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Parêntese #350: Feira do livro

Parêntese #350

Edição #350

Feira do livro

matinal.org · 31 de outubro de 2026

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Nesta edição

  1. Rock GaúchoO rock gaúcho – Parte XXArthur de Faria
  2. EntrevistaUm poeta que explica tudoLuís Augusto Fischer
  3. CrônicaNaming Rights às avessasMiguel da Costa Franco
  4. Corte RasoCordel do Corte Raso – Capítulo 18 – Parte IVGonçalo Ferraz
  5. EnsaioCrimes que assombram o mundoJuremir Machado da Silva
  6. FolhetimA dama da Duque – Capítulo XJosé Roberto Iglesias
  7. Feira do Livro de Porto AlegrePalestina ReveladaHanan Kattan
  8. ResenhaEnsaios sobre o invisível: uma análise da cosmologia como espelho da sociedadeHoracio Dottori
  9. CrônicaO tempo e o retornoZara Gerhardt

Editorial

Feira do livro

A tra­di­ci­o­nal Feira do Livro de Porto Alegre co­me­çou ontem, e nós, lei­to­res, não po­de­mos deixar de di­re­ci­o­nar nosso olhar para lá. Nesta se­gun­da (2 de no­vem­bro), a es­cri­to­ra Hanan Kattan lança a pri­mei­ra tra­du­ção de seu livro Pa­les­ti­na Re­ve­la­da e par­ti­ci­pa de uma con­ver­sa no Clube do Co­mér­cio. Par­tin­do da his­tó­ria de sua pró­pria fa­mí­lia, a autora per­cor­re mais de um século da his­tó­ria pa­les­ti­na. Aqui, na Pa­rên­te­se, temos uma prévia da prosa sen­sí­vel de Hanan: o pri­mei­ro ca­pí­tu­lo está dis­po­ní­vel na ín­te­gra, per­mi­tin­do uma es­pi­a­da nesta nar­ra­ti­va que busca pre­ser­var a me­mó­ria e a iden­ti­da­de de um povo que re­sis­te ao apa­ga­men­to.

O es­cri­tor e ro­tei­ris­ta Miguel da Costa Franco ima­gi­na uma Porto Alegre em que os bair­ros passam a levar nomes de marcas e em­pre­sas. Em uma crô­ni­ca bem-hu­mo­ra­da, o autor sa­ti­ri­za a mer­can­ti­li­za­ção da cidade e a trans­for­ma­ção de sua me­mó­ria e iden­ti­da­de em es­pa­ços de ne­go­ci­a­ção.

A ge­ó­lo­ga Zara Ger­hardt viaja no tempo e no espaço, na com­pa­nhia de Di­a­do­rim. Ou, melhor di­zen­do: relata seu re­tor­no a Poço de Fora, um vi­la­re­jo que co­nhe­ceu em 1970, onde tra­ba­lhou e viveu por sete anos. Ho­rá­cio Dot­to­ri fala dos con­fins do uni­ver­so ao re­se­nhar o livro En­sai­os sobre o in­vi­sí­vel, do as­tro­fí­si­co Rei­nal­do Ramos de Car­va­lho, e Ju­re­mir Ma­cha­do da Silva com­par­ti­lha dois textos de­ri­va­dos de uma ofi­ci­na li­te­rá­ria sobre as obras V13, de Em­ma­nu­el Carrè­re, e Tela total, de Jean Bau­dril­lard.

Na série sobre o rock gaúcho, Arthur de Faria dedica um texto à tra­je­tó­ria de Jimi Joe, autor do su­ces­so San­di­na, can­ta­do e tocado por uma in­fi­ni­da­de de ar­tis­tas. Luís Au­gus­to Fis­cher en­tre­vis­ta o com­po­si­tor Suriel Moisés Ri­bei­ro. A con­ver­sa passa pelas aná­li­ses mé­tri­cas de poesia, pelas com­po­si­ções e pelas re­per­cus­sões dos vídeos do ar­tis­ta.

Mais um ciclo chega ao fim nas pá­gi­nas da Pa­rên­te­se: o fo­lhe­tim A dama da Duque, de José Ro­ber­to Igle­si­as, chega ao décimo e último ca­pí­tu­lo. Para quem não acom­pa­nhou a tensão semana a semana, fica o con­vi­te para ler a his­tó­ria na ín­te­gra. Já o Cordel do Corte Raso, de Gon­ça­lo Ferraz, chega a um fim di­fe­ren­te: a quarta parte do ca­pí­tu­lo 18 en­cer­ra uma jor­na­da. Mas ainda há muitas outras pela frente.

Não es­que­ce, hein: daqui a pouco, às 10h30, Luís Au­gus­to Fis­cher dis­cu­te o legado Gua­ra­ni das Mis­sões com Artur Bar­ce­los, em mais um evento da Sa­ba­ti­na Pa­rên­te­se, na li­vra­ria Pa­ra­le­lo 30. Neste ano, o his­to­ri­a­dor e ar­que­ó­lo­go pu­bli­cou uma série de textos sobre o tema – con­fi­ra no site da Ma­ti­nal. 

Boa Sa­ba­ti­na e boas lei­tu­ras! 

Rock Gaúcho

O rock gaúcho – Parte XX

Jimi Joe em 1980

Hora de falar no já tantas vezes citado Jimi Joe, parido em Arroio Grande, em 1955, criado em Can­gu­çu (ex­tre­mo sul do Estado), filho de mi­li­tar e pro­fes­so­ra. Quando os dois se se­pa­ra­ram pela pri­mei­ra vez, Jimi tinha oito anos e a mãe foi morar com os filhos e a irmã em Pe­lo­tas. Vol­te­mos à sua en­tre­vis­ta para o site Cul­tu­rís­si­ma:

Foi do ca­ra­lho porque, com oito anos de idade, eu ia ao cinema so­zi­nho, de tarde. Então eu vi vários filmes nos ci­ne­mas de Pe­lo­tas. Me apai­xo­nei pelo Kirk Dou­glas, que era meu herói dos filmes de cowboy, Elvis Pres­ley co­nhe­ci no cinema também.

Um ano mais tarde re­to­ma­ram o ca­sa­men­to, que de­san­dou de vez quando ele tinha 12 anos. Agora a mãe e a fi­lha­ra­da se man­da­ri­am pra mais longe: Porto Alegre. De Can­gu­çu para a Porto Alegre de 1967. Pra ajudar, a irmã mais velha ganhou um violão. Jimi, ca­nho­to, como Jimi Hen­drix (daí o pseu­dô­ni­mo ado­ta­do – mas o Joe viria mais tarde):

Em uma coisa ins­tin­ti­va, peguei ele in­ver­ti­do já. Co­me­cei a tocar con­for­me o método que ela tinha com­pra­do e vi que tinha alguma coisa errada, depois que eu saquei. Mas ela disse pra eu não mexer nas cordas, então apren­di a tocar os acor­des pelo avesso.

(...)

E assim fui de­sen­vol­ven­do, to­tal­men­te au­to­di­da­ta. Aos poucos fui co­me­çan­do a fazer mú­si­cas minhas. Lá por 1975 foi quando fui para o palco a pri­mei­ra vez.

Con­si­de­ran­do o ano, a es­treia, aos 20 anos de idade, não podia ser em melhor lugar: as Rodas de Som do Teatro de Arena. Cri­a­das pelo mesmo Car­li­nhos Har­tli­eb que anos mais tarde ele bi­o­gra­fa­ria para uma série de livros sobre per­so­na­li­da­des do sul. Mas, na­que­le mo­men­to, já co­or­de­na­das por Nelson Rolim. Que foi quem Jimi pro­cu­rou:

Fui lá um dia e me can­di­da­tei pra tocar e ele pediu uma fita. Na época, para qual­quer pessoa, era muito di­fí­cil ter uma fita demo. Eu não tinha nem um gra­va­dor mi­ni­cas­se­te pra gravar em casa, eu era chi­ne­lo mesmo. 
“O que posso fazer é vir com o violão e tocar pra ti as mú­si­cas”, disse pra ele. Morava ali perto, na Ri­a­chu­e­lo, desci a es­ca­da­ria do vi­a­du­to da Borges e bus­quei o violão. Ele gostou das mú­si­cas e falou: “Traz cópias da­ti­lo­gra­fa­das das letras, porque tem de passar na cen­su­ra”. Poucos dias antes do show ele me chamou e disse que, das seis ou sete mú­si­cas, quatro haviam sido cen­su­ra­das. (...) Aí deu né! “Pô, vou tocar só três mú­si­cas?” Ele falou: “Não, vamos fazer o se­guin­te... quando eles mandam esse pa­re­cer, eles vêm no máximo na pas­sa­gem de som”. Na pas­sa­gem de som toquei as três mú­si­cas e no show toquei todas. 

Não foi a melhor das es­trei­as, diga-se, mesmo que ele es­ti­ves­se acom­pa­nha­do de dois mú­si­cos bem mais ex­pe­ri­en­tes, João An­tô­nio e Ale­xan­dre Vieira, do grupo folk In­cons­ci­en­te Co­le­ti­vo.

João An­tô­nio Araújo, Xandy, nós três. Eu e o Xandy muito bê­ba­dos. A gente errou muito. A pri­mei­ra música foi um fra­cas­so, ti­ve­mos que parar, de tão ruim que estava. Ainda bem que a pla­teia era mais louca que a gente. Daí alguém gritou: “Vai de novo que tá legal”. “Bom, se está legal então vamos!” E fomos até o fim.

Mas car­rei­ra mu­si­cal teve de es­pe­rar até o começo da década se­guin­te, quando o ce­ná­rio já mudara com­ple­ta­men­te e uma sen­sa­ção tomava conta da sua ge­ra­ção. A que ele de­fi­niu, para este livro, em 2002:

A gente só faz rock em Porto Alegre pra não morrer de tédio nessa cidade. Como dizia uma amiga minha na­que­la época de punk/new wave/seja lá o que fosse, a gente só cor­ta­va os ca­be­los pra não cortar os pulsos...
Jimi nos anos 1980

A todas essas, ele sempre levou pa­ra­le­las as car­rei­ras de jor­na­lis­ta/ra­di­a­lis­ta, tra­du­tor e músico. Tra­du­ziu li­te­ra­tu­ra beat para a edi­to­ra L&PM e, como jor­na­lis­ta, fez ab­so­lu­ta­men­te de tudo. Na Folha da Manhã, Folha da Tarde, Cor­reio do Povo, Diário do Sul, Jornal Mul­ti­ar­te e Zero Hora. Até que se mudou pra São Paulo em 1989, levado pelo amigo Edu­ar­do Pe­ni­nha Bueno para o Es­ta­dão, onde passou quatro anos fi­nal­men­te es­cre­ven­do só sobre cul­tu­ra – e ainda fa­zen­do uns bicos pra re­vis­ta Play­boy. 

