto, a resposta é simples, quase simplória. Como todas as respostas definitivas para questões complexas.
—Juremir Machado da Silva
Juremir Machado da Silva — Jornalista, escritor e professor de Comunicação Social na PUCRS, publica semanalmente a Newsletter do Juremir, exclusiva para assinantes dos planos Completo e Comunidade. Contato: juremir@matinal.org
Folhetim
A dama da Duque – Capítulo X
O Retorno
Don José, como eu o chamava agora nas minhas reflexões lembrando do personagem da ópera Carmen, recomendou que saíssemos para o aeroporto cinco horas antes do horário de embarque. Os voos internacionais exigiam apresentação com duas horas de antecedência e o trânsito de São Paulo era extremamente lento, explicou.
— Vai ter que ir a Campinas — falou. — A Varig e a Aerolíneas Argentinas saem de Congonhas, porém já partiram de manhã; então, você vai pegar um voo em Viracopos. Consegui uma passagem na Swissair. E, como lhe falei, Patrícia vai acompanhá-lo até o aeroporto. É lá que vão se despedir.
E me estendeu o livreto característico das passagens aéreas que, mesmo voando apenas até Buenos Aires, tinha umas quatro ou cinco folhas. A primeira era escrita com caneta Bic e as outras eram cópias em carbono vermelho: meu nome real, Pedro N., número do voo, horários e inúmeros códigos e detalhes que só interessavam à empresa e que só ela entendia.
***
Saímos depois de um almoço leve servido na mesma mesa em que tínhamos conversado. Eu tinha gostado do ambiente da casa de Patrícia e do amplo jardim, e estenderia de bom grado a minha estada por mais um dia ou dois, mas o tempo urgia — para mim e para o dono da casa.
Depois de um café excelente, Don José apertou a minha mão. Não chegou a me abraçar, mas segurou meu ombro, dando a entender que me desejava o melhor.
— Assim que chegar, avise a Patrícia por telegrama — falou —, e esse será seu último contato com ela.
Colocamos minha parca bagagem no porta-malas da Mercedes preta e entramos no carro. Começamos a nos movimentar com o característico barulho dos pneus rodando sobre o pedregulho e, antes de cruzarmos o portão de ferro, o motorista de quepe — com um leve sorriso? — fez um movimento discreto, apertando um botão no painel. O vidro escuro que separava o banco de trás subiu silenciosamente, isolando-nos por completo do mundo exterior. O rádio soava baixinho do outro lado, mas ali dentro a calma era absoluta. Patrícia tinha trocado o conjunto de linho branco que usara de manhã por um vestido leve, cor de creme, mas o perfume era o mesmo que eu já reconhecia como parte da identidade da filha de José.
Sentados um perto do outro, com a minha mão no ombro descoberto dela, o som das rodas no pavimento mudou ao passarmos do asfalto quente da Marginal Tietê para o início da Via Anhanguera. Ela me olhou de soslaio, com um meio sorriso que misturava timidez e audácia.
— Sabe que eu mesma ainda não entendo como tive a coragem de fazer o que fiz em Porto Alegre? — disse, a voz suave como seu perfume. — Chegar assim do nada perto de você, sentar na frente de um estranho, ficar olhando fixo feito boba até você me notar... Minhas amigas teriam morrido de rir se me vissem me declarando daquele jeito para um desconhecido.
— Devo ter sido a sua primeira vítima — brinquei, tentando relaxar os ombros.
— A única, aliás... até agora — ela corrigiu, fingindo seriedade, mas rindo a seguir. — Gostei do resultado. Acho que são essas coisas que a gente só faz quando está fora de casa, longe da rotina e do próprio habitat, sabe? Estar fora liberta as pessoas. Em São Paulo, cercada pela família, pelas expectativas e pelas amigas de sempre, eu nunca teria tido essa ousadia. Mas ali, naquele hotel, sem ninguém que me conhecesse ou reparasse em mim, decidi que podia ser outra pessoa por uma noite. E ainda bem que me decidi a agir.
— Ainda bem mesmo — concordei. — Mas não pense que ninguém reparava em você. Uma mulher belíssima e bem-vestida como você atraía todos os olhares. Muitos homens devem ter sentido inveja de mim.
— Assim como muitas mulheres devem ter cobiçado você. Só que hoje de manhã, quando você saiu da cama e me abraçou, senti que nosso affaire tinha ficado inacabado, como a sinfonia de Schubert. Confesso que fiquei te desejando desde esse momento.
— Eu também — tentei falar, porque o coração disparou com tanta violência que as palavras custavam a sair da garganta.
A partir desse instante, acho que não fomos mais donos de nossos atos; o desejo acumulado tomou conta de nós. O primeiro toque de nossas peles e de nossos lábios funcionou como uma embriaguez instantânea — embriaguez de amor, acho que é o título de um filme —, desarmando qualquer tentativa de lucidez. (Inacreditável associar um momento de êxtase ao título de um filme; penso que uma parte de nosso cérebro permanece como um agente externo, um superego controlador, observando-nos criticamente mesmo sob o domínio da libido).
Foi assim que nos agarramos com frenesi e nos entregamos a beijos intermináveis, profundos e urgentes, que quase nos impediam de respirar enquanto o carro ganhava velocidade pela autoestrada. Os vidros cobertos com película escura nos despiram de qualquer pudor. Quando a minha mão deslizou por baixo de seu vestido, todo o resto do mundo desapareceu. Consumamos aquela paixão febril, acumulada durante poucos dias que aparentavam anos, no couro do banco traseiro da Mercedes. Possuídos pela luxúria, completamos as ações que tínhamos começado na sala de televisão do hotel Duque.
Depois, quando a volúpia se acalmou e se transformou pouco a pouco em gestos de carinho, ficamos com a esperança de que a música que o motorista escutava tivesse abafado suspiros, gemidos e outros sons associados ao que acabávamos de fazer. E torcemos para que ele não tivesse desviado os olhos da estrada, apesar de a divisória escura aparentar ser impenetrável à luz e ao som.
A distância e a lentidão do trânsito alongavam a viagem. Deu tempo para relaxar, nos recompor e acho que até dormimos um pouco.
Uma hora depois, vendo que o carro estava se aproximando de Campinas, Patrícia ajeitou o vestido, verificou se eu estava apresentável e apoiou a cabeça no meu ombro, com a respiração pausada e profunda.
***
No saguão do aeroporto de Viracopos, saímos do isolamento do banco traseiro do carro para mergulhar numa massa humana agitada e ansiosa. A atmosfera estava impregnada pelo clima de exceção da época: soldados do Exército empunhando metralhadoras vigiavam cada canto do terminal, e policiais federais de rostos fechados esgrimiam como armas seus carimbos, que tinham o poder de decidir entre sair ou ser detido, entre ser expulso ou entrar. O medo, que havia ficado abafado por outras emoções dentro do carro, voltou a circular pelas minhas costas. Caminhamos tensos até o balcão.
Ali, no momento de apresentar os documentos, precisei manter o sangue-frio. A carteira de residente temporário no Brasil sob o nome falso de Ramiro Herrera Solís já não servia. Por isso, tanto no balcão da Swissair quanto na imigração da Polícia Federal em Viracopos — e, mais tarde, em Ezeiza —, tive que apresentar meu passaporte argentino, com meu nome de nascimento: Pedro N. Eu era apenas um cidadão argentino comum retornando ao seu país depois de uma breve permanência no Brasil.
Antes de passar pela imigração, paramos para o adeus que ambos sabíamos ser o último.
— Venha comigo para Buenos Aires — propus, segurando suas mãos com uma urgência que não conseguia disfarçar. — Deixe tudo isto para trás.
Patrícia olhou ao redor, fitando os soldados armados na entrada da área de embarque, e balançou a cabeça com um sorriso triste.
— Não posso, Pedro... — sussurrou, usando finalmente meu nome verdadeiro. — Meu pai procuraria por nós até no inferno. Ele não vai desistir de mim. Se eu for, colocarei nós dois em um perigo muito maior do que você já está correndo.
Fiquei em silêncio, engolindo o realismo cru de suas palavras. Tínhamos vivido uma ilusão. Secando uma lágrima da face, ela tentou sorrir e brincou, adaptando a frase famosa do filme Casablanca:
— Sempre teremos Porto Alegre.
— Teria preferido que fosse Paris — respondi, com a voz entrecortada, tentando conter minhas próprias lágrimas e parecer firme enquanto agonizava.
Ela me beijou outra vez — um beijo longo, com gosto salgado de lágrimas e de suor. O ar-condicionado do aeroporto não fora calculado para a multidão que o enchia.
Não tínhamos mais palavras, de modo que fui me aproximando com passos inseguros dos guichês da Polícia Federal, hesitando entre retornar para mais um abraço e tentando aparentar a tranquilidade de quem não matou ninguém nos últimos dias e está apenas voltando de uma bem-sucedida viagem de negócios.
Mesmo assim, voltei para mais um abraço, e desta vez nós dois choramos.
Depois, com passo decidido e sem olhar para trás, entrei na fila do controle de imigração (era o que dizia a placa, ainda que eu estivesse de fato emigrando). Chegada a minha vez, os policiais olharam o documento, olharam para o meu rosto, olharam de novo o documento, de novo para meu rosto, pediram para tirar os óculos e, finalmente, após uma eternidade de segundos, carimbaram uma página aleatória sem levantar as sobrancelhas.
***
Dentro do avião, um Douglas DC-8 com as cores vermelha e branca da Swissair, o astral era outro. Um comissário de bordo me indicou a primeira classe. Explicou baixinho que fora um upgrade pelo fato de o trecho até Buenos Aires estar com pouca ocupação, mas eu suspeitava que era um agrado da mão invisível de Don José.
Sentado nas poltronas largas de couro, meu estranhamento foi profundo. Não era apenas pelo luxo inédito, pelos talheres de metal ou pelo champanhe oferecido antes de decolar por uma aeromoça loira que falava espanhol perfeitamente. Era um distanciamento existencial, quase metafísico. Eu vinha de um submundo de suspeitas, porões, crimes, monumentos positivistas, calor estafante, ônibus com cheiro de mijo, pistolas com e sem balas, sexo com uma garçonete que apenas conhecia e contato direto com sangue e morte. Porém, ao subir aqueles degraus até a cabine da primeira classe, me via de repente em uma atmosfera de normalidade absoluta. Uma vida limpa e bem iluminada que corria sem medos, sem surpresas, onde as pessoas viajavam felizes, levavam crianças e sacolas cheias de presentes e sorriam como se o mundo lá fora não estivesse em guerra. Sentia-me um intruso, um fantasma assustador invadindo os sonhos bem-aventurados de outra pessoa. Apenas o amor de Patrícia me redimia, mas não me tornava um semelhante dos outros passageiros.
Em todo caso, assim que as rodas do DC-8 se separaram do solo brasileiro, emiti um profundo suspiro e me dediquei a desfrutar dessas delícias “burguesas”, como diriam meus amigos de esquerda: champanhe, janta com vinho francês, queijo e chocolate suíço, conhaque, café e finalmente esticar as pernas sobre um descanso que emergia da poltrona, e fumar um cigarro, o que era permitido na época. Dormi o restante do voo, que foi curto demais para minha necessidade de apagar eventos recentes.
Não tinha acordado completamente e já estávamos descendo no aeroporto de Ezeiza, que nos recebeu com o seu costumeiro vento frio das noites de janeiro e com aquela mistura de cheiro de querosene e pampa úmida que nenhum outro lugar do mundo tem. Passar pela imigração e pela alfândega foi mera formalidade, apesar da onipresente e intimidante vigilância dos soldados armados com fuzis automáticos. Depois, troquei os cruzeiros por pesos na sucursal do Banco Nación e, aproveitando que a herança do tradutor tinha sido mais substancial do que eu esperava e que eu não pensava entregá-la para a “causa”, decidi pegar um remis da eterna concessionária do transporte de Ezeiza ao centro: a empresa de ônibus e remis de Manuel Tienda León. A poucos quilômetros da saída do aeroporto, um forte posto de controle de policiais e militares com braçadeiras luminosas inspecionava cada veículo e cada passageiro. Apresentei meu passaporte real de Pedro N. e minha credencial do ministério. Para eles, eu era tão somente um burocrata retornando e pude continuar a viagem tranquilamente. Finalmente estava em casa.
As ruas de Buenos Aires estavam quase desertas; apenas de tempos em tempos cruzávamos com algumas tropas, jipes militares e soldados que patrulhavam algumas das esquinas mais “estratégicas” da capital sob a luz esverdeada dos postes de iluminação.
Quando finalmente entrei no meu apartamento em Almagro, senti que podia relaxar. Tranquei a porta com três voltas de chave. O cheiro de casa fechada, a visão dos meus livros e dos meus móveis e de uma garrafa de vinho pela metade me trouxeram uma paz inesperada. Senti-me como um hobbit retornando ao seu refúgio seguro. Eu estava temporariamente a salvo.
Fiz um café e acrescentei à infusão um pouco de um conhaque de boa qualidade – a aeromoça da Swissair tinha me presenteado com um conjunto de garrafinhas em miniatura. Liguei a televisão: uma senhora loira, rodeada de objetos esotéricos, falava das grandes vantagens de ter nascido sob o signo de Aquário. Programação típica das duas da manhã.
Dormi no sofá, sem desligar a televisão e sem abrir a mala.
***
Na manhã seguinte, a campainha me acordou mais cedo do que eu desejaria. Era a entrega de um telegrama e alguém tinha que assinar o recebimento. O prédio tinha um porteiro, mas os seus horários eram definidos de acordo com as suas próprias conveniências. Desci até a entrada do edifício; por sorte, tinha dormido vestido e isso acelerou o trâmite. O telegrama era de Patrícia: “Espero que tenha chegado bem. Se cuida. Te amo”. Teria que passar numa agência dos correios para telegrafar a resposta.
Entrando de volta no apartamento, notei um pedaço de papel perto da porta. Alguém tinha deslizado uma mensagem durante a noite, ou de manhã cedo, visto que já eram dez horas. Tratava-se de meia folha arrancada de um caderno e o texto era quase tão conciso quanto o do telegrama, mas sem um “te amo” como despedida. Tinham escrito em espanhol: “Parabéns companheiro! Nos vemos no El Londres às cinco em ponto da tarde”.
Às cinco horas de uma tarde calorenta, eu estava sentado em uma mesa do bar Londres, na Avenida de Mayo, não muito longe da Casa Rosada ocupada pelos militares, nem do ministério onde eu trabalhava. No caminho, tinha passado pelo enorme prédio dos correios para enviar um telegrama a Patrícia. Sem um “te amo” no final, porque podia ser lido por Don José.
Pedi um café e, antes que ele chegasse, apareceu um homem vestindo uma capa de chuva comprida, apesar do calor e do fato de não estar chovendo, e sentou-se à minha frente. Pediu também um café. Era o contato do grupo de esquerda que, agora eu sabia, me enviara a Porto Alegre.
— Parabéns, companheiro — ele disse, num sussurro quase inaudível, mantendo os olhos na rua através da vidraça e as mãos nos bolsos do impermeável. — Você eliminou um esbirro da repressão e, se bem que não conseguiu salvar o uruguaio, destruiu os documentos mais comprometedores. A missão foi cumprida com maestria.
Não quis esclarecê-lo sobre quem era o esbirro e quem o herói até porque não estava seguro de qual era a história verdadeira. Decidi usar uma pequena ironia como resposta:
— Teria destruído todos os documentos — falei —, se os vasos sanitários brasileiros não entupissem tão facilmente.
Mal ele ouviu meu comentário irônico sobre as privadas. O homem levantou-se tão rapidamente quanto havia chegado, e nem esperou o seu café vir. Me deixou sozinho com dois cafés para beber e para pagar. E pensei cá com meus botões que talvez eles achassem que tudo tinha sido um ato planejado de heroísmo revolucionário, quando eu só havia tentado salvar a minha própria pele, e tinha fugido com a ajuda de um grande burguês aliado dos militares.
***
Voltei ao trabalho na segunda-feira seguinte. Carimbei documentos, arquivei memorandos, e ninguém no escritório notou que o Pedro N. que havia partido era um homem diferente do que havia voltado. Continuava enamorado.
Escrevi para Patrícia algumas vezes, enviando as cartas para o endereço de uma de suas amigas que tinha viajado com ela a Porto Alegre.
Porto Alegre.
A cidade ficara gravada na memória, com seus monumentos positivistas, suas praças, seus hotéis luxuosos, suas torradas sem torrar, seus frutos exóticos, sua desconfiança disfarçada de cordialidade, seus engraxates preciosistas, seu absurdo castelinho e suas garçonetes sedutoras. Por falar em garçonetes, perdi o contato com Marisa; fui descuidado com ela, não dei importância para a moça, provavelmente a única pessoa inocente em toda esta história, nem pedi seu endereço, nem sei se ela ficou segura em Porto Alegre. Também não pensei em pedir informações sobre ela para Don José, talvez temeroso de que isso pudesse minguar o amor da filha por mim ou as simpatias dele pelo possível namorado. E por falar em amores, Patrícia respondeu com longas cartas no início, que eu também recebia em um endereço falso, mas as mensagens foram rareando.
Por fim, no início de um inverno frio, quiçá cinco ou seis meses depois do meu retorno, e quando estava começando a perder o medo de ser assassinado por algum comparsa do Sandro, chegou a última carta. Ela me comunicava que estava prestes a se casar com um jovem engenheiro de uma tradicional família paulistana. O curioso é que não se desculpava nem lamentava que nosso amor, se existiu, terminasse assim, mas explicava que, por razões que eu deveria entender, não podia me convidar para o casamento.
Ao ler aquelas linhas, repassando as datas e a lembrança daquela cópula febril no banco traseiro da Mercedes em plena Via Anhanguera — onde tínhamos nos entregado ao prazer sem qualquer tipo de proteção —, uma suspeita se instalou na minha mente. Don José, com sua rede infinita de contatos e sua obsessão por aparências, certamente havia arrumado um bom marido para a filha, e um pai oficial para o neto ou neta que Patrícia carregava no ventre e que, possivelmente, era meu filho. Nunca tive como confirmar. E a comunicação terminou para sempre.
EPÍLOGO
Os anos se passaram e, surpreendentemente, eu continuei vivo. Sobrevivi aos piores anos do terror de Estado na Argentina, camuflado na minha mediocridade de funcionário público, mantendo a cabeça baixa e os segredos trancados no peito.
A junta militar, presidida por um general alcoólatra, declarou guerra à Grã-Bretanha, e o clima nacional foi tomado por um nacionalismo histérico. Como funcionário civil do Ministério, recebi a convocação oficial na semana passada: fui designado para prestar serviços burocráticos e logísticos em Puerto Rivera, ou Puerto Soledad, ou Puerto Argentino - foram muitos nomes para a capital das ilhas - assessorando o recém-nomeado governador.