En­tre­vis­tei muita gente lá. Foi uma escola, apren­di muita coisa. Foi a re­a­li­za­ção de vários sonhos, como en­tre­vis­tar David Bowie, o pes­so­al do Yes, gente que eu curtia de anos e anos e jamais ima­gi­nei que fosse en­tre­vis­tar. O Bowie ligou pra minha casa! Aí tu fica: como assim?! 

Antes e depois dessa estada pau­lis­ta, também fez seu nome no rádio, como uma das es­tre­las da Ipa­ne­ma FM, mas também na Far­rou­pi­lha, Gaúcha, Atlân­ti­da FM, Felusp e Uni­si­nos FM.

Pra gente aqui, o mais im­por­tan­te é que Jimi se tornou o autor de pelo menos um dos mai­o­res hits do rock gaúcho, can­ta­do e tocado por uma in­fi­ni­da­de de ar­tis­tas: San­di­na. 

Como ins­tru­men­tis­ta, no final dos anos 1980 era um dos des­ta­ques da bri­lhan­te Ex­pres­so Ori­en­te, banda criada para acom­pa­nhar Julio Reny cujo melhor re­gis­tro é o pri­mei­ro LP de Julio (onde as gui­tar­ras de Jimi e Vasco Piva se cos­tu­ram com cri­a­ti­vi­da­de, ori­gi­na­li­da­de e in­te­li­gên­cia). Numa en­tre­vis­ta à época, para o jornal Mul­ti­ar­te, de­cla­rou:

Al­gu­mas pes­so­as gostam do que eu faço, outras odeiam. Tem gente que diz que eu sou legal na gui­tar­ra, tem gente que diz que eu sou um horror.

Em 1993, para uma festa da rádio Ipa­ne­ma, montou Os Dal­tons, banda cover es­pe­ci­a­li­za­da em coun­try e folk, e o que era pra durar um dia e existe até hoje (mas sem ele). Logo depois passou a ser o mais fre­quen­te si­de­man de Wander Wild­ner em sua car­rei­ra solo, gra­van­do meio dúzia de seus discos. Também tocou muito com Os The Darma Lóvers e a ins­tru­men­tal Les John­son – que, fun­da­da em 1997, se de­di­ca­va a fazer “música para ele­va­do­res, salas de espera e happy hours”. Com Jimi e Mar­ce­lo For­na­zi­er nas gui­tar­ras, Régis Sam no baixo e Vilson Picco na ba­te­ria.

Já fa­la­mos aqui do Ata­hu­al­pa – resta acres­cen­tar que ali ele ganhou o “Joe”, ba­ti­za­do num tro­ca­di­lho infame do Ret­ta­mo­zo: Si­mi­jou > Jimi Joe. Também con­ta­mos a his­tó­ria de Los Três Plan­ta­dos, mas ainda há as bandas Jus­ti­ne e A Cre­ti­ni­ce Me Atray. 

For­ma­da por ele na gui­tar­ra, a atriz e vo­ca­lis­ta Cléo de Páris, Egisto del Santo no baixo, As­tro­nau­ta Pin­guim nos te­cla­dos e o ve­te­ra­no Gelson Sch­nei­der na ba­te­ria, A Cre­ti­ni­ce Me Atray lançou uma demo e um CD, Era Uma Vez Um Gato Xadrez (Es­pí­ri­to Q-Anda, 2000). No re­per­tó­rio, can­ções de Jimi es­cri­tas para o Ata­hu­al­pa, como Boneca Co­mes­tí­vel, San­di­na e muitas de Egisto e Cléo. A banda volta e meia tinha a par­ti­ci­pa­ção em seus shows do pau­lis­ta Edgar Scan­dur­ra, o que não era pouca coisa. Dois gui­tar­ris­tas ca­nho­tos que não in­ver­tem as cordas di­vi­din­do o mesmo palco.

Já a Jus­ti­ne tinha Jimi e Celso Coelho nas gui­tar­ras, Simone Car­va­lho na voz, Régis Sam no baixo, gui­tar­ra e te­cla­dos, Ale­xan­dre Birck na ba­te­ria e a par­ti­ci­pa­ção es­pe­ci­al de Murilo Biff, autor de metade das mú­si­cas do seu único disco, o CD Perto do Fim (In­de­pen­den­te, 2004). A outra metade era do Jimi, como Dani e Adeus às Ilu­sões, outras de suas can­ções mais co­nhe­ci­das.  

A todas essas, lançou dois discos solo. O pri­mei­ro é Sau­da­de do Futuro (Pin­ne­a­ple Music, 2005), pro­du­zi­do por As­tro­nau­ta Pin­guim. Ali estão Fecha Um, Adeus às Ilu­sões, San­di­na e uma nova obra-prima: Dani. 

Quem sabe eu bebi, quem sabe eu estou louco?
Quem sabe eu te ame, meu amor seja pouco?
Quem sabe de nós, o que acon­te­ce­rá?
O que será o que será?
Eu sei que eu vou te amar
Por anos e anos a fio.
Na­da­mos tão bem, an­da­mos legal, vamos por aí
E no fim do dia ainda po­de­mos falar e sorrir
Mas quando o es­pí­ri­to se li­ber­tar
Quem tomará conta dos gatos?

Doze anos depois vêm o ba­si­ca­men­te folk e um tanto dy­la­nes­co Nenhum Dano Mental Grave Cons­ta­ta­do (in­de­pen­den­te, 2017), muito bem pro­du­zi­do por Thomas Dreher e de­di­ca­do a Ju­li­a­na, “par­cei­ra certa nas horas in­cer­tas”. Sua verve po­é­ti­ca está mais afiada do que nunca, e o disco soa com uma co­e­rên­cia in­ter­na que vale no mínimo uma boa es­cu­ta­da. Está em todas as pla­ta­for­mas. Todas as mú­si­cas são de Jimi, com ex­ce­ção de Amor Ma­ni­fes­to (dele com Nenung, dos Darma Lóvers) e Garoto Tro­glo­di­ta (Julio Reny / Ja­que­li­ne Val­lan­dro).

Jimi, 2026:

O se­gun­do disco foi um exer­cí­cio de au­to­a­fir­ma­ção pós-trans­plan­te. Quando fui com­bi­nar com o Thomas de gravar com ele, me per­gun­tou quem era a banda. Res­pon­di que eu ia ser o Paul Mc­Cart­ney no pri­mei­ro disco solo e ele ia ser o George Martin. Daí quando chegou a hora de fazer as ba­te­ri­as falei que não ia con­se­guir e disse pra ele fazer. Ele riu e disse "não, o George Martin não toca ba­te­ria" e falou pra eu sentar na ba­te­ria e gravar peça por peça. 
E tem um de­di­nho do Mi­ran­da. Quando já es­tá­va­mos quase fe­chan­do as gra­va­ções, mandei uma cópia pra ele. A res­pos­ta foi "diz pro Thomas botar tua voz bem na cara e atolar de re­ver­ber como na­que­las pri­mei­ras gra­va­ções do Elvis"

Trans­plan­te?

Sim. Por uma doença con­gê­ni­ta - rins po­li­cís­ti­cos -, Jimi teve de co­me­çar a fazer he­mo­di­á­li­se en­quan­to es­pe­ra­va, por 10 anos, um trans­plan­te. O que só acon­te­ceu em maio de 2013.

Fiquei sa­ben­do que tinha essa doença com 24 anos de idade, em uma ca­su­a­li­da­de, depois de sofrer um aci­den­te de moto. A partir daí co­me­cei a ter cui­da­do, a todo ano ir ao médico, fazer exames e acom­pa­nhar a função renal. Até que em 2003 (...) os rins já não es­ta­vam fun­ci­o­nan­do como de­ve­ri­am. (...) Fiquei na fila por 10 anos e um mês.

Em 2015 Jimi lançou um livro há muito tempo es­pe­ra­do: Esta Não Era Pra Tocar no Rádio (Brasa Edi­to­ra), as­si­na­do junto com a jor­na­lis­ta Cris­ti­a­ne Marçal, conta a his­tó­ria das duas rádios mais fun­da­men­tais para a música de Porto Alegre das úl­ti­mas dé­ca­das do século XX: Con­ti­nen­tal AM e Ipa­ne­ma FM.  

Re­cen­te­men­te fez um se­gun­do trans­plan­te de rins. No­va­men­te deu tudo certo.

Foto: Fer­nan­da Che­ma­le
As opi­ni­ões emi­ti­das pelo autor não ex­pres­sam ne­ces­sa­ri­a­men­te a po­si­ção edi­to­ri­al da Ma­ti­nal.

—Arthur de Faria

Arthur de Faria — É compositor de profissão (20 discos, cerca de 60 trilhas), doutor em literatura brasileira pela UFRGS. Publicou "Porto Alegre, uma biografia musical" (vol. 1 e vol. 2); "Lupicínio, uma biografia musical" e "Elis, uma biografia musical".

Entrevista

Um poeta que explica tudo

Eu estava no re­creio, an­dan­do pelo pátio – o re­creio é aquela hora de andar à toa entre um com­pro­mis­so e outro, o pátio era o Ins­ta­gram –, quando de­pa­rei com uma pos­ta­gem inu­su­al. Um ca­ma­ra­da de ótima fala, ex­pli­can­do como fun­ci­o­na­va a con­ta­gem de sí­la­bas de um poema que era de fato uma letra de canção. 

Ele falava com de­sem­ba­ra­ço e des­tre­za sobre o tema, nem tão banal assim (esse de contar sí­la­bas po­é­ti­cas e en­ten­der o jogo dos acen­tos de cada verso, mais o es­que­ma de rimas), e mos­tra­va também in­ti­mi­da­de com os temas que apa­re­ci­am no poema, temas da cul­tu­ra po­pu­lar bra­si­lei­ra, em parte ori­gi­na­dos da tra­di­ção ima­gé­ti­ca de afro­des­cen­den­tes, em parte não. Tudo muito flu­en­te, e ainda por cima bem edi­ta­dos no vídeo. 

Se quiser ter a mesma sen­sa­ção que tive, pro­cu­ra lá o Suriel Moisés Ri­bei­ro. Ele se mostra com um sor­ri­so con­vi­da­ti­vo, face meio de banda, fa­lan­do e fa­lan­do e can­tan­do. Ci­tan­do mes­tres desse mundo da canção e da cul­tu­ra po­pu­lar do país como Paulo César Pi­nhei­ro e Luiz Al­ber­to Simas, mes­tres como Pau­li­nho da Viola e Maria Be­tâ­nia, mas também mes­tres pouco co­nhe­ci­dos, como aque­les que pra­ti­cam o re­pen­te ou o pes­so­al do rap.