Vou para o front.
Pela segunda vez na vida, colocaram uma arma na minha mão. Não sei se retornarei com vida. Não sei se serei vítima do fogo inglês ou do fogo amigo. Por isso, na véspera do meu embarque, procurei Ricardo, um velho amigo e advogado. Entreguei-lhe este relato, junto com a cópia em carbono daquela passagem da Swissair, as notas do hotel Duque e do hotel Plaza, as cartas de Patrícia e a velha identidade brasileira de Ramiro Herrera Solís, tudo guardado em um envelope selado.
Deixei uma única instrução escrita à mão na capa: Abra-o somente em caso da minha morte.
FIM
—José Roberto Iglesias
José Roberto Iglesias — Nascido na Argentina, é professor emérito da UFRGS, com atuação nos departamentos de Física e Economia.
Feira do Livro de Porto Alegre
Palestina Revelada

Capítulo Um
As chaves que carregamos
Estamos em 1977. Minha irmãzinha Aida, com menos de um ano de idade, chora nos braços da minha mãe enquanto somos repreendidas por soldados israelenses, que nos ordenam que saíamos do ônibus quente e lotado que nos levava pela ponte Allenby, na fronteira, que liga a Jordânia à Palestina ocupada.
Todos nós, palestinos, saímos e caminhamos até uma guarita. Estamos acostumados com esse processo. É sempre assim quando voltamos à terra natal ocupada, onde as famílias da minha mãe e do meu pai viveram por gerações e gerações. A guarita fica entre nós e um conjunto de grandes edifícios, onde seremos obrigadas a esperar por horas, ou até mesmo o dia inteiro, submetidas a checagens.
Logo no ônibus, um soldado das Forças de Defesa de Israel (FDI, também conhecida pela sigla em inglês – IDF) abre a bolsa de bebê que minha mãe carrega, pega a fórmula infantil, as mamadeiras e todas as fraldas de Aida, jogando-as em uma grande lixeira, juntando-as a uma série de outros itens pessoais retirados das pessoas que desembarcaram antes de nós.
Ao ver as fraldas e a comida da bebê irem para o lixo, minha mãe fica estressada. Ela implora aos soldados, sabendo que poderíamos ficar na fila por mais oito horas à espera de uma autorização para viajarmos – de Amã a Jerusalém e depois a Belém – o que deveria levar menos de duas horas de carro. Os soldados riem. Um deles zomba da minha mãe. Sinto-a enrijecer, vejo suas bochechas corarem, sinto-a reprimir uma resposta, enquanto lida com a dor da humilhação. Detesto vê-la assim, sendo desrespeitada dessa maneira.
Mas não temos escolha. A ponte Allenby continua sendo, até hoje, a única passagem oficial entre a Cisjordânia e a Jordânia, onde vivem milhões de palestinos – palestinos como minha família, que foram expulsos à força durante e desde a Nakba (do árabe, catástrofe) de 1948; e é o único ponto de saída/entrada designado para os palestinos da Cisjordânia.
O resto do dia é uma névoa na minha memória. Eu era adolescente. Lembro-me do calor, do edifício ecoante cheio de viajantes e soldados, das filas intermináveis para passar de um tipo de vistoria para outra. Mas as revistas íntimas ficaram na minha memória; a humilhação de me despir, ficando apenas com a roupa íntima, sob o olhar dos soldados israelenses que gostam de ver as pessoas a se contorcer, que as passam por máquinas e revistas com varinhas e depois ainda apalpam cada parte do corpo com mãos ásperas. O mesmo acontece com os gritos, dirigidos a qualquer pessoa que ouse sentir-se confusa, fazer uma pergunta ou olhar nos olhos deles. Os soldados chamavam mulheres como a minha mãe de sharmouta (prostituta) ou homens da idade do meu pai de hmar (burro). Tudo isso, é claro, ainda visceral, como a emoção que surgiu em mim naquele momento.
Esse constante desrespeito, essa instilação deliberada de medo por parte dos soldados israelenses, constitui o que significa ser palestino há várias gerações: a humilhação sistemática e ritualizada é o preço a pagar por querer visitar nossa família em nossa própria terra natal roubada e ocupada. O sistema tem um objetivo: tornar cada visita o mais traumática possível para que menos pessoas voltem no ano seguinte.
Dez anos antes, em 1967, com apenas cinco anos de idade, aprendi outra coisa sobre ser palestino. Acolhido no peito da minha mãe, em um porão úmido em Amã, na Jordânia, ouço, acima de nós, os jatos israelenses rugindo como trovões. Trovões que duram muito tempo, sacudindo janelas, dentes, ossos, sanidade. Minha mãe segura a mim e à minha irmã mais nova, que na época tinha três anos de idade. Tento ser corajosa, por ambas. Mas, para ser sincera, estou apavorada. Ouvi nossos vizinhos, lá embaixo conosco, conversando em voz baixa sobre como as caldeiras ao nosso redor poderiam explodir com um único tiro. Observo os grandes contêineres metálicos de gás, esperando que explodam.
No entanto, mesmo naquele porão, cercados pelas máquinas de uma guerra destinada a nos exterminar, algo inquebrantável persistia. O aroma do chá de cardamomo que minha mãe estava preparando quando as sirenes de ataque aéreo começaram a soar. O perfume dela, que permanecia em sua clavícula. O toque tranquilizante da mão do meu pai em meu ombro. A suave canção de ninar em árabe que ela cantarolava para nos dar algo para ouvir, sob o barulho dos caças.
Aprendi uma verdade, talvez inconscientemente, mas senti no meu íntimo: não importa quem tente nos exterminar, a cultura palestina permeia, sobrevive e até prospera em nossas famílias, nossas histórias, nossas memórias, nossas canções, nossos corações. Aquelas noites amontoados no porão foram durante a guerra de 1967, que viu Israel lançar um ataque devastador e expansionista contra os países vizinhos e ocupar o resto da Palestina, bem como as Colinas de Golã, na Síria, e o Sinai, no Egito. Mas os cinco dias naquele porão não são onde nossa história começa. Ela teve início na virada do século, mas, por enquanto, vamos voltar a 1948, quando, para minha mãe e tantos outros, essa história em particular começou.
“Tínhamos uma linda casa em Jerusalém Ocidental, habibti”, minha mãe, Nawal, começava a contar. Sinceramente, estávamos todos um pouco cansados de ouvir a mesma história, mas tentávamos ouvir com paciência mesmo assim. Parecia algo que ela precisava contar. “Morávamos todos lá – eu, meus irmãos, nossos pais. E tínhamos um prédio em Haifa, no Monte Carmelo”.
Nawal Shukri Halaby nasceu em Haifa e suas histórias sobre como foi crescer na Palestina, em sua casa em Jerusalém, chegaram até nós por uma voz que expressava tristeza e raiva, mas também resistência e determinação – como se ela sentisse que, se eles podiam roubar nossas casas, pelo menos nunca poderiam nos roubar nossa essência. Os palestinos ainda carregam as chaves de suas casas roubadas. Chaves passadas de geração em geração, de latão e ferro desgastadas, que eram tudo o que nos restava das casas que nos foram roubadas, das quais sen-tíamos saudade e pelas quais ansiávamos. Mas os meus avós não guardavam as chaves apenas como símbolos e lembranças, guardavam-nas como prova, tangível, de que as casas de suas famílias ainda cheias de móveis lhes pertenciam. Prova de que o slogan sionista de que a Palestina era “uma terra sem povo” não passava de propaganda, uma mentira conveniente para disfarçar o roubo de suas casas.
Minha mãe tinha apenas dez anos em 1948, quando entre 750 mil e um milhão de palestinos foram vítimas de limpeza étnica, expulsos por grupos terroristas sionistas e forçados a viver como refugiados da noite para o dia, desesperados para escapar dos massacres e assassinatos sistemáticos de palestinos que aconteciam em sua terra natal. Como a maioria dos palestinos, meus avós nem sequer empacotaram seus pertences pessoais, pensando, razoavelmente, que a violência iria diminuir; que eles voltariam para casa em poucos dias, ou semanas, no máximo. Eles nunca foram autorizados a voltar. Minha mãe acabou indo para um internato no Líbano. Ela se formou aos dezesseis anos e foi para a Universidade Americana de Beirute estudar psicologia, graduando-se com honras. Ela recebeu uma bolsa Rhodes para fazer pós-graduação na Universidade Brown, mas decidiu se casar com meu pai. Minha mãe também era uma artista talentosa, uma das poucas mulheres na Jordânia que estudou com a renomada artista Princesa Fahrelnissa Zeid. Ela expôs suas obras, mas sempre as presenteava, respeitando o desejo de meu pai de que ela não vendesse suas pinturas.
Meu pai estava em um internato em Jerusalém na época da Nakba. Com cerca de onze anos, ele também foi forçado a sair e continuar os estudos em Beirute, uma cidade completamente nova para ele, antes de poder retornar, alguns anos depois. Após o ensino médio, ele se formou em Economia pela London School of Economics.
Meus pais falavam e estudavam três idiomas fluentemente. Meu pai continuou com os negócios da família e atuou como cônsul honorário da Jamaica. Se a Jamaica parece aleatória, vou explicar que uma de suas irmãs, Aida Kattan, casou-se com Johnny Issa, um palestino de Belém da Jamaica. A diáspora em curso espalhou nossa família por toda parte: minha tia, Laila Kattan Sousa, a irmã mais velha do meu pai, mudou-se para Paris; seu irmão, Tony, para a Suíça; e sua irmã mais nova, Zein, para Portugal.
Foi preciso esforço, tempo e perseverança para voltar à Palestina enquanto crescia, mas guardo com carinho as lembranças dessas visitas a Belém, passando tempo com parentes que viviam firmemente sob ocupação. Lembro-me do frescor das pedras da casa da nossa família ancestral, rodeada por oliveiras antigas e retorcidas, carregadas de frutos e de um forno tabun no jardim, no qual se assava pão fresco todos os dias. Tínhamos refeições familiares deliciosas e abundantes que duravam horas, com conversas que entrelaçavam o passado e o presente. Nossas tias passavam longos dias preparando compotas frescas com frutas palestinas da estação – em especial a incrivelmente perfumada mishmish mistkawi, um tipo específico de damasco palestino de temporada muito curta, mas que tem um sabor divino, seja fresco ou concentrado em conservas doces.
A David Ben-Gurion (nascido David Grün, na Polônia), primeiro a ocupar o cargo de primeiro-ministro de Israel é atribuída a afirmação de que os idosos na Palestina morreriam e os jovens se esqueceriam. Setenta e sete anos após a Nakba de 1948, acho que é seguro dizer que ele estava errado. Os palestinos se lembram de tudo. A primeira geração de sobreviventes da Nakba lembra-se do perfume de jasmim que subia pelas paredes de seus casarões em Jerusalém, do padrão específico dos azulejos de suas cozinhas e do cheiro dessas cozinhas à noite, quando o jantar era preparado. Eles lembram-se dos nomes de seus vizinhos palestinos – cristãos, muçulmanos e judeus que viveram lado a lado por gerações.
A memória tem alguma importância? É real? É uma prova? Para todo um povo que foi morto ou expulso e forçado a partir sem seus pertences, fotografias, roupas – sim, a memória é a única coisa real. Nós, palestinos, aprendemos que nossos bens e nossas casas podem ser roubados. Mas nossas memórias não.
As consequências do dia 7 de outubro de 2023 trouxeram uma revelação que destruiu tudo o que eu pensava saber sobre a compreensão do mundo em relação à Palestina. Na grande mídia, era como se a história tivesse começado naquele dia, sem qualquer referência ao cerco cruel – e ilegal – de Gaza, que havia começado décadas antes. Com o passar do tempo, enquanto assistia a um genocídio transmitido ao vivo, ignorado pelos governos ocidentais e pela mídia tradicional, ou acompanhado de narrativas distorcidas para sugerir que matar milhares de civis era de alguma forma aceitável, percebi algo que me mudou para sempre: muitas pessoas no Ocidente não sabiam praticamente nada sobre os palestinos – nem sobre nossa história, nossa cultura, nem mesmo reconheciam nossa humanidade básica.
“É complicado” era uma frase que eu ouvia com frequência. As pessoas achavam que o conflito era antigo, complexo e quase impossível de compreender.
De certa forma, essa é uma conclusão compreensível. Todos têm assistido a variações desse “conflito” há tantos anos que ele realmente parece avassalador e, sim, complexo. Mas, enquanto eu estava em Londres nos meses após o 7 de outubro de 2023, vendo famílias palestinas serem exterminadas enquanto governos ocidentais forneciam inteligência e armas ao governo de Israel, comecei a entender que essa chamada complexidade não era acidental; ela era fabricada. Cuidadosamente construída para criar uma profunda ignorância que permitisse a continuação da limpeza étnica dos palestinos e que agora culminava em um verdadeiro genocídio.
Não é possível ignorar um genocídio – e, uma vez que você o vê, compreende que tudo o que lhe foi dito sobre a Palestina ser “complicada” foi feito para ocultar uma verdade simples: esta é uma história de povos indígenas sendo sistematicamente eliminados por colonizadores. De repente, o porão em Amã fez sentido. No fim das contas, não estávamos nos escondendo de uma única guerra – estávamos nos escondendo de uma campanha de eliminação que nunca realmente parou.
A história da minha família é apenas um fio numa tapeçaria que remonta a milênios. Eu queria compartilhar minha perspectiva, tanto através do podcast The Enlightenment, que comecei para discutir pontos de vista e ideias sobre a Palestina que são ignorados pela mídia tradicional, quanto agora através deste livro. Porque, uma vez que você entende quem os palestinos realmente são, e sempre foram, todas as mentiras que lhe foram contadas desmoronam.
Não sou historiadora, política ou acadêmica. Mesmo assim, gostaria de pensar que este livro conta uma história muito negligenciada, que abrange alguns eventos políticos e históricos surpreendentes e de tirar o fôlego. Mas, neste capítulo, estou compartilhando as histórias e a herança da minha família, não para mostrar nossas conquistas (embora sejam muitas e eu tenha orgulho delas), mas como um primeiro passo para convidar você a reconsiderar tudo o que lhe foi dito sobre a Palestina.
Venha comigo até a casa do meu avô, em Amã, na década de 1960; um belo casarão de pedra situado no Terceiro Círculo, hoje um patrimônio histórico, com amplos jardins que recebiam reuniões semanais. O aroma do café árabe sempre sendo preparado. O som de conversas animadas em árabe, inglês e francês. Chá de menta fresco. Mesas repletas de tantos pratos que parecia sempre um dia de festa. Um fluxo constante de visitantes que vinham ver meu avô: refugiados palestinos em busca de ajuda, empresários em busca de parcerias, intelectuais de-batendo o futuro da Palestina e da região.
Meu avô paterno, Tewfic Mathias Kattan – carinhosamente conhecido como Sido para nós e El Basha e Abu Fuad para os outros – foi o homem que me ensinou que os palestinos não eram apenas sobreviventes, mas líderes que continuavam a construir mesmo no exílio. Se a narrativa colonial gostava de afirmar que os palestinos eram uma cultura “primitiva”, Tewfic Kattan virou essa ideia de cabeça para baixo. Ele era uma força da natureza que falava cinco idiomas, ao mesmo tempo em que servia ao seu povo no governo e construía um império empresarial.
Tewfic foi membro do parlamento em Belém, de 1950 a 1956, até perder temporariamente a visão. Recebeu o título de Pasha do rei Abdullah I da Jordânia por suas contribuições econômicas, industriais e filantrópicas. Foi cônsul honorário da Suíça na Jordânia e recebeu a medalha dos Cavaleiros de Malta – o Chevalier de Malte – por ajudá-los a estabelecer uma base em Belém.
Mas suas conquistas foram muito além da política e da diplomacia. Além de estabelecer negócios relacionados à distribuição, lojas de varejo de eletrônicos e concessionárias de automóveis, Tewfic fundou o primeiro entreposto alfandegário privado da Jordânia – um depósito isento de impostos que revolucionou o comércio. Ele foi cofundador da primeira e única empresa de energia elétrica da Jordânia, uma sociedade anônima de capital aberto na qual atuou como vice-presidente e na qual meu pai, Fuad, mais tarde se tornou membro do conselho.
Meu avô também fundou a Intaj, um grande complexo industrial com fábricas de detergentes, sabonetes, biscoitos, sorvetes, tintas, produtos de higiene pessoal e embalagens. Ele atuou como presidente até sua morte, em 1975, quando meu pai assumiu o comando. Meu avô tinha outra fábrica de mármore e azulejos, e meu pai mais tarde fundou uma fábrica de tapetes. Mais presente em minha memória está a fazenda de oliveiras Al Zaitouneh, do meu avô, nos arredores de Amã. Com mais de vinte mil oliveiras, ela produzia um delicioso azeite de oliva; um sabor que lembro até hoje e uma riqueza que ele compartilhava generosamente com a família e os amigos.
Desde o momento em que comecei a andar, passei inúmeras horas na casa do meu avô em Amã, observando-o conduzir negócios em vários idiomas. Durante as férias escolares, ele me levava (orgulhosamente, carregando minha minipasta) para seus escritórios no centro de Amã para que eu pudesse “trabalhar” e para suas fábricas durante suas visitas regulares ao local. Eu era a mais velha de seis meninas e não tínhamos irmãos. Sido sempre me incentivou a entrar no mundo dos negócios e ser independente. As famílias palestinas, como tantas comunidades no exílio, tendem a valorizar muito a educação e as realizações de seus filhos, independentemente do gênero.
Tewfic Kattan tinha dezoito anos quando se estabeleceu entre a Jordânia e a Palestina, dando continuidade aos negócios de seu pai. Quando a Nakba eclodiu, em 1948, ele estava em posição de ajudar os palestinos que tiveram tudo roubado pelos israelenses e que nunca foram autorizados a retornar para recuperar suas casas, terras e negócios. Mas o que me impressionou, mesmo quando criança, foi que os palestinos que chegavam à sua porta não eram casos de caridade em busca de esmolas. Eram professores, médicos, engenheiros, artistas, empresários e líderes cívicos que tiveram tudo roubado da noite para o dia. Pedir ajuda era motivo de vergonha, mas, para cuidar de suas famílias, eles pediam uma oportunidade de reconstruir, uma chance de recomeçar, mas não pediam piedade; nunca pediam piedade.
A generosidade do meu avô era lendária, mas era uma generosidade incrivelmente informada – combinando pessoas qualificadas com oportunidades, criando redes que se estenderiam por décadas. Só compreendi isso verdadeiramente anos mais tarde, quando visitei a Palestina e a Jordânia, já adulta, e ouvi histórias dos filhos e netos das pessoas que ele tinha ajudado. Para essas famílias, o legado do meu avô era algo apreciado e discutido como parte da sua história familiar. Foi uma ex-periência muito comovente.