Mandei men­sa­gem, propus per­gun­tas – in­clu­si­ve sobre o sen­ti­do do nome dele, tão ori­gi­nal, Suriel – e agora o leitor vai co­nhe­cer melhor a peça. 


Luís Au­gus­to Fis­cher – Me conta da tua his­tó­ria: qual teu ca­mi­nho pra chegar até esses vídeos? Tu tem for­ma­ção em Letras ou em algo assim? Ou teu ca­mi­nho até a poesia po­pu­lar e a canção corre por outro trilho?

Suriel Moisés Ri­bei­ro – Tudo começa com meus pais. Minha mãe, hoje uma pro­fes­so­ra de Tai Chi Chuan, tem muita ha­bi­li­da­de com as pa­la­vras es­cri­tas e fa­la­das. Meu pai, um jar­di­nei­ro de pro­fis­são, com grande sen­si­bi­li­da­de mu­si­cal, faz belas po­e­si­as. Ele cos­tu­ma­va tocar violão e compor, na minha in­fân­cia. 

Mas minha ca­mi­nha­da nesse ofício de fazer versos ini­ci­ou na pré-ado­les­cên­cia, quando estava ainda no ensino fun­da­men­tal. Eu gos­ta­va muito de es­cu­tar o funk da época, anos 90. Meus pri­mei­ros versos foram pa­ró­dias de faixas dos álbuns, Rap Brasil 1 e 2.  Depois co­me­cei a tentar fazer meus pró­prios funks. 

O que sempre me chamou aten­ção foi a rima. Então, con­se­quen­te­men­te, co­me­cei a es­cu­tar o Rap, fiquei fã do Ra­ci­o­nais, na época eu tinha 13 anos. Eu nasci em Porto Alegre, morei na Vila Ca­nu­dos, morro da Em­bra­tel, até os 7 anos. Aos 9 mudei, com a minha mãe, para Flo­ri­a­nó­po­lis. Um de­ta­lhe im­por­tan­te: cresci par­ti­ci­pan­do de uma co­mu­ni­da­de re­li­gi­o­sa, de origem ama­zô­ni­ca, criada por um se­rin­guei­ro baiano, na década de 60. Então, tanto em POA quanto em Flo­ri­pa, eu sempre tive con­ta­to com pes­so­as do norte e nor­des­te, por con­se­guin­te, com a música e cul­tu­ra dessas re­gi­ões. 

Entre os 14 e os 15 anos, eu passei a es­cu­tar muito re­pen­te, a arte do im­pro­vi­so nor­des­ti­no. Na época, eu con­se­guia cópias de fitas gra­va­das com co­le­tâ­neas ale­a­tó­rias. Fiquei afi­ci­o­na­do, me en­can­ta­va a ge­ni­a­li­da­de e a des­tre­za dos poetas em de­sen­vol­ver os mais va­ri­a­dos temas, com as mais ines­pe­ra­das rimas. De tanto es­cu­tar, co­me­cei a per­ce­ber, de ouvido, que al­gu­mas mo­da­li­da­des tinham versos mais curtos, outras tinham versos mais longos. E, ao trans­cre­ver esses re­pen­tes, fui per­ce­ben­do as com­ple­xas dis­po­si­ções de rimas. 

Esse foi o grande ponto de par­ti­da. Digo que a can­to­ria de im­pro­vi­so é a minha grande escola de verso. As­su­mir esse gosto pela mé­tri­ca e pela rima foi um pouco de­sa­fi­a­dor, em alguns mo­men­tos. Na ado­les­cên­cia, muito magro e des­pro­vi­do de beleza física, minha única fer­ra­men­ta era a ha­bi­li­da­de de ali­nhar uns versos, ainda bem in­gê­nuos. Um dia, apai­xo­na­do por uma menina do grupo de teatro da escola, puxei o as­sun­to da poesia. Ela disse na lata: pra mim, poesia de ver­da­de é sem rima. Acabou com todos os meus re­cur­sos de se­du­ção.

O se­gun­do de­sa­fio veio ao entrar na fa­cul­da­de de Letras. Ali eu passei acre­di­tar que aquilo que eu fazia não estava no mesmo nível in­te­lec­tu­al da poesia con­tem­po­râ­nea, era coisa ul­tra­pas­sa­da. Gastei um tempo ten­tan­do me en­cai­xar. Mas tive pro­fes­so­res que me deram muito apoio, que tinham con­si­de­ra­ção e ad­mi­ra­ção pela minha pes­qui­sa. Cito aqui Char­les Kiefer e Ri­car­do Bar­be­re­na, na PUC. No fim das contas, en­ten­di que a minha re­la­ção com a poesia tem um lado de brin­ca­dei­ra, de jogo de montar. Eu gosto do de­sa­fio de en­cai­xar na mé­tri­ca, som e sen­ti­do. 

Re­su­min­do, por volta de 2019, achei que eu po­de­ria usar essas fer­ra­men­tas na cri­a­ção de letras de música. Ini­ci­ei um mer­gu­lho na obra de alguns le­tris­tas como, Paulo César Pi­nhei­ro, To­ni­nho Nas­ci­men­to, Carlos Rennó, Sergio Fon­se­ca, entre outros. Depois, co­me­cei a pu­bli­car al­gu­mas coisas e logo os par­cei­ros foram sur­gin­do. De lá para cá, tenho muitas letras mu­si­ca­das, a mai­o­ria em re­gis­tro ca­sei­ro. Então, entre final de julho e início de agosto, de 2026, re­sol­vi co­me­çar a expor de ma­nei­ra mais fre­quen­te e es­tra­té­gi­ca, as minhas letras, para que mais pes­so­as pu­des­sem ter con­ta­to com o meu tra­ba­lho.

LF – E esse nome, de onde veio, a pro­pó­si­to?

SR – Sobre o meu nome, meu pai tinha um nome mís­ti­co, Surya Gee, que, se­gun­do seu guru da época, sig­ni­fi­ca sol doce, em sâns­cri­to. Ele e minha mãe juram ter criado meu nome, jun­tan­do “suri”, de sol com “el”, do he­brai­co, que apa­re­ce como ter­mi­na­ção dos nomes de anjos. Um dia, eu pes­qui­sei em uma bíblia e des­co­bri que Suriel é o nome de um chefe de clã, per­ten­cen­te a uma fa­mí­lia do grupo dos Le­vi­tas. Apren­di a gostar dele, mas no começo me sentia meio es­qui­si­to...

LF – Como tem sido a re­cep­ção dos teus vídeos? Conta al­gu­mas re­a­ções. Desde quando tu tem pro­du­zi­do esse ma­te­ri­al?

SR – A re­cep­ção dos vídeos tem sido muito boa. Pes­so­as di­zen­do que aquele é o ins­ta­gram pre­mium, agra­de­cen­do ao deus al­go­rit­mo. Kkkk. Muita gente pe­din­do curso e livro sobre o as­sun­to. Uma pessoa disse que tinha re­ti­ra­do seu like, pois contou as sí­la­bas de um verso que eu dizia ter 5 e en­con­trou 7. Eu ex­pli­quei que a con­ta­gem de sí­la­bas po­é­ti­cas era di­fe­ren­te. Ele não só en­ten­deu, como es­cre­veu os pri­mei­ros versos de sua vida, aos 45 anos, com mé­tri­ca e rima. Isso me deixou muito feliz. Além disso, muitos com­po­si­to­res de pro­je­ção na­ci­o­nal, entre outras pes­so­as co­nhe­ci­das, co­me­ça­ram a seguir, com­par­ti­lhar e curtir os vídeos. Isso tudo sig­ni­fi­ca que o tra­ba­lho está tendo êxito.

LF – Outra: tu tra­ba­lha em quê? Como pro­fes­sor? E que tal o tra­ba­lho?

SR – Eu tra­ba­lhei como pro­fes­sor do ensino fun­da­men­tal du­ran­te um ano, achei in­crí­vel a ex­pe­riên­cia, foi na zona rural de El­do­ra­do do Sul, uma escola es­ta­du­al cha­ma­da Ser­gi­pe. Desde 2021, co­me­cei a tra­ba­lhar com con­te­ú­dos para canais no you­tu­be, abri em­pre­sa e me sus­ten­tei com isso até o fim do ano pas­sa­do. O you­tu­be mo­di­fi­cou al­gu­mas po­lí­ti­cas e eu perdi muitos canais. De qual­quer forma, não era um tipo de con­te­ú­do que eu gos­ta­va muito de fazer. Mas, ele me per­mi­tiu criar um caixa legal, in­clu­si­ve, per­de­mos tudo na en­chen­te de 2024, mas foi o pe­rí­o­do em que a em­pre­sa mais fa­tu­rou, então con­se­gui­mos mudar para Porto Alegre e re­co­me­çar aqui. A ideia agora é viver da minha arte, kkk. Como as pes­so­as já estão pe­din­do cursos e livros, penso em in­ves­tir nisso para ter ali uma fonte de renda.

LF – Como esse gosto e essa prá­ti­ca te levou ao que tu faz hoje, com as pos­ta­gens? 

SR – Eu per­ce­bi que o do­mí­nio da mé­tri­ca e de outros re­cur­sos es­té­ti­cos pode ser um fer­ra­men­tal muito in­te­res­san­te para quem faz letras de música. Meus par­cei­ros sempre falam que o texto me­tri­fi­ca­do, com re­gu­la­ri­da­de na po­si­ção das tô­ni­cas, fa­ci­li­ta a com­po­si­ção. E eu vejo que o treino de en­cai­xar as ideias dentro de me­di­das prees­ta­be­le­ci­das pode ajudar até quem vai co­lo­car letra em uma me­lo­dia pronta. Minha ideia é passar um pouco de teoria e prá­ti­ca dessas es­tru­tu­ras. 

Temos no Brasil uma quan­ti­da­de enorme de mo­da­li­da­des po­é­ti­cas, no campo da poesia oral im­pro­vi­sa­da. Acre­di­to que o estudo delas pode en­ri­que­cer a pro­du­ção dos com­po­si­to­res. Existe um re­pen­tis­ta cubano, cha­ma­do, Alexis Díaz Pi­mi­en­ta, que ensina a es­tru­tu­ra da décima es­pi­ne­la para com­po­si­to­res. Já pas­sa­ram por ele, Juanes, Jorge Drex­ler, Na­ta­lia La­four­ca­de, entre outros. 

Aqui no Brasil, essa mesma décima é usada tanto no sul quanto no nor­des­te. Mas temos muitas outras es­tru­tu­ras, com va­ri­a­dos ta­ma­nhos de versos e dis­po­si­ção de rimas. Minha ideia é ini­ci­ar um mo­vi­men­to, uma co­mu­ni­da­de de com­po­si­to­res que es­tu­dam e criam com base em todo esse acervo po­é­ti­co que temos. Par­tin­do disso, o com­po­si­tor pode até des­cons­truir, mo­di­fi­car e criar novas es­tru­tu­ras. 

Eu penso que essas es­tru­tu­ras tra­di­ci­o­nais são linhas de co­ne­xão entre as re­gi­ões do Brasil e do Brasil com outros países da Amé­ri­ca Latina. Acre­di­to que po­de­mos ex­pan­dir esse con­ta­to mu­si­cal, par­tin­do das si­mi­la­ri­da­des que nos unem e das di­fe­ren­ças que en­ri­que­cem. Então, minha pre­ten­são, a longo prazo, é ver uma co­mu­ni­da­de que firma par­ce­ri­as para além das fron­tei­ras. Um curso pode ser um bom ponto de par­ti­da. E um livro de apoio, com essa abor­da­gem que trago nos vídeos, pode ajudar. Também tenho textos po­é­ti­cos pron­tos para pu­bli­ca­ção.

LF – Tem link pra can­ções com letra tua?

SR – Quase todas as com­po­si­ções estão, ainda, em re­gis­tro ca­sei­ro. Agora que vou co­me­çar a co­lo­car pro­je­tos de gra­va­ção para rodar. Mas tenho essa aqui, gra­va­da pela Dorina, uma sam­bis­ta ca­ri­o­ca. É uma par­ce­ria minha com Luiz An­to­nio Simas, que além de grande his­to­ri­a­dor, es­cri­tor, é também um ótimo com­po­si­tor. Ele tem mú­si­cas gra­va­das por Mar­ce­lo D2, Maria Rita, Criolo, entre outros. Tenho com ele al­gu­mas com­po­si­ções pron­tas e mais outras em an­da­men­to.

Link para Força do Samba no You­Tu­be.

Link para Pedra Sa­gra­do de Xangô no You­Tu­be.

LF – Faltou te per­gun­tar uma: como tem sido a re­cep­ção dos teus (ex­ce­len­tes, muito bem edi­ta­dos) vídeos no que se refere ao con­te­ú­do afro, even­tu­al­men­te mar­ca­do com fi­gu­ras de teor re­li­gi­o­so? Algum pro­ble­ma já pintou? 

SR – De modo geral, o al­go­rit­mo tem acer­ta­do bem o pú­bli­co. Tem um vídeo em que ana­li­so a letra de Paulo César Pi­nhei­ro, sobre Be­sou­ro Man­gan­gá; nele, uma pessoa disse ter gos­ta­do do con­te­ú­do, exceto da “ofe­ren­da barata e des­ne­ces­sá­ria do final”. Na con­clu­são da­que­le vídeo, eu mostro uma letra minha, com a mesma es­tru­tu­ra que eu vinha ana­li­san­do, em que falo de Oxóssi. O en­gra­ça­do é que o álbum dessa música é todo de toques de ca­po­ei­ra e o enredo é um homem negro, per­se­gui­do pela po­lí­cia, que tinha o corpo fe­cha­do atra­vés de ritual. Mas ele nem deve ter aten­ta­do a isso, o que chocou o rapaz foi o nome de Oxóssi. Eu tenho per­ce­bi­do pas­to­res, can­to­res de música gospel, que estão acom­pa­nhan­do o perfil e não tenho tido pro­ble­mas. Eu recebo mais ata­ques, na ver­da­de, quando cito a quadra po­pu­lar, ba­ta­ti­nha quando nasce, es­par­ra­ma pelo chão. Aí o time do “es­pa­lha rama” se en­fu­re­ce. Eu acho in­te­res­san­tís­si­mo.

As opi­ni­ões emi­ti­das pelo autor não ex­pres­sam ne­ces­sa­ri­a­men­te a po­si­ção edi­to­ri­al da Ma­ti­nal.

—Luís Augusto Fischer

Luís Augusto Fischer — Professor e editor da revista Parêntese.

Crônica

Naming Rights às avessas

Porto Alegre. Foto: Felipe Valduga

Um jovem as­ses­sor do pre­fei­to de Porto Alegre, alçado ao cargo por ter es­ta­gi­a­do num think tank do Ala­ba­ma, teve uma ideia genial. Es­pe­lhan­do-se no su­ces­so de ope­ra­ções de naming rights que le­va­ram ao re­ba­tis­mo do es­tá­dio do São Paulo Fu­te­bol Clube para Mo­rum­BIS e do Es­tá­dio Mu­ni­ci­pal do Pa­ca­em­bu – também em terras pau­lis­ta­nas – para Mer­ca­do Livre Arena Pa­ca­em­bu, propôs ao nosso ar­di­lo­so pre­fei­to buscar ca­mi­nho se­me­lhan­te, pela via in­ver­sa, para brecar a cres­cen­te des­va­lo­ri­za­ção dos bair­ros atin­gi­dos pela en­chen­te de 2024. 

Já ex­pli­co: nor­mal­men­te são as em­pre­sas que pagam por essa mu­dan­ça para melhor di­vul­ga­rem sua marca ou seu nome. Aqui, a pre­fei­tu­ra tra­ta­ria de en­cai­xar o pro­gra­ma nos re­cur­sos ofer­ta­dos pelo go­ver­no fe­de­ral para a re­cu­pe­ra­ção do Rio Grande do Sul após a he­ca­tom­be, pa­gan­do a em­pre­sas idô­neas pelo em­prés­ti­mo de seus nomes ou da marca de algum de seus pro­du­tos por um prazo de­ter­mi­na­do. 

O as­ses­sor lem­brou que a pro­pos­ta con­ver­gia com o in­te­res­se das cons­tru­to­ras em pro­mo­ver a re­va­lo­ri­za­ção dos imó­veis à venda e com a con­ve­niên­cia de apagar da me­mó­ria os nomes dos bair­ros atin­gi­dos, onde havia muitos lan­ça­men­tos pro­gra­ma­dos. A má fama estava fre­an­do os ne­gó­cios.

A ideia foi apro­va­da com en­tu­si­as­mo. Por su­ges­tão da con­sul­to­ria in­ter­na­ci­o­nal con­tra­ta­da para de­se­nhar o pro­je­to, cha­ma­ram-no de Cle­a­ning Pro­gram. O nome caía bem para en­fo­car as áreas afe­ta­das e que, diga-se de pas­sa­gem, ainda fediam a cocô.

A pro­pos­ta ela­bo­ra­da pela as­ses­so­ria previa vinte anos de cessão de di­rei­tos de uso do nome. O pre­fei­to re­du­ziu o prazo para dez anos, mas a Câmara apro­vou apenas cinco. Não quis as­sus­tar o em­pre­sa­ri­a­do.

Na ce­ri­mô­nia de lan­ça­men­to, o pre­fei­to agra­de­ceu a par­ce­ria cidadã de­mons­tra­da por seus ali­a­dos da Câmara de Ve­re­a­do­res, da Fe­de­ra­ção das In­dús­tri­as, da Fe­de­ra­ção do Co­mér­cio, das em­pre­sas de trans­por­te e do ter­cei­ro setor – as forças vivas da co­mu­ni­da­de –, que pron­ta­men­te se haviam as­so­ci­a­do ao pro­gra­ma. O pre­fei­to estava certo de que o Cle­a­ning Pro­gram daria outras cores a uma cidade en­lu­ta­da, te­me­ro­sa e sem es­pe­ran­ças.

O pri­mei­ro edital se­le­ci­o­nou oito bair­ros da cidade atin­gi­dos for­te­men­te pelas en­chen­tes: Menino Deus, Pedra Re­don­da, Ipa­ne­ma, Lami e Ponta Grossa, na zona sul; Vila Far­ra­pos, Hu­mai­tá e Sa­ran­di, na zona norte. 

Com muito bate-boca e co­to­ve­la­das, a Câmara apro­vou os novos nomes, aqui dis­pos­tos em ordem al­fa­bé­ti­ca anun­ci­a­dos sob aplau­sos da claque e vaias es­par­sas: Ar­ru­e­las Far­ra­pos, Ca­ne­tas BOC Ponta Grossa, Ca­ni­nha Sa­ran­di, Chi­ne­las Ipa­ne­ma, La­jo­tas Pedra Re­don­da, Lar de Idosos Menino Deus, Massa Miojo Lami e Mi­ni­mer­ca­do Dona Lurdes Hu­mai­tá. 

O nome de Águas Boas de Lin­dóia, rei­vin­di­ca­do para o Jardim Lin­dóia, foi re­jei­ta­do sem mai­o­res ex­pli­ca­ções. Talvez porque a menção a “águas” não aju­das­se para o es­que­ci­men­to.

Por ini­ci­a­ti­va de um ve­re­a­dor do mesmo par­ti­do do pre­fei­to, con­di­ci­o­nou-se a as­si­na­tu­ra de con­tra­to com o Lar de Idosos Menino Deus à re­ti­ra­da da ex­pres­são “de Idosos”, para não dar ao bairro os ares de um con­do­mí­nio da ter­cei­ra idade. Mesmo tendo sido acu­sa­do de eta­ris­ta, sua pro­pos­ta foi apro­va­da.

Foi tanta a re­cep­ti­vi­da­de do Cle­a­ning Pro­gram entre o em­pre­sa­ri­a­do da ca­pi­tal que o pre­fei­to re­sol­veu aten­der aos in­sis­ten­tes re­cla­mos das en­ti­da­des de classe por sua am­pli­a­ção. Es­ten­deu-o a toda a cidade, sob a ale­ga­ção de que as en­chen­tes haviam pre­ju­di­ca­do Porto Alegre como um todo. Pu­bli­cou-se um se­gun­do edital, com o que novas de­no­mi­na­ções foram apro­va­das pela Câmara. São elas: Ab­sor­ven­te Bela Vista; Ama­ci­an­te Nonoai; Avi­va­men­to do Bom Jesus Church; Ce­lu­lo­se QWTC Flo­res­ta; Em­pó­rio Gour­met Boa Vista; Leite da Vovó Glória; Mo­i­nhos das Ala­go­as; Motel Copa 70 Par­te­non; Souza, Pi­nhei­ro, Lomba Ad­vo­ca­cia e Vila Mapa Astral On Line.

A co­mu­ni­da­de da Lomba do Pi­nhei­ro mos­trou-se muito des­gos­to­sa com a troca do nome para Souza, Pi­nhei­ro, Lomba Ad­vo­ca­cia, uma vez que apenas re­cen­te­men­te o bairro ga­nha­ra alguma no­to­ri­e­da­de, em razão da obra do es­cri­tor José Falero, agra­ci­a­do pela pró­pria Câmara com o título de Ci­da­dão de Porto Alegre. 