Essa era a sociedade palestina na época do meu avô: sofisticada, educada, colaborativa. A generosidade de Tewfic era tão conhecida que ele era chamado por Raja Al Issa, proprietário de um importante jornal diário chamado Filasteen (Palestina), de Kareem Al Difatein, que pode ser traduzido como “o generoso das duas margens” (referindo-se à Cisjordânia e à Margem Oriental). Muitos outros escreveram sobre ele e suas realizações, incluindo Elia Nuqul, que começou sua carreira na empresa do meu avô e que fala sobre Tewfic em sua maravilhosa biografia The Boy From Ramleh.
O nome Kattan estava entrelaçado na história da Palestina, mesmo quando não sabíamos que nosso destino estava sendo decidido nas capitais europeias por pessoas que nunca haviam pisado na Palestina. O avô de Tewfic, Moussa Kattan, foi prefeito de Belém, em 1925. Meu trisavô, Jiries Kattan, do lado da família Kattan da minha avó, era um juiz proeminente em Belém, representando gerações de especialistas jurídicos palestinos. A árvore genealógica se espalhou por continentes – minha avó Margaritte tinha cinco irmãos e três irmãs, e a maioria deles emigrou para todo o mundo, incluindo o Sudão, o Chile, o Japão, a Índia e a Inglaterra, tornando-se muito bem-sucedidos na fabricação de têxteis e outros negócios. Sua irmã, Victoria Kattan Hirmas, tornou-se empresária no Chile, com sua própria fábrica de botões.
Minha avó – Teita Margo – também era uma Kattam de Belém, mas de outro ramo da família. Ela falava cinco idiomas fluentemente e atuou como vice-presidente do Crescente Vermelho, em Amã, por mais de uma década, prestando assistência humanitária a refugiados palestinos. Era uma católica devota, profundamente caridosa, mas de maneira discreta. Nos fins de semana, ela me lia romances em francês e espanhol, sua voz dando vida aos personagens em idiomas que fluíam musicalmente de sua língua.
Na época, é claro, eu não sabia disso, enquanto estávamos sentadas no salão iluminado pelo sol, lendo juntas, mas cada conversa com ela era mais uma prova que desmentia a propaganda colonialista. Os palestinos são atrasados? Essa mulher discutia literatura em vários idiomas, lia e rezava em latim.
Meu avô Tewfic tinha oito irmãs notáveis, cada uma com sua própria história de resiliência e conquistas. Deixe-me contar-lhe sobre apenas uma delas, Julia (tia Joujou para nós). Em 1972, quando o mundo tentava esquecer que os palestinos alguma vez existiram, a tia Joujou fez algo extraordinário. Ela fundou um museu na sua qualidade de líder da União das Mulheres Árabes. Baituna Al Talhami – Nossa Casa em Belém – fica na Rua Star, perto da Igreja da Natividade, e apresenta casas tradicionais palestinas ao redor de um hosh (pátio palestino), com exposições do patrimônio cultural local, incluindo trajes tradicionais, utensílios domésticos e objetos históricos, artefatos doados por famílias palestinas determinadas a preservar um registro de sua cultura indígena.
A própria União das Mulheres Árabes organizou oficinas que proporcionaram emprego às mulheres palestinas, preservando ao mesmo tempo o tatreez, as técnicas tradicionais de bordado palestino que contavam histórias através de trabalhos de costura intricados que refletiam a identidade, o caráter, a personalidade e as origens específicas da mulher que os criava.
A tia Joujou compreendeu algo que levei alguns anos para perceber: a cultura não se preserva apenas nos museus, ela é vivida no dia a dia. As abundantes refeições familiares que ela organizava em Belém reuniam nossa família e amigos para saborear pratos tradicionais palestinos, preparados a partir de receitas transmitidas de geração em geração. O árabe que ela insistia que todos falássemos corretamente tinha o sotaque característico da região em torno das antigas pedras de Belém. Nossas raízes em Belém eram profundas, mas nosso ramo em Jerusalém era igualmente sofisticado – e seu destino ainda mais comovente.
O lado materno da minha família é cristão ortodoxo grego palestino, de Jerusalém, Al Quds, nossa Cidade Santa. Meu avô materno, Shukri Saba Halaby, era o mais novo de quatro irmãos que representavam o sucesso intelectual e comercial palestino na Palestina urbana. Ao contrário do meu avô paterno, que tinha recursos para reconstruir, Sido Shukri nunca se recuperou financeiramente depois que a casa, os negócios e os bens de sua família foram roubados em 1948.
Mas não me lembro de um homem abatido ou amargo. Lembro-me dos seus olhos avelã-esverdeados que brilhavam com inteligência e uma presença digna. Ele trabalhou duro para recomeçar, abrindo uma torrefadora de café no centro de Amã. O aroma achocolatado e perfumado de sua loja ainda me vem à mente hoje, sempre que sinto o cheiro de um certo tipo de café recém-torrado e, admito, sou muito exigente com meu café por causa disso.
Sido Shukri era paciente e gentil, um excelente jogador de tênis que me levava nos fins de semana para jogar. Ele também passava horas me ensinando xadrez e gamão (sheish beish). Eu raramente o vencia, mas adorava tentar. Depois do tênis, voltávamos para casa, onde minha avó Teita Leonie preparava um café da manhã palestino: ovos fritos com samneh baladieh (manteiga clarificada ou manteiga ghee palestina), polvilhados generosamente com za’atar e sumagre pales-tinos e servido com labaneh caseiro, homus e ful medammes. Meu avô comprava falafel recém-feito e Ka’ek Al Quds (também conhecido como Ka’ek bil sumsum) recém-assados, bagels palestinos de gergelim exclusivos de Jerusalém.
Minha avó Leonie Zawaneh também era cristã ortodoxa grega de Jerusalém que, junto com meu avô e seus três filhos, se tornou sobrevivente da Nakba e depois refugiada – primeiro em Beirute, depois em Amã. Havia mais tristeza por trás de seus olhos azuis. O peso do deslocamento, embora raramente mencionado em voz alta, nunca abandonou sua geração.
A irmã mais velha do meu avô Shukri, Sultaneh Halaby, era uma mulher tão à frente do seu tempo que suas conquistas parecem notáveis até hoje. Ela fundou uma bela livraria chamada Dar Al Kutob, A Casa dos Livros, no coração da antiga Jerusalém. Quando a Nakba dispersou nossa família, ela se adaptou e continuou sua resistência, abrindo filiais em Amã e Beirute, criando uma rede de espaços intelectuais palestinos em toda a diáspora. Não foi uma tarefa fácil – uma mulher palestina construindo uma rede literária, naquela época, em toda a Ásia Ocidental
(que é como me referirei ao Oriente Médio ao longo deste texto).
Seu irmão Assad Halaby era um empresário de sucesso cuja trajetória reflete uma versão comum sintetizada da história palestina: prosperidade na Palestina, tudo lhe foi roubado durante a Nakba; status de refugiado no Líbano e depois na Jordânia, e então reconstrução do zero nos Estados Unidos com sua esposa, Foutonie Atalla, e seus quatro filhos. Dois desses filhos merecem menção especial: minha tia, Samia Halaby, é uma artista visual contemporânea de renome mundial, com obras no Guggenheim e exposições que passaram pela Tate Modern e outros grandes museus em todo o mundo, além de ser escritora, acadêmica, educadora e ativista. Quando a apresentamos no podcast The Enlightenment, ouvi-la falar sobre a arte como resistência foi uma aula magistral sobre a tradição intelectual palestina.
A irmã de Samia, Nahida Halaby Gordon, era professora emérita de Estatística e atuou como bolsista sênior Fulbright na Universidade Birzeit, na Palestina. Nascida em Jerusalém, ela escreveu um livro, Palestine is Our Home: Voices of Loss, Courage, and Steadfastness (A Palestina é o nosso lar: vozes de perda, coragem e perseverança), e publicou extensivamente em veículos de comunicação como Electronic Intifada, Mondoweiss e CounterPunch, garantindo que as vozes palestinas chegassem a públicos globais.
Além disso, do lado da minha mãe, a irmã do meu avô Shukri Halaby, Emilie, casou-se com Hanna Atalla, um advogado e juiz palestino de sucesso em Jerusalém. Hanna também era editor de uma revista. Meus pais eram próximos do filho deles, o tio Munir, e da esposa dele, a tia Odette, e, enquanto crescia, eu era próxima dos meus quatro primos: Reem, Rula, Marwan e Rania Atalla.
Reem e Rula fundaram a Silsal Ceramics (que significa “argila” em árabe), em Amã, com o objetivo de preservar nossa tradição cultural da arte cerâmica e, ao mesmo tempo, criar empregos para mulheres artesãs locais. Minha prima Rania deixou uma carreira de grande sucesso na política para se tornar especialista em saúde mental e educadora. Quanto aos filhos do meu tio Suheil Halaby – meus primos Ramzi, Shukri e Mazen Halaby –, todos eles são empreendedores por mérito próprio. A mãe deles, minha tia, Nawal Abu Khader, é uma chef incrível e criou a The Cakery, uma marca de catering de sobremesas de sucesso. Seu livro, All That is Sweet, não recomendo se você estiver tentando perder peso. Meu outro tio, Saba Halaby, tornou-se engenheiro municipal em Killeen, Texas, onde meu primo Michael ainda mora.