Uma re­pre­sen­tan­te do Clube de Mães do Bairro Par­te­non for­ma­li­zou pro­tes­to pela nova de­no­mi­na­ção do bairro – Motel Copa 70 Par­te­non –, jus­ti­fi­can­do-se: “nin­guém mora em motel”.

Um grupo de po­pu­la­res, sete deles com a ca­mi­se­ta da se­le­ção bra­si­lei­ra, pro­tes­tou pela troca de Mo­i­nhos de Vento por Mo­i­nhos das Ala­go­as: uma bai­xa­ria, uma piada de mau gosto. Na sessão se­guin­te, os ve­re­a­do­res re­ver­te­ram a de­ci­são. Apro­vei­tan­do o ensejo, apro­va­ram às pres­sas outros nomes de bair­ros: Au­xi­li­a­do­ra virou Au­xi­li­a­do­ra Con­do­mi­ni­al; Chapéu do Sol mudou para Chapéu do Vi­ran­do Sol; Cris­tal passou a Vinho Lá­gri­mas de Cris­tal; Me­di­a­nei­ra virou Aposta Certa Me­di­a­nei­ra e Passo da Areia tornou-se Fu­ne­rá­ria e Mar­mo­ra­ria Passo da Areia.

O ve­re­a­dor mais fer­re­nho da opo­si­ção citou Ri­o­bal­do, per­so­na­gem de Grande Sertão: Ve­re­das, de Gui­ma­rães Rosa, para jus­ti­fi­car seu voto con­trá­rio ao pro­je­to: “Como é que podem re­mo­ver uns nomes assim? (...) Nome de lugar onde alguém já nasceu, devia de estar sa­gra­do. (...) Pre­ci­sa­va de se ter mais tra­va­ção. Senhor sabe: Deus é de­fi­ni­ti­va­men­te; o demo é o con­trá­rio Dele...”. Mas foi muito vaiado pelo pú­bli­co pre­sen­te na ple­ná­ria, levado em com­boio pelas en­ti­da­des em­pre­sa­ri­ais e par­ti­dos da si­tu­a­ção. A pre­si­den­ta da sessão, de origem capitã da Bri­ga­da Mi­li­tar, ri­di­cu­la­ri­zou o voto do colega pelo teor ar­re­ve­sa­do e in­cul­to de seus ar­gu­men­tos e pelo uso do nome de Deus em vão.

Cir­cu­la­ram pela in­ter­net de­nún­cias de que o CNPJ da em­pre­sa Avi­va­men­to Bom Jesus Church havia sido re­gis­tra­do há apenas quinze dias, mas nin­guém se ocupou de fazer mai­o­res ave­ri­gua­ções sobre o fato.

Ainda não se teve no­tí­cia da efe­ti­va dis­po­ni­bi­li­za­ção dos re­cur­sos da União para o Cle­a­ning Pro­gram, mas todos os ar­ti­cu­lis­tas da grande im­pren­sa local já foram es­ca­la­dos para fazer lou­va­ções a ele e cri­ti­car sis­te­ma­ti­ca­men­te a in­sen­si­bi­li­da­de e a ine­fi­ciên­cia do go­ver­no fe­de­ral. Como um afago à opo­si­ção, que teria in­fluên­cia sobre a chave do cofre, os ve­re­a­do­res da si­tu­a­ção su­ge­ri­ram con­ce­der-se ao bairro Bom Fim o nome de Berlim Bom Fim, ofe­re­cen­do uma módica paga ao le­tris­ta da clás­si­ca canção porto-ale­gren­se, figura fre­quen­te nos co­mí­cios da es­quer­da de­mo­crá­ti­ca. 

O le­tris­ta não foi ouvido para expor sua po­si­ção a res­pei­to.

Assim, vamos.

Chuva, porém, ainda se chama chuva. 

Nota do autor:  Esta é uma obra de ficção e sátira po­lí­ti­co-social. O pro­gra­ma, as de­ci­sões ad­mi­nis­tra­ti­vas, os per­so­na­gens e os epi­só­dios nar­ra­dos são in­tei­ra­men­te fic­tí­cios. Nomes de em­pre­sas, marcas, en­ti­da­des, lu­ga­res, pes­so­as e obras reais são uti­li­za­dos ex­clu­si­va­men­te como re­cur­so li­te­rá­rio, não im­pli­can­do qual­quer par­ti­ci­pa­ção nos fatos des­cri­tos ou atri­bui­ção de con­du­tas às pes­so­as ou en­ti­da­des men­ci­o­na­das. Nenhum gestor pú­bli­co da ca­pi­tal gaúcha teve essa ideia. Ainda.
As opi­ni­ões emi­ti­das pelo autor não ex­pres­sam ne­ces­sa­ri­a­men­te a po­si­ção edi­to­ri­al da Ma­ti­nal.

—Miguel da Costa Franco

Miguel da Costa Franco — Escritor e roteirista. Autor de obras como "A filha do Dilúvio" (Libretos, 2021), "Os heróis do Parque Borowski" (Boaventura, 2022) e "Mentiras, verdades e outras falsidades" (Gog, 2025).

Corte Raso

Cordel do Corte Raso – Capítulo 18 – Parte IV

Xilogravura: Nena Borges. Para adquirir uma cópia desta gravura, contatar Suzana Borges no WhatsApp (81) 98792-2955. Mais artes como essa estão disponíveis via Instagram, em @temmulhernaxilo e @nenaborges.xilogravura

O Cordel do Corte Raso é uma his­tó­ria de bi­ó­lo­gos na Ama­zô­nia con­ta­da em 24 ca­pí­tu­los, mais um pre­âm­bu­lo e um epí­lo­go. Acom­pa­nhe partes do texto em fas­cí­cu­los se­ma­nais aqui na Pa­rên­te­se e em áudio no perfil de Gon­ça­lo Ferraz no Sound­Cloud. A versão im­pres­sa e com­ple­ta, com ilus­tra­ções de Nena Borges, será ven­di­da em fo­lhe­tos de cordel na Banca Aberta e no brique da Re­den­ção.


Bubuia – Parte IV


Um banho, um susto e um ronco fecham a noite de bubuia, abençoada com amor e ami­za­de.



O ter­re­no tem uma casa
des­ta­ca­da do ar­vo­re­do
por um pátio bem espaçoso
re­ves­ti­do por lajedo
com uma pis­ci­na plan­ta­da
em meio à pedra ali­sa­da,
tão limpa que lava o medo.

A Lua que faz a hora,
o lugar e a feição,
faz de vidro a tona d’água,
lambe pedra e coração
com o mesmo azul des­lum­bra­do,
cor do frio e do pecado,
mistério, cor de perdão.


Dis­se­ram que está vazia,
a casa que assim parece.
Che­gan­do junto à pis­ci­na
o es­pe­lho de água agra­de­ce
as carícias da poeira
le­van­ta­da à sua beira
e va­ga­men­te es­tre­me­ce.

A Lua nem se atra­pa­lha
por ver Ro­dri­go pelado:
A ca­mi­se­ta pou­sa­da
sobre o tênis descalçado,
re­vi­ra­do e no limite
junto à saia da Judite,
sem ela, pano jogado.

Sem roupa, ver­go­nha, ou frio,
entram na água dis­cre­ta
que os acolhe com o apreço
da par­ce­ria se­cre­ta.
En­cos­ta­dos à parede
sentem flu­tu­ar a sede
que o corpo imerso ar­qui­te­ta.

A abóbada en­lu­a­ra­da
que o céu es­ten­de ho­nes­ta­men­te
entre as copas e o te­lha­do
res­pi­ra o hálito quente
de um silêncio pon­tu­a­do
por grilos e algum cla­ma­do
remoto sinal de gente.

Ro­dri­go le­van­ta um braço,
che­gan­do a mão, ver­da­dei­ra,
à face morna da amiga
(que seja amante e par­cei­ra!),
toca-lhe o lábio no ensejo
do toque terno de um beijo,
mas ela res­pon­de ar­tei­ra.


Res­pi­ra e de­sa­pa­re­ce
num mer­gu­lho sem ruído.
Le­van­do corpo e cabelo
cruza a pis­ci­na ao com­pri­do
e senta do outro lado
num degrau ar­re­don­da­do,
sub­mer­so banco es­ten­di­do.

A água pelo pescoço,
cabelo agora mo­lha­do,
bri­lhan­do na luz da lua
e o olhar des­pu­do­ra­do, 
ri­so­nho sinal ciente
de quem já sabe o que sente
quem o sinta assim fitado.

Ro­dri­go vira de costas,
com os pés em­pur­ra a parede
e des­li­za de bubuia
(porque a noite assim lho pede)
ao sabor da gra­vi­da­de
que a Judite, por von­ta­de,
lhe so­li­ci­ta e con­ce­de.

Ao al­can­ce de um abraço,
gira Ro­dri­go outra vez
e sente os con­tor­nos dela,
impossível li­qui­dez
de um corpo sólido a nado,
cor­res­pon­den­te ao cha­ma­do
que o desejo agora fez.

O que se deu em se­gui­da,
por qual modo, em qual estado,
pode vir a ser as­sun­to
de um cordel mais ar­re­ta­do.
Quem sabe, já chegou lá.
Quem não sabe, saberá
no mo­men­to apro­pri­a­do.


E ha­ven­do alguma lei­to­ra
ou leitor que pense nisto
com angústia ou nos­tal­gia
—por um sen­ti­men­to misto—
perdoe a minha ati­tu­de
ce­le­bran­do a ju­ven­tu­de
sem pena de ser mal visto.

Mas também note, se­nho­ra,
ou senhor mais re­ni­ten­te,
que o desejo se revela
por forma bem di­fe­ren­te
con­for­me a opor­tu­ni­da­de,
sendo que o fator idade
não é sempre con­se­quen­te.

Aquilo que agora fazem
estes dois tão abraçados
também se faz com pa­la­vras
por olha­res, ou com re­ca­dos,
por silêncios, sim­pa­tia...
Até por te­le­pa­tia
em espíritos mais ou­sa­dos.

Desejo é que nem ba­ra­lho
de cartas para jogar.
Tem uns que jogam ca­nas­ta,
mas sa­ben­do variar
tem pif e até solitário
que é o jeito nem tão precário
do amor próprio triun­far.

E entre nós, também tem isto:
esse banho clan­des­ti­no
não foi proeza da musa
com seu amante latino.
Foi um bom atre­vi­men­to,
bonito amor ao re­len­to...
Pena o corte re­pen­ti­no!


Perto do clímax ar­den­te,
um ‘truz’ de porta, mal­va­do,
jogou água sobre o fogo
que, vejam só que engraçado,
pela água foi aceso
e por água se viu preso,
re­du­zi­do, e as­sus­ta­do.