Muitos anos depois, esses tios, Saba e Suheil (irmãos mais novos da minha mãe), voltaram para visitar a Palestina ocupada, usando seus passaportes estrangeiros, que era a única maneira de serem autorizados a entrar; como convidados em seu próprio país. Eles encontraram judeus alemães ocupando a casa da família em Jerusalém Ocidental, onde eles e minha mãe haviam crescido. Eles estavam lá desde 1948. Quando meus tios se apresentaram, os ocupantes permitiram que entrassem, com a condição de que não tocassem em nada. Para surpresa dos meus tios, tudo estava exatamente como era quando eles eram jovens; apenas o banheiro e a cozinha haviam sido modernizados. Meus tios caminharam pela casa da infância, sob o olhar atento dos colonizadores que agora moravam lá. Eles não queriam, mas não conseguiram evitar: choraram.
Minha tia, Samia Halaby, enfrentou um tipo diferente de dor quando voltou. Os judeus europeus que roubaram a casa dos seus pais recusaram-se a deixá-la entrar. Essa foi a realidade para a maioria dos palestinos que tentaram visitar, anos depois – encontrar suas casas roubadas, ocupadas com móveis e tudo e concedidas gratuitamente a colonos ilegais da Europa, sem qualquer compensação ou restitui-ção aos proprietários. Esta experiência foi partilhada por mais de 750.000 palestinianos que foram vítimas de limpeza étnica na Nakba de 1948 e, novamente, por mais de 300.000 palestinianos em 1967, durante o Naksa; apesar de o direito internacional garantir o seu direito de regresso.
Minha família representa um mundo que os colonizadores preferiam fingir que não existia: sofisticação no comércio, na arte, na cultura e em muitos outros aspectos. Mas, como uma família palestina cristã minoritária, também representávamos outra realidade que as narrativas coloniais efetivamente suprimiam: a coexistência pacífica entre cristãos palestinos, muçulmanos palestinos e judeus palestinos ao longo de séculos.
Por que essa realidade foi ocultada é algo que abordarei no Capítulo Três, mas, por enquanto, deixe-me dar apenas um exemplo significativo dessa coexistência: duas famílias muçulmanas de Jerusalém – as famílias Nusseibeh e Joudeh-al Husseini – detêm as chaves da Igreja do Santo Sepulcro, em Jerusalém, e abrem e fecham essa igreja, um dos locais mais sagrados do cristianismo, desde o século XII. Esse acordo foi passado de geração em geração em cada família e continua até hoje, representando oito séculos de confiança e cooperação inter-religiosa que subvertem qualquer narrativa colonial simplista de conflito religioso existente ou inevitável.
Cristãos, muçulmanos e judeus palestinos viveram lado a lado durante séculos na Palestina, nossa terra natal, compartilhando celebrações, protegendo os locais de culto uns dos outros e construindo negócios juntos. Infelizmente, essa era a sociedade palestina pluralista que os britânicos e os sionistas precisavam apagar para justificar seu projeto colonialista.
Você pode ler sobre a sociedade palestina antes do sionismo. Com uma rápida pesquisa on-line, você pode ver fotos de arquivo de estúdios de rádio, teatros, ferrovias, áreas comerciais movimentadas, edifícios ornamentados e colheitas de azeitonas e laranjas em grande escala, prontas para exportação e distribuição interna. No entanto, a máquina de propaganda do sionismo espalhou com sucesso o mito de “uma terra sem povo”, uma terra que era um “deserto”, uma terra que precisava dos colonos sionistas para “florescer”. As mentiras e a propaganda se espalharam. Ironicamente, eles conseguiram remover milhões de palestinos usando esse mito de um terreno vazio; e depois mudando-se diretamente para as suas casas. Mas o que não conseguiram fazer foi eliminar as gerações seguintes que se lembram e que ainda sentem a necessidade de corrigir uma imensa injustiça.
O que acontece quando se tenta apagar um povo que se recusa a desaparecer? Muitos palestinos lutaram para sobreviver, mas muitos se tornaram exatamente aquilo que o seu deslocamento deveria impedir que se tornassem: médicos, advogados, cineastas, arquitetos. Cada sucesso é uma repreensão silenciosa à lógica do apagamento. Meu primo, Dr. Victor Kattan, é especialista em direito internacional e luta pela justiça palestina por meio de seus livros publicados, palestras e entrevistas em todo o mundo. Ele é frequentemente citado e convidado para fornecer análises especializadas sobre direito internacional no que se refere à Palestina. Meu podcast com Victor desmantelou as estruturas coloniais e os fundamentos jurídicos da ocupação por meio de sua rigorosa erudição. Seu pai, meu tio William, também atuou como promotor público, procurador-geral e procurador-geral da República de Vanuatu.
Enquanto isso, em uma cozinha em Belém, os aromas de za’atar e melaço de romã enchem o ar. Meu primo Fadi Kattan, filho da minha tia Micheline, é um chef e restaurateur premiado que celebra nossa herança palestina por meio de uma culinária que une o passado e o presente – preservando técnicas e ingredientes tradicionais, mas combinando-os com inovações contemporâneas. Seu livro mais recente, Bethlehem: A Celebration of Palestinian Food (Belém: Uma Celebra-ção da Comida Palestina), é um banquete visual, repleto de receitas, mas também de histórias que celebram os fornecedores de Belém que defendem ingredientes especializados diante dos desafios de viver sob ocupação. Fadi tem restaurantes palestinos aclamados em Belém, Londres e Toronto. Já comi muitas vezes em dois desses restaurantes, o Akub e o Louf, e é maravilhoso ver os sorrisos de pessoas de todas as culturas enquanto saboreiam sua comida.
Quando entrevistamos Fadi para o nosso podcast, ele compartilhou algo profundo: “A comida é memória. Os sabores transportam a história através das gerações. Cada prato nos conecta aos agricultores palestinos que cuidaram dos mesmos olivais, dos mesmos jardins de ervas, das mesmas árvores frutíferas durante milênios”.
Seria exagero dizer que cada refeição palestina se torna um ato de resistência contra o esquecimento? A rica herança culinária da Palestina está enfrentando apropriação por uma proliferação de chefs e restaurateurs israelenses que exportam comida palestina para todo o mundo, reembalada como “israelense”. O maftoul, por exemplo, é um alimento básico palestino, ligado aos métodos tradicionais de enrolar o triguilho e trigo integral em pequenas bolas que formam a base de ensopados. A palavra maftoul significa literalmente “enrolado à mão” em árabe. No entanto, você verá o maftoul sendo apresentado como “couscous israelense” em todo o mundo. É importante chamar a atenção para a apropriação cultural e abraçar esses pequenos atos de resistência ao fazê-lo, especialmente quando se trata de algo tão nutritivo e envolvente como uma boa refeição.
O irmão mais novo de Fadi, meu primo Karim Kattan, é um romancista premiado que mora em Paris. Por meio da ficção, ele captura experiências palestinas que as notícias não conseguem transmitir – o panorama interno do deslocamento forçado, a psicologia da resistência, os sonhos que sobrevivem à ocupação. A irmã deles, Muna, mora em Belém, onde ajuda a educar jovens palestinos em debates e em nossas tradições intelectuais. Em um lugar onde a educação é frágil, seu trabalho garante que os estudantes permaneçam perspicazes, informados e cultos.
O cinema é talvez uma das formas mais poderosas de influenciar a cultura. Hollywood sempre soube disso. Minha prima cineasta, Anne-marie Jacir, cria filmes palestinos inovadores, como o recente candidato ao Oscar, Palestine 36, que evocou de forma brilhante a resistência na Palestina sob o Mandato Britânico. Seu filme Salt of This Sea foi selecionado para Cannes em 2008 – o primeiro filme palestino a competir neste festival. Seus filmes subsequentes, incluindo When I Saw You e Wajib, ganharam vários prêmios internacionais, levando narra-tivas palestinas comoventes, inteligentes e, às vezes, bem-humoradas a um público global que raramente teve a chance de nos ver como seres humanos completos.
Sua irmã, Emily Jacir, é uma artista, educadora e cineasta aclamada. Os filhos da minha tia Pauline Kattan Dabdoub, meus primos Elias e Yousef Anastas, são arquitetos e designers internacionalmente reconhecidos em Belém, que apoiam artesãos palestinos locais por meio de sua prática arquitetônica. Seu projeto Stone Matters revive antigas técnicas palestinas de abóbadas de pedra, utilizando métodos de nossos ancestrais e adaptando-os para edifícios modernos. Cada estrutura que eles projetam parece, para mim, uma declaração: estamos aqui, esta-mos construindo, estamos criando futuros que honram nosso passado.
A geração mais jovem continua esse legado com a mesma determinação. Minha sobrinha Jana Kattan escreveu e dirigiu um curta-metragem de animação premiado, Checkpoint, e seu irmão Jad desempenhou um papel crucial no primeiro Festival de Cinema Palestino de Montreal, organizado pelo Clube de Cultura Palestina. Minha sobrinha Natasha Kattan Durel é uma ativista vocal pela Palestina nos Estados Unidos. Meu primo Marwan é empresário e seu filho, Munir Atalla, trabalha na Watermelon Pictures, produzindo e distribuindo conteúdo palestino que leva nossas narrativas ao público global. O filho da minha prima Rula, Bassel Ghandour, é um cineasta talentoso cujos trabalhos incluem The Alleys and Theeb, indicado ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 2016. Meus filhos, Ethan e Luca, são engenheiros de software, mas também atuaram em filmes, inclusive como palestinos no meu último filme, Polarized.