Imóveis, sem sair fora
da pis­ci­na-es­con­de­ri­jo,
os dois amigos aman­tes
já sentem o fundo rijo
desse tanque, agora feio,
há pouco leito de enleio,
alcova de re­go­zi­jo.

A porta é dentro da casa
(parece, pelo ruído)
e o coração agra­de­ce.
Não estará tudo per­di­do!
Som de passos. Como soa,
será de uma só pessoa,
lá dentro, sem ala­ri­do.

Do lugar onde fi­ca­ram
se en­xer­ga a parede in­tei­ra
da casa junto à pis­ci­na.
Sendo a parede tra­sei­ra
tem um ar do­mes­ti­ca­do:
varal de roupa es­ti­ca­do
e um rolo de man­guei­ra.

Uma porta e três ja­ne­las
em al­tu­ras di­fe­ren­tes
levam luz do pátio à casa
e uma janela mais rente
ao apoio do te­lha­do
hoje in­ver­te o cos­tu­ma­do
sen­ti­do que a luz as­sen­te.


Em vez de vir Sol de fora,
acla­ran­do o in­te­ri­or,
é luz in­ter­na que sai
com es­bran­quiçado pudor
e con­cen­tra, sem demora,
a atenção de quem, por fora,
prende o riso com temor.

Passam assim três mi­nu­tos
de silêncio in­ter­rom­pi­do
por vagos sinais dis­cre­tos
de fa­mi­li­ar ruído
com­ple­ta­dos fi­nal­men­te
por um puxão de cor­ren­te,
des­car­ga de água e sen­ti­do.

Soam passos no­va­men­te,
se apaga a luz em se­gui­da
e outra vez a mansa lua
é so­be­ra­na ser­vi­da
por todo o bicho calado
que se en­con­tra ilu­mi­na­do
por uma luz tão con­ti­da.

Es­cu­tam a porta outra vez
e depois, ima­gi­na­do,
um res­pi­ro e ronco—suave
som do sono re­to­ma­do.
Vai-se o medo e volta o beijo
que en­tre­ga os dois ao desejo
de acabar o ina­ca­ba­do.

Não fosse Manaus quem é,
per­de­ri­am na água fria
todo o pique de ape­ti­te
mais o dom da re­bel­dia
que faz a gente va­len­te
ao colo do tempo quente,
do en­ge­nho e da folia.


Mas só per­de­ram foi peso.
Ga­nha­ram pro­xi­mi­da­de
pela graça que se alcança 
na gentil cum­pli­ci­da­de
que vem da en­tre­ga sem medo
ao som da lira do aedo
es­con­di­do na eter­ni­da­de. 

Já es­cu­tam de novo os grilos, 
estão fora da pis­ci­na.
Vestem as roupas que molham,
saem do pátio em sur­di­na
e o cloro, tão bem dosado,
fica turvo e ado­ci­ca­do
com traços de oci­to­ci­na.

Re­gres­sam com a bi­ci­cle­ta
pela mão, su­bin­do a es­tra­da.
Chegam na Aline e Joana
com a festa quase aca­ba­da.
Ainda tomam sai­dei­ra
e en­cer­ra­da a brin­ca­dei­ra
vão-se embora os dois no Strada.

Seguem direto para o Centro
onde certo está Babeca
ati­ra­do no soalho
entre o sono e a soneca
à última luz ra­san­te
que a lua passa na es­tan­te,
altar-mor da bi­bli­o­te­ca. 

Tem mais com­pri­men­to a casa
que lar­gu­ra. An­ti­ga­men­te
cons­truíam desta forma,
com pouca an­chu­ra de frente
e muita pro­fun­di­da­de.
Sa­be­ri­am que a vai­da­de
en­cur­ta o valor da gente? 

Bem di­fe­ren­te a men­sa­gem,
o tes­te­mu­nho, a herança
que os an­ti­gos jesuítas
nos er­gue­ram na lem­brança
pela fa­cha­da im­po­nen­te
de um corpo de igreja au­sen­te:
muito ar­rou­bo e pouca dança.

(Va­gan­te como estas rimas
é a con­ver­sa de pijama
que a Judite e o Ro­dri­go
terão sen­ta­dos na cama.
É a trama de quem co­nhe­ce
a congruência que tece
pelo tear de quem ama.)

Che­gan­do à Jo­a­quim Nabuco,
veio cheira-los con­ten­te
o ca­chor­ro es­tre­mu­nha­do.
Pas­sa­da a porta da frente
e à es­quer­da a sala de en­tra­da
mer­gu­lha­ram na morada
que é feito um ninho de gente.

Pela sala de jantar, contígua
à sala de en­tra­da,
che­ga­ram junto à co­zi­nha
por um arco de­mar­ca­da
e por um portal menor
en­tra­ram no cor­re­dor,
eixo da casa es­ti­ca­da.

Ao fundo à es­quer­da é a porta
do quarto que já se viu,
por onde um pássaro afoito
se in­fil­trou e es­ca­pu­liu.
No quarto é que estão sen­ta­dos,
con­ver­san­do, os na­mo­ra­dos
que este nosso enredo uniu.

Judite ficou de frente
para a porta do ba­nhei­ro, 
en­cos­ta­da à ca­be­cei­ra.
Se per­ce­be o re­pos­tei­ro
da sacada à sua es­quer­da
re­me­xen­do a aragem lerda
que anima o pátio tra­sei­ro.

Ro­dri­go parou sen­ta­do
aos pés da cama. Os jo­e­lhos
abraçados contra o peito
e os pen­sa­men­tos pa­re­lhos
com os dela são magia
da alcançada sin­to­nia
qual rosa em lábios ver­me­lhos.

Daqui a pouco ama­nhe­ce,
mas ainda vão des­can­sar
en­tre­gan­do a pele ao sono,
abraçados, sem pensar
como o calor se avi­zi­nha
do abraço de con­chi­nha,
que faz o corpo suar.

Entre voltas e mãos dadas
apagam pro­fun­da­men­te
nesse estado que é isento
e apro­xi­ma toda a gente
in­clu­in­do os ani­mais,
no embrião tão iguais
a um ser humano la­ten­te.

Ro­dri­go acorda pri­mei­ro,
sem sinal de luz do dia,
mas pres­sen­tin­do a al­vo­ra­da.
Como a fome se anun­cia,
ta­te­an­do se en­ca­mi­nha
em direção à co­zi­nha
que está de pia vazia.


Como co­nhe­ce as ga­ve­tas
e o in­te­ri­or dos armários
pre­pa­ra um café chei­ro­so
com os “comes” usuários:
fruta, queijo, pão e doce
cobiçado ainda que fosse
algo além do necessário.

Também faz ovos me­xi­dos
e ao batê-los, na tigela,
o ruído re­pe­ti­do
soa um pouco ta­ga­re­la.
Se escuta no cor­re­dor
onde o Babeca é senhor
da pas­sa­gem sem janela.

Coloca numa ban­de­ja
a refeição ge­ne­ro­sa
e car­re­ga até ao quarto
onde a luz do Sol gulosa
já entra pela sacada.
Cheiro, luz, café... dei­ta­da,
Judite acorda amo­ro­sa.

– Que­ri­do, não acre­di­to!
Meu amor... e quer saber?
Estava so­nhan­do ainda agora...
um sanhaço…pode ser?

Tipo um borrão de aqua­re­la
en­tran­do pela janela
cor da sanha de viver.


Fim do Capítulo 18 do Cordel do Corte Raso.


Acesse a versão em áudio com música de Lucas Duarte e edição sonora de Pablo Schinke via QR Code:

As opi­ni­ões emi­ti­das pelo autor não ex­pres­sam ne­ces­sa­ri­a­men­te a po­si­ção edi­to­ri­al da Ma­ti­nal.

—Gonçalo Ferraz

Gonçalo Ferraz — Professor no Departamento de Ecologia, Instituto de Biociências, UFRGS. Autor do "Cordel do Corte Raso".

Ensaio

Crimes que assombram o mundo

Imagem: Reprodução / Editoras Alfaguara e Sulina

Equi­pa­men­to pro­je­ta­do para adul­tos

Fer­nan­do Man­tel­li

Em 16 de junho de 1944, o jovem George Junius Stin­ney Jr. foi exe­cu­ta­do na ca­dei­ra elé­tri­ca. Ele tinha 14 anos e foi a pessoa mais jovem a ser exe­cu­ta­da nos Es­ta­dos Unidos no século XX.

O crime:

No dia 23 de março de 1944, Stin­ney Jr. matou a golpes de barra de ferro as me­ni­nas Betty June Bin­nicker, de 11 anos, e Marie Emma Thames, de 7 anos. Stin­ney con­fes­sou o crime. Ba­se­a­do na con­fis­são de Stin­ney Jr. e no de­poi­men­to dos po­li­ci­ais, o pro­mo­tor apre­sen­tou na sua sus­ten­ta­ção oral um relato per­tur­ba­dor sobre o que acon­te­ceu na­que­le trá­gi­co 23 de março:

As duas me­ni­nas bran­cas an­da­vam de bi­ci­cle­ta à pro­cu­ra de flores. Ao pas­sa­rem pela casa da fa­mí­lia Stin­ney, en­con­tra­ram um casal de jovens negros, George e a sua irmã Ka­the­ri­ne, e per­gun­ta­ram a eles se sabiam onde en­con­trar flores-de-paixão. Os irmãos não sou­be­ram in­for­mar, e então, elas se­gui­ram seu ca­mi­nho. Em se­gui­da, George in­ven­tou uma des­cul­pa para a irmã e foi atrás das me­ni­nas. Ele se apro­xi­mou de modo sor­ra­tei­ro e tentou abusar se­xu­al­men­te de Betty, que catava flores des­pre­o­cu­pa­da. A menina mais nova in­ter­fe­riu e tentou de­fen­der a amiga. George perdeu a pa­ciên­cia e a acer­tou com uma barra de ferro na cabeça.

Apa­vo­ra­da, Betty tentou fugir, mas George foi mais li­gei­ro e a al­can­çou. Ela também re­ce­beu vi­o­len­tos golpes na cabeça – os crâ­nios de cada uma delas foram par­ti­dos em quatro pe­da­ços.

Depois disso, George atirou os ca­dá­ve­res em uma fossa la­ma­cen­ta e, por fim, se­pul­tou as me­ni­nas jo­gan­do a bi­ci­cle­ta por cima dos seus corpos.

A vi­o­lên­cia do crime chocou os ju­ra­dos bran­cos, que le­va­ram cerca de dez mi­nu­tos para de­li­be­ra­rem: George Junius Stin­ney Jr. foi con­si­de­ra­do cul­pa­do de ho­mi­cí­dio qua­li­fi­ca­do com agra­van­tes por motivo fútil e re­quin­tes de cru­el­da­de. Ele foi con­de­na­do à morte na ca­dei­ra elé­tri­ca.