E eu? Como todo mundo, tento trazer para diferentes aspectos do meu trabalho a busca pelo lar e pela justiça. Produzi dois filmes premiados em festivais, I Can’t Think Straight e Polarized, que mostram mulheres da diáspora palestina que administram negócios, uma pequena forma de corrigir os estereótipos de terroristas e refugiados frequentemente associados à Palestina no cinema. Também abri o Tabun Kit-chen, um restaurante no Soho, em Londres, que funcionou por alguns anos, para recuperar uma comida e um patrimônio que estavam sendo apropriados como israelenses. Agora, dirijo o The Enlightenment Podcast para mostrar a cultura e a história palestinas com alguns convida-dos notáveis e continuo a incluir personagens e histórias palestinas nos filmes e séries que minha parceira Shamim e eu desenvolvemos.
Para famílias palestinas como a minha, a resistência não se resume apenas ao que estamos tentando salvar, mas também está muito presente no que continuamos a nos tornar. É um fio condutor que se fortaleceu nos últimos tempos, à medida que a origem da injustiça na região se tornou mais conhecida, especialmente entre a geração mais jovem. A história da minha família, multiplicada por centenas de milhares de famílias palestinas, documenta algo mais poderoso do que a destruição cultural: ela mostra a ressurreição cultural.
Nós sobrevivemos. Mais do que sobreviver, nós prosperamos.
A história da minha família não é única. Faz parte de um vasto arquivo vivo que abrange continentes e gerações. Em comunidades palestinas de Detroit a Sydney, de Santiago a Estocolmo, surgem narrativas semelhantes. Cada família palestina guarda tesouros da resistência. Chaves de casa, mas também títulos de propriedade preservados em sacos plásticos, fotografias de casas que agora foram demolidas, receitas rabiscadas nas margens de livros, certidões de casamento de igrejas e mesquitas palestinas, fotos de formatura de instituições que alguns afirmariam nunca ter existido. Coletivamente, eles formam um arquivo que nenhum governo pode destruir e nenhuma propaganda pode negar.
Na grande comunidade palestina de Detroit, as famílias ainda se reúnem às sextas-feiras para fazer o pão tradicional. As mulheres idosas não ensinam apenas a amassar e a levedar; a cada dobra e cada fermentação, elas transmitem memórias – histórias passadas através do trabalho e das refeições partilhadas. Os campos de refugiados palestinos contam uma história semelhante. Apesar de décadas de cerco, os palestinos nos campos de refugiados e na diáspora ainda dão às suas ruas os nomes das aldeias que foram forçados a abandonar. Através da culinária, os palestinos preservam não apenas os sabores, mas também o conhecimento agrícola. Através do bordado tatreez, eles documentam as histórias das aldeias em linhas e padrões. Através das canções de ninar, eles transmitem nomes de lugares, linhagens familiares e conhecimento geográfico. A própria língua se torna um ato de resistência. Os dialetos árabes palestinos, com seus sotaques específicos das aldeias e expressões locais, muitas vezes sobrevivem intactos nas comunidades da diáspora.
Essa persistência cultural é assustadora para um colonizador? Talvez. Como se pode afirmar que um povo nunca existiu quando seus filhos, netos e bisnetos ainda cozinham seus pratos, falam seus dialetos, lembram-se de suas aldeias e transmitem suas tradições? As receitas tornam-se mais valorizadas, não menos. As roupas tradicionais tornam-se mais significativas, não menos. Os Kuffiyehs assumem um simbolismo também para milhões de não palestinos.
Este é o poder do sumud, a determinação palestina que transcende o deslocamento físico. Sumud não é resistência passiva; é um tipo de resistência ativa que mantém a cultura diante da hegemonia imposta e insiste na verdade em um mundo que elevou a propaganda às manchetes dos jornais. O sumud está incorporado no DNA cultural palestino – transmitido de geração em geração como sabedoria herdada, com uma firmeza que imita a das oliveiras. Se os colonizadores pensavam que poderiam quebrar a identidade palestina através do deslocamento forçado e da humilhação, eles acabaram por forjar uma consciência palestina inquebrantável que transcende fronteiras e sobrevive a décadas, e está mais forte hoje do que em qualquer outro momento do passado recente.
É fundamental reconhecer que milhões de palestinos ainda vivem em campos de refugiados na Jordânia, no Líbano, na Síria e na Palestina ocupada. Eles não tiveram as oportunidades que outros palestinos tiveram, incluindo membros da minha família. Eles ainda lutam para educar seus filhos, criar melhores oportunidades, construir uma vida melhor em lugares que nem sempre os aceitam plenamente, enquanto se agarram à esperança de que um dia poderão retornar à Palestina para recuperar suas casas e suas terras.
A memória histórica é difícil de apagar. É uma promessa de retorno; um retorno que acredito que virá, construindo uma nação unida onde aqueles que sofreram limpeza étnica possam voltar e viver em suas próprias terras, onde pessoas de todos os credos e religiões sejam livres para viver, lado a lado, sem supremacia ou apartheid. De acordo com o direito internacional, todos os palestinos têm o direito de retornar – a Resolução 194 da ONU garante esse direito fundamental, mas ele continua sendo negado por aqueles que colonizaram a região.
A história da minha família é a prova pessoal de que os palestinos nunca foram nômades primitivos vagando pelo deserto. Muitos palestinos eram, e continuam sendo, agricultores – em sintonia com a terra, praticando agricultura regenerativa para melhorar naturalmente as colheitas e o sabor muito antes de isso se tornar uma tendência no Ocidente. Áreas como Battir são conhecidas por seus antigos campos em socalcos, casas tradicionais de pedra e redes de canais de irrigação que têm sido usados por agricultores palestinos há mais de dois mil anos. Outros, como minha família, são pessoas mais urbanas, com séculos de liderança documentada, educação multilíngue, redes de negócios internacionais e realizações culturais.
Mas até onde vão realmente nossas raízes? As evidências arqueológicas encontradas sob o solo revelam que os palestinos vêm construindo cidades há dez milênios; civilizações avançadas com assentamentos contínuos e organizados na região muito antes de as populações europeias terem emergido do estilo de vida paleolítico de caçadores-coletores. Junte-se a mim em uma viagem ao início da civilização, muito antes do surgimento das religiões abraâmicas, quando mãos indígenas moldaram as primeiras cidades do mundo. A verdade enterrada nessas pedras antigas destruirá a mentira de “uma terra sem povo” e revela-rá uma civilização sofisticada que os fundadores de Israel precisavam muito que o mundo esquecesse.
—Hanan Kattan
Hanan Kattan — Escritora, cineasta e comunicadora palestino-britânica.
Resenha
Ensaios sobre o invisível: uma análise da cosmologia como espelho da sociedade

Quando nos deparamos com uma obra que se propõe a debater a ciência moderna, a tendência habitual é esperar um livro clássico de divulgação científica, focado em traduzir equações complexas para o leigo em uma linguagem acessível. Ensaios sobre o invisível – O livro zero da cosmologia, ideias, sociedade e o desconhecido, do astrofísico Reinaldo Ramos de Carvalho (Editora Mauad X), recusa essa facilidade. Trata-se de uma obra que quebra paradigmas ao tensionar e dissolver as fronteiras e os compartimentos estanques que historicamente separaram as ciências sociais, as chamadas ciências duras e até mesmo a dimensão do inconsciente individual. Para nós, habituados ao rigor da cosmologia observacional e ao tratamento estrito de dados astrofísicos, ver um astrofísico de trajetória tão sólida avançar com coragem sobre o inconsciente e as ciências sociais é um exercício libertador. Reinaldo demonstra que olhar para as estrelas e olhar para dentro de nós pertencem, afinal, ao mesmo movimento do pensamento.
O tempo dirá se estamos diante de um clássico, mas, para mim, que acompanho a trajetória do autor como colega de profissão e amigo, a obra já se estabelece como um marco importante. O subtítulo, Livro zero da cosmologia, revela-se deliberado e provocativo: este não é o manual introdutório tradicional, mas sim aquilo que se deveria pensar antes mesmo de abrir o “capítulo 1” de um curso convencional da disciplina. Numa síntese essencial, Reinaldo não investiga apenas qual é a equação, mas qual mudança na maneira humana de compreender a Natureza tornou essa equação possível.
Essa abordagem ambiciosa não surge por acaso. Reinaldo Ramos de Carvalho é um dos nomes centrais da astronomia e da cosmologia observacional no país. Com graduação pela UFRJ, mestrado e doutorado pelo Observatório Nacional e pós-doutorado no Caltech (California Institute of Technology), nos Estados Unidos – onde trabalhou ativamente no projeto Digitized Palomar Observatory Sky Survey –, Reinaldo iniciou sua trajetória de pesquisa no Observatório Nacional (RJ), mudando-se posteriormente para o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), em São José dos Campos, São Paulo. Ex-presidente da Sociedade Astronômica Brasileira (2017–2020), pesquisador 1B do CNPq e atualmente professor na pós-graduação da Universidade Cruzeiro do Sul / Universidade Cidade de São Paulo, ele acumula mais de uma centena de artigos nas revistas mais prestigiadas da área, somando mais de 6 mil citações e um índice h de 46 (ADS). Líder de projetos de fôlego como o SPIDER (em cooperação com o Observatório Astronômico de Capodimonte, na Itália), o autor traz para o ensaio a bagagem de quem domina as entranhas da cosmologia de ponta: o estudo da evolução de galáxias e a estrutura em larga escala do Universo.
Pela formação do autor, seria natural supor que o coração do livro estivesse focado estritamente na matéria escura, na energia escura ou na expansão acelerada do cosmos. Embora esses conceitos ocupem lugar de destaque nos capítulos abertamente cosmológicos da obra, o arco reflexivo proposto por Reinaldo é imensamente mais amplo. O que torna o empreendimento de Reinaldo fascinante, e ao mesmo tempo audacioso, é a recusa em tratar conceitos como entropia, relatividade ou o cosmos escuro como meras analogias ornamentais. Em vez disso, o autor demonstra como as ferramentas conceituais e os limites científicos de cada época moldam, de forma subterrânea, a psique individual, a organização do trabalho e as estruturas do poder. É uma verdadeira lição de humildade ontológica: ao constatar que 95% do cosmos nos é invisível, a cosmologia moderna nos força a encarar o desconhecido não como uma falha provisória do conhecimento, mas como dimensão constituinte da própria existência.
O livro constrói um itinerário fascinante: parte do Cosmos Antigo e da Ruptura Copernicana, atravessa a mecânica e o ideário de progresso e controle da modernidade, debate a energia, o trabalho e a exaustão, passa pela "fábula do mais apto" e aborda a Relatividade e a crise do absoluto. Em seguida, no capítulo 7, mergulha no inconsciente e no invisível – momento em que, como sintetiza o autor, deixa de ser natural supor o "eu sei o que faço porque sei o que penso". Só então desagua no Universo escuro, nos vazios cosmológicos, na medição, no valor, na finitude e na síntese final.
Ao recusar a separação estanque entre ciência e sociedade, o livro articula como as transformações nas concepções cosmológicas caminham lado a lado com as formas pelas quais organizamos a experiência humana — do poder e dos limites ao trabalho e aos valores socioculturais. Há aqui uma tese profunda e provocativa: a maneira pela qual construímos uma imagem do Universo e a maneira pela qual construímos a imagem de nós mesmos pertencem, em última análise, à mesma história intelectual. Como assinala o próprio Reinaldo:
[...] “o invisível moderno muda, então, de posição. Não é só a legitimação social do método, nem apenas a imagem da máquina como ordem. É a dissipação como companheira constante de toda potência”.
Diante de uma leitura simultaneamente atraente e instigante, o leitor é convidado a meditar sobre questões fundamentais: onde o autor faz história da ciência, onde faz cosmologia estrita, onde entra a filosofia e, sobretudo, até que ponto as analogias entre ciência e sociedade são historicamente justificáveis ou representam belas construções conceituais feitas retrospectivamente?
Essas são provocações e objeções procedentes que tornam a obra um convite urgente ao debate — questões fascinantes sobre as quais convido o futuro leitor a meditar e que certamente continuarão a alimentar conversas enriquecedoras com o próprio autor.
—Horacio Dottori
Horacio Dottori — Professor emérito de Astronomia da UFRGS.
Crônica
O tempo e o retorno

Fui visitar a Serra da Capivara. Foi fascinante ver a arte rupestre feita há cerca de 50 mil anos, pelo homem mais antigo da América do Sul, impressa em paredões de arenito de 400 milhões de anos.
No caminho de volta para casa, em Petrolina, me dei conta de que estava muito perto de Poço de Fora, vilarejo sede do projeto de pesquisa sobre cobre, onde trabalhei e vivi por sete anos, na década de 1970.
Minha vontade de voltar para esse lugar era antiga e sempre acompanhada por muitas dúvidas. Era um querer não querendo. O que eu esperava encontrar depois de 50 anos? Afinal, não se volta a lugar nenhum, assim como não se bebe duas vezes a mesma água de um rio. A pessoa muda, as circunstâncias e o tempo também. Ele não volta. Mas, como estava perto e talvez fosse essa a minha última oportunidade na vida, resolvi ir.
Voltei a Poço de Fora. Voltei? Sei não. O lugar será o mesmo depois deste tempo todo? Certamente não. E a pessoa? Cinquenta anos é uma vida. O que a vida fez com ela neste tempo? A transformou em outro ser. Também o povo da vila, aqueles que ainda estiverem vivos, devem estar muito mudados.
Relembro a letra de Sabiá, do Chico Buarque, que descreve muito bem esse sentimento:
Vou voltar
Sei que ainda vou voltar
Para o meu lugar
Foi lá e é ainda lá
Que eu hei de ouvir cantar
Uma sabiá
Vou voltar
Sei que ainda vou voltar
Vou deitar à sombra
De uma palmeira que já não há
Colher a flor que já não dá
Depois de muito hesitar, fui.
Não cheguei pela estrada, passando pela capelinha e atravessando o riacho do Poço, sempre seco. Como um carcará, voei acima da serra chamada de Alguidares nos mapas, serra do Poço pelo povo, ou sienito de Itiúba pelos geólogos.
A intenção era subir até a meia encosta e observar a vila desde a “toca dos antigos”, cheia de figuras rupestres. Sabia que a subida seria difícil. Já era quando eu tinha vinte e poucos anos. Como antes, fui sozinha. Quando os blocos soltos começaram a dificultar a subida, Diadorim, com seus olhos verdes, veio me ajudar. Estendeu sua mão delicada que aceitei – só porque era dele. Ainda não costumo aceitar este tipo de ajuda.
Depois de uma subida árdua, nos equilibrando em blocos soltos de sienito e nos esquivando dos espinhos dos pés de cansanção e favela, chegamos lá.
– A vida nos pede coragem, disse ele.
Sentamos na entrada da toca, de onde se via toda a vila de Poço de Fora, as estradas de terra e a BR-235, agora asfaltada. Ao longe, o serrote da Caraíba seguia impávido, cercado por uma nuvem de poeira da mina de cobre, até hoje em exploração. No horizonte azul se divisavam os contornos da serra da Jacobina, formada quando o planeta Terra ainda era jovem, há 3,4 bilhões de anos.
Descansando o olhar da luz brilhante do sol, olho para dentro da toca onde vejo as paredes e o teto do sienito de dois bilhões de anos, decorados com círculos concêntricos vermelhos, e os convites eróticos dos pés de ema de nossos antepassados, feitos há cerca de 50 mil anos. Cá estou eu com minhas memórias de 50 anos. O que são elas? Nada. Mas é o meu tempo. O tempo do ser humano, cheio de dúvidas, angústias e decepções.
Não acho conveniente compartilhar minhas aflições com Diadorim. Dentro de sua bruma, ele nota a nuvem no meu olhar e tenta me animar mostrando as flores brancas, recém-abertas, do mandacaru, e as azuis das cabeças de frade crescendo no meio das rochas. Chama minha atenção para as caraibeiras cobertas de flores amarelas, alinhadas ao longo das margens de um riacho seco, meandrando ao longe.
Aos pés da toca está a vila, com a praça quadrada e as ruas tortas que ainda saem dos quatro vértices, agora todas elas pavimentadas. As casas que eram pintadas de diversas cores têm agora suas fachadas cobertas por cerâmica de cores pastel. Um pequeno mercado livre foi construído numa rua lateral. A praça está arborizada, e há duas igrejas e três farmácias. A tamareira do seu Zizinho, da farmácia, morreu.
O progresso chegou. Uma mureta de concreto, construída entre os dois morrotes da serra, represa o riacho do Poço num açude bem grande. A população não aumentou, é ainda por volta das 500 almas, mas hoje tem água abundante e luz elétrica. A vida deve ter melhorado.
Resolvo entrar na vila. A estrada de terra ainda é a mesma, com a capelinha na barranca do riacho seco. Foi restaurada recentemente. Nossa casa-escritório está lá, me esperando na rua de entrada. Não há mais o buriti no jardim nem as marias-sem-vergonha coloridas em volta do portão. A casa, com janelas e portas cerradas, tem a fachada revestida por cerâmica bege, e perdeu seu ar alegre, dado pelo verde brilhante anterior.
Paro no bar da esquina, ainda pintado de amarelo e com suas quatro portas e nenhuma janela. No escuro está seu Dedilson, sentado numa cadeira de plástico e olhando para o teto. Me reconhece e faz uma festa enorme. Chama a mulher para me ver. Abraços. Vou até a sua casa e tomo um cafezinho muito doce.
Sigo até a Casa Rosa, a venda de material de construção do Zé Valdo, nosso antigo preparador de amostras, relações públicas e correio ambulante na década de 70. Não me reconhece logo. Ao descobrir quem o visita, chama toda a família. Sua mulher me informa que ele já está variando da cabeça, aos 78 anos.
Saio para dar uma volta na praça. Irreconhecível, agora pavimentada e arborizada.
Numa esquina encontro a professora Railda, que dava as aulas numa peça de chão batido, onde as crianças sentavam no chão. Ela está forte e lúcida nos seus 83 anos. Escreveu um livro sobre a vila, intitulado Raízes, totalmente esgotado. Me relata sobre o seu mestrado em Agroecologia, cursado em Petrolina há muitos anos. Conta que, dos 40 empregados da empresa nos anos 70, só dois estão vivos: João, motorista, com Alzheimer, e Zé Valdo, esquecendo tudo.
O tempo não é o mesmo para todos. Depois de 50 anos, só encontro duas pessoas conhecidas vivas e lúcidas.
Saio de lá mais triste do que alegre.
Diadorim me repete que a vida nos pede coragem.
—Zara Gerhardt
Zara Gerhardt — Geóloga aposentada, é autora de Causos do Brasil profundo (2019) e Mais causos do Brasil profundo (2022), ambos pela editora Bestiário/Class, livros em que narra sua vivência profissional no sertão baiano e pelo Brasil afora.
Fim da edição #350