A exe­cu­ção:

Em 16 de junho, menos de três meses depois do jul­ga­men­to, George foi exe­cu­ta­do no com­ple­xo cor­re­ci­o­nal de Co­lum­bia, na Ca­ro­li­na do Sul.

Às 19h30, le­van­do uma Bíblia de­bai­xo do braço, Stin­ney Jr. ca­mi­nhou pelo cor­re­dor da morte até a ca­dei­ra elé­tri­ca. O pro­ble­ma foi que o equi­pa­men­to havia sido pro­je­ta­do para adul­tos, assim, os guar­das ti­ve­ram di­fi­cul­da­de para prendê-lo à ca­dei­ra e po­si­ci­o­nar os ele­tro­dos de ma­nei­ra ade­qua­da. A Bíblia foi co­lo­ca­da sobre o as­sen­to para ser usada como uma es­pé­cie de ban­que­ta, pois Stin­ney Jr. era muito pe­que­no.

Quando a pri­mei­ra des­car­ga de 2.400 volts foi apli­ca­da, a más­ca­ra que cobria o rosto do con­de­na­do caiu, pois era grande demais para Stin­ney. Detrás da más­ca­ra, seu rosto se con­tor­cia, e lá­gri­mas es­cor­ri­am de seus olhos.

Foram três des­car­gas. O que se viu foram con­tra­ções in­vo­lun­tá­rias, espuma es­cor­ren­do na boca, ne­cro­ses sur­gin­do na pele que aos poucos co­me­ça­va a ferver e sair fumaça. Pa­re­cia que o corpo do jovem George ia ex­plo­dir. Depois de quatro mi­nu­tos exas­pe­ran­tes, George Junius Stin­ney Jr. fi­nal­men­te veio a óbito. E isso foi tudo.

Em tempo:

Se­ten­ta anos depois, em 2014, o pro­ces­so foi re­a­ber­to. Novas provas foram co­le­ta­das e a con­fis­são de Stin­ney Jr. foi con­si­de­ra­da in­vá­li­da, pois ocor­reu sob coação. Ao final, ficou pro­va­do que Stin­ney era ino­cen­te. A con­de­na­ção foi anu­la­da, a jus­ti­ça voltou atrás. Só George que não pode voltar.


A res­pos­ta de­fi­ni­ti­va para a pena de morte

Edu­ar­do Engel de Oli­vei­ra

Em termos de po­lí­ti­ca cri­mi­nal, as so­ci­e­da­des evo­lu­í­ram da vin­gan­ça pri­va­da para a Lei de Talião e, pos­te­ri­or­men­te, para formas mais es­tru­tu­ra­das de jus­ti­ça.

Os sis­te­mas mo­der­nos pas­sa­ram a pri­vi­le­gi­ar outros ob­je­ti­vos além do sim­ples cas­ti­go, fo­ca­dos na re­pa­ra­ção do dano à vítima e na re­con­ci­li­a­ção entre as partes, bem como na pre­ven­ção e res­so­ci­a­li­za­ção, de­fen­den­do que a pena deve servir para re­cu­pe­rar o in­di­ví­duo e rein­se­ri-lo na so­ci­e­da­de, além de de­ses­ti­mu­lar novos crimes.

Para os crimes mais graves, con­tu­do, a equa­ção é outra. Crimes de ex­ter­mí­nio, como cha­ci­nas e mas­sa­cres, ou ho­mi­cí­dios per­pe­tra­dos ale­a­to­ri­a­men­te contra ino­cen­tes, ainda são um de­sa­fio para sis­te­mas legais ba­se­a­dos na evo­lu­ção dos di­rei­tos fun­da­men­tais.

O debate sobre a pena de morte en­vol­ve ques­tões éticas, ju­rí­di­cas e so­ci­ais. Os ar­gu­men­tos fa­vo­rá­veis de­fen­dem ba­si­ca­men­te a ideia de jus­ti­ça severa para crimes he­di­on­dos e a pro­te­ção da so­ci­e­da­de. Ba­sei­am-se na jus­ti­ça re­tri­bu­ti­va, cal­ca­da no clás­si­co “olho por olho, dente por dente” — vol­ta­mos ao Código de Ha­mu­ra­bi.

Para essa cor­ren­te, a pena ga­ran­te que cri­mi­no­sos de ex­tre­ma pe­ri­cu­lo­si­da­de não re­tor­nem mais à so­ci­e­da­de, traz um sen­ti­men­to de jus­ti­ça para as fa­mí­lias das ví­ti­mas e de­ses­ti­mu­la a prá­ti­ca de crimes mais graves, o que, con­tu­do, aplica-se apenas a alguns casos, já que há muitos do tipo per­pe­tra­dos por mo­ti­va­ções po­lí­ti­cas, re­li­gi­o­sas ou ide­o­ló­gi­cas em que os agen­tes sa­cri­fi­cam a pró­pria vida pela causa.

Por outro lado, dentre os ar­gu­men­tos con­trá­rios à apli­ca­ção da pena, des­ta­cam-se o risco ir­re­ver­sí­vel de matar um ino­cen­te e as falhas do sis­te­ma ju­di­ci­al. Além disso, não há com­pro­va­ção es­ta­tís­ti­ca ou ci­en­tí­fi­ca de que ela reduza a cri­mi­na­li­da­de em maior grau do que longas penas de prisão.

Há também vi­o­la­ção a di­rei­tos hu­ma­nos, apli­ca­ção ma­jo­ri­tá­ria da pena a mi­no­ri­as ra­ci­ais, ét­ni­cas e a pes­so­as de baixa renda que não pos­su­em re­cur­sos para con­tra­tar uma defesa ju­rí­di­ca de qua­li­da­de. Por fim, en­vol­ve alto custo fi­nan­cei­ro, pois a ma­nu­ten­ção do ape­na­do em su­ces­si­vos re­cur­sos – mesmo das es­tru­tu­ras que mantêm a exe­cu­ção – torna-a mais dis­pen­di­o­sa ao erário do que a ma­nu­ten­ção do preso no cum­pri­men­to de penas mai­o­res.

De outra parte, não se pode ig­no­rar casos ex­tre­mos de in­ter­na­ção de in­di­ví­duos com di­ag­nós­ti­cos de psi­co­pa­tia grave as­so­ci­a­dos a crimes he­di­on­dos, o que faz com que, mesmo em países sem prisão per­pé­tua, o in­fra­tor sim­ples­men­te não possa voltar ao con­ví­vio social, dado o evi­den­te grau de pe­ri­cu­lo­si­da­de que apre­sen­ta. Não se pode matá-lo, não se pode soltá-lo.

Sendo assim, para a per­gun­ta sobre a apli­ca­ção da pena de morte para in­di­ví­duos que matam ale­a­to­ri­a­men­te ino­cen­tes, seja por mo­ti­va­ções ide­o­ló­gi­cas, po­lí­ti­cas, re­li­gi­o­sas ou sim­ples­men­te por ex­tre­ma vi­o­lên­cia, a res­pos­ta é: claro que sim, con­si­de­ran­do a ideia de jus­ti­ça para crimes he­di­on­dos e pro­te­ção da so­ci­e­da­de, a ga­ran­tia de que os cri­mi­no­sos não re­tor­nem ao con­ví­vio social, o sen­ti­men­to de jus­ti­ça para as fa­mí­lias das ví­ti­mas afe­ta­das, e o temor dis­su­a­só­rio em cri­mi­no­sos, de­ses­ti­mu­lan­do a prá­ti­ca de novos de­li­tos.

Mas também des­con­si­de­ran­do o risco ir­re­ver­sí­vel de exe­cu­tar um ino­cen­te — sob um as­pec­to con­tin­gen­ci­al, a rigor você também não está livre disso —, a falta de com­pro­va­ção es­ta­tís­ti­ca ou ci­en­tí­fi­ca de que a pena reduza a cri­mi­na­li­da­de, vi­o­la­ções de di­rei­tos hu­ma­nos, apli­ca­ção se­le­ti­va e de viés social, e o seu des­pro­por­ci­o­nal custo fi­nan­cei­ro.

Por­tan­to, a res­pos­ta é sim­ples, quase sim­pló­ria. Como todas as res­pos­tas de­fi­ni­ti­vas para ques­tões com­ple­xas.

As opi­ni­ões emi­ti­das por co­lu­nis­tas não ex­pres­sam ne­ces­sa­ri­a­men­te a po­si­ção edi­to­ri­al da Ma­ti­nal.

—Juremir Machado da Silva

Juremir Machado da Silva — Jornalista, escritor e professor de Comunicação Social na PUCRS, publica semanalmente a Newsletter do Juremir, exclusiva para assinantes dos planos Completo e Comunidade. Contato: juremir@matinal.org

Folhetim

A dama da Duque – Capítulo X

O Re­tor­no

Don José, como eu o cha­ma­va agora nas minhas re­fle­xões lem­bran­do do per­so­na­gem da ópera Carmen, re­co­men­dou que sa­ís­se­mos para o ae­ro­por­to cinco horas antes do ho­rá­rio de em­bar­que. Os voos in­ter­na­ci­o­nais exi­gi­am apre­sen­ta­ção com duas horas de an­te­ce­dên­cia e o trân­si­to de São Paulo era ex­tre­ma­men­te lento, ex­pli­cou.

— Vai ter que ir a Cam­pi­nas — falou. — A Varig e a Ae­ro­lí­neas Ar­gen­ti­nas saem de Con­go­nhas, porém já par­ti­ram de manhã; então, você vai pegar um voo em Vi­ra­co­pos. Con­se­gui uma pas­sa­gem na Swis­sair. E, como lhe falei, Pa­trí­cia vai acom­pa­nhá-lo até o ae­ro­por­to. É lá que vão se des­pe­dir.

E me es­ten­deu o li­vre­to ca­rac­te­rís­ti­co das pas­sa­gens aéreas que, mesmo voando apenas até Buenos Aires, tinha umas quatro ou cinco folhas. A pri­mei­ra era es­cri­ta com caneta Bic e as outras eram cópias em car­bo­no ver­me­lho: meu nome real, Pedro N., número do voo, ho­rá­rios e inú­me­ros có­di­gos e de­ta­lhes que só in­te­res­sa­vam à em­pre­sa e que só ela en­ten­dia.

***

Saímos depois de um almoço leve ser­vi­do na mesma mesa em que tí­nha­mos con­ver­sa­do. Eu tinha gos­ta­do do am­bi­en­te da casa de Pa­trí­cia e do amplo jardim, e es­ten­de­ria de bom grado a minha estada por mais um dia ou dois, mas o tempo urgia — para mim e para o dono da casa.

Depois de um café ex­ce­len­te, Don José aper­tou a minha mão. Não chegou a me abra­çar, mas se­gu­rou meu ombro, dando a en­ten­der que me de­se­ja­va o melhor.

— Assim que chegar, avise a Pa­trí­cia por te­le­gra­ma — falou —, e esse será seu último con­ta­to com ela.

Co­lo­ca­mos minha parca ba­ga­gem no porta-malas da Mer­ce­des preta e en­tra­mos no carro. Co­me­ça­mos a nos mo­vi­men­tar com o ca­rac­te­rís­ti­co ba­ru­lho dos pneus ro­dan­do sobre o pe­dre­gu­lho e, antes de cru­zar­mos o portão de ferro, o mo­to­ris­ta de quepe — com um leve sor­ri­so? — fez um mo­vi­men­to dis­cre­to, aper­tan­do um botão no painel. O vidro escuro que se­pa­ra­va o banco de trás subiu si­len­ci­o­sa­men­te, iso­lan­do-nos por com­ple­to do mundo ex­te­ri­or. O rádio soava bai­xi­nho do outro lado, mas ali dentro a calma era ab­so­lu­ta. Pa­trí­cia tinha tro­ca­do o con­jun­to de linho branco que usara de manhã por um ves­ti­do leve, cor de creme, mas o per­fu­me era o mesmo que eu já re­co­nhe­cia como parte da iden­ti­da­de da filha de José.

Sen­ta­dos um perto do outro, com a minha mão no ombro des­co­ber­to dela, o som das rodas no pa­vi­men­to mudou ao pas­sar­mos do as­fal­to quente da Mar­gi­nal Tietê para o início da Via Anhan­gue­ra. Ela me olhou de sos­laio, com um meio sor­ri­so que mis­tu­ra­va ti­mi­dez e au­dá­cia.

— Sabe que eu mesma ainda não en­ten­do como tive a co­ra­gem de fazer o que fiz em Porto Alegre? — disse, a voz suave como seu per­fu­me. — Chegar assim do nada perto de você, sentar na frente de um es­tra­nho, ficar olhan­do fixo feito boba até você me notar... Minhas amigas teriam mor­ri­do de rir se me vissem me de­cla­ran­do da­que­le jeito para um des­co­nhe­ci­do. 

— Devo ter sido a sua pri­mei­ra vítima — brin­quei, ten­tan­do re­la­xar os ombros.

— A única, aliás... até agora — ela cor­ri­giu, fin­gin­do se­ri­e­da­de, mas rindo a seguir. — Gostei do re­sul­ta­do. Acho que são essas coisas que a gente só faz quando está fora de casa, longe da rotina e do pró­prio ha­bi­tat, sabe? Estar fora li­ber­ta as pes­so­as. Em São Paulo, cer­ca­da pela fa­mí­lia, pelas ex­pec­ta­ti­vas e pelas amigas de sempre, eu nunca teria tido essa ou­sa­dia. Mas ali, na­que­le hotel, sem nin­guém que me co­nhe­ces­se ou re­pa­ras­se em mim, decidi que podia ser outra pessoa por uma noite. E ainda bem que me decidi a agir. 

— Ainda bem mesmo — con­cor­dei. — Mas não pense que nin­guém re­pa­ra­va em você. Uma mulher be­lís­si­ma e bem-ves­ti­da como você atraía todos os olha­res. Muitos homens devem ter sen­ti­do inveja de mim.

— Assim como muitas mu­lhe­res devem ter co­bi­ça­do você. Só que hoje de manhã, quando você saiu da cama e me abra­çou, senti que nosso af­fai­re tinha ficado ina­ca­ba­do, como a sin­fo­nia de Schu­bert. Con­fes­so que fiquei te de­se­jan­do desde esse mo­men­to.

— Eu também — tentei falar, porque o co­ra­ção dis­pa­rou com tanta vi­o­lên­cia que as pa­la­vras cus­ta­vam a sair da gar­gan­ta.

A partir desse ins­tan­te, acho que não fomos mais donos de nossos atos; o desejo acu­mu­la­do tomou conta de nós. O pri­mei­ro toque de nossas peles e de nossos lábios fun­ci­o­nou como uma em­bri­a­guez ins­tan­tâ­nea — em­bri­a­guez de amor, acho que é o título de um filme —, de­sar­man­do qual­quer ten­ta­ti­va de lu­ci­dez. (Ina­cre­di­tá­vel as­so­ci­ar um mo­men­to de êxtase ao título de um filme; penso que uma parte de nosso cé­re­bro per­ma­ne­ce como um agente ex­ter­no, um su­pe­re­go con­tro­la­dor, ob­ser­van­do-nos cri­ti­ca­men­te mesmo sob o do­mí­nio da libido).

Foi assim que nos agar­ra­mos com fre­ne­si e nos en­tre­ga­mos a beijos in­ter­mi­ná­veis, pro­fun­dos e ur­gen­tes, que quase nos im­pe­di­am de res­pi­rar en­quan­to o carro ga­nha­va ve­lo­ci­da­de pela au­to­es­tra­da. Os vidros co­ber­tos com pe­lí­cu­la escura nos des­pi­ram de qual­quer pudor. Quando a minha mão des­li­zou por baixo de seu ves­ti­do, todo o resto do mundo de­sa­pa­re­ceu. Con­su­ma­mos aquela paixão febril, acu­mu­la­da du­ran­te poucos dias que apa­ren­ta­vam anos, no couro do banco tra­sei­ro da Mer­ce­des. Pos­su­í­dos pela lu­xú­ria, com­ple­ta­mos as ações que tí­nha­mos co­me­ça­do na sala de te­le­vi­são do hotel Duque. 

Depois, quando a vo­lú­pia se acal­mou e se trans­for­mou pouco a pouco em gestos de ca­ri­nho, fi­ca­mos com a es­pe­ran­ça de que a música que o mo­to­ris­ta es­cu­ta­va ti­ves­se aba­fa­do sus­pi­ros, ge­mi­dos e outros sons as­so­ci­a­dos ao que aca­bá­va­mos de fazer. E tor­ce­mos para que ele não ti­ves­se des­vi­a­do os olhos da es­tra­da, apesar de a di­vi­só­ria escura apa­ren­tar ser im­pe­ne­trá­vel à luz e ao som.

A dis­tân­cia e a len­ti­dão do trân­si­to alon­ga­vam a viagem. Deu tempo para re­la­xar, nos re­com­por e acho que até dor­mi­mos um pouco.

Uma hora depois, vendo que o carro estava se apro­xi­man­do de Cam­pi­nas, Pa­trí­cia ajei­tou o ves­ti­do, ve­ri­fi­cou se eu estava apre­sen­tá­vel e apoiou a cabeça no meu ombro, com a res­pi­ra­ção pau­sa­da e pro­fun­da.

***

No saguão do ae­ro­por­to de Vi­ra­co­pos, saímos do iso­la­men­to do banco tra­sei­ro do carro para mer­gu­lhar numa massa humana agi­ta­da e an­si­o­sa. A at­mos­fe­ra estava im­preg­na­da pelo clima de ex­ce­ção da época: sol­da­dos do Exér­ci­to em­pu­nhan­do me­tra­lha­do­ras vi­gi­a­vam cada canto do ter­mi­nal, e po­li­ci­ais fe­de­rais de rostos fe­cha­dos es­gri­mi­am como armas seus ca­rim­bos, que tinham o poder de de­ci­dir entre sair ou ser detido, entre ser ex­pul­so ou entrar. O medo, que havia ficado aba­fa­do por outras emo­ções dentro do carro, voltou a cir­cu­lar pelas minhas costas. Ca­mi­nha­mos tensos até o balcão.

Ali, no mo­men­to de apre­sen­tar os do­cu­men­tos, pre­ci­sei manter o sangue-frio. A car­tei­ra de re­si­den­te tem­po­rá­rio no Brasil sob o nome falso de Ramiro Her­re­ra Solís já não servia. Por isso, tanto no balcão da Swis­sair quanto na imi­gra­ção da Po­lí­cia Fe­de­ral em Vi­ra­co­pos — e, mais tarde, em Ezeiza —, tive que apre­sen­tar meu pas­sa­por­te ar­gen­ti­no, com meu nome de nas­ci­men­to: Pedro N. Eu era apenas um ci­da­dão ar­gen­ti­no comum re­tor­nan­do ao seu país depois de uma breve per­ma­nên­cia no Brasil.

Antes de passar pela imi­gra­ção, pa­ra­mos para o adeus que ambos sa­bí­a­mos ser o último.

— Venha comigo para Buenos Aires — propus, se­gu­ran­do suas mãos com uma ur­gên­cia que não con­se­guia dis­far­çar. — Deixe tudo isto para trás.

Pa­trí­cia olhou ao redor, fi­tan­do os sol­da­dos ar­ma­dos na en­tra­da da área de em­bar­que, e ba­lan­çou a cabeça com um sor­ri­so triste.

— Não posso, Pedro... — sus­sur­rou, usando fi­nal­men­te meu nome ver­da­dei­ro. — Meu pai pro­cu­ra­ria por nós até no in­fer­no. Ele não vai de­sis­tir de mim. Se eu for, co­lo­ca­rei nós dois em um perigo muito maior do que você já está cor­ren­do.

Fiquei em si­lên­cio, en­go­lin­do o re­a­lis­mo cru de suas pa­la­vras. Tí­nha­mos vivido uma ilusão. Se­can­do uma lá­gri­ma da face, ela tentou sorrir e brin­cou, adap­tan­do a frase famosa do filme Ca­sa­blan­ca:

— Sempre te­re­mos Porto Alegre.

— Teria pre­fe­ri­do que fosse Paris — res­pon­di, com a voz en­tre­cor­ta­da, ten­tan­do conter minhas pró­prias lá­gri­mas e pa­re­cer firme en­quan­to ago­ni­za­va.

Ela me beijou outra vez — um beijo longo, com gosto sal­ga­do de lá­gri­mas e de suor. O ar-con­di­ci­o­na­do do ae­ro­por­to não fora cal­cu­la­do para a mul­ti­dão que o enchia.

Não tí­nha­mos mais pa­la­vras, de modo que fui me apro­xi­man­do com passos in­se­gu­ros dos gui­chês da Po­lí­cia Fe­de­ral, he­si­tan­do entre re­tor­nar para mais um abraço e ten­tan­do apa­ren­tar a tran­qui­li­da­de de quem não matou nin­guém nos úl­ti­mos dias e está apenas vol­tan­do de uma bem-su­ce­di­da viagem de ne­gó­cios.

Mesmo assim, voltei para mais um abraço, e desta vez nós dois cho­ra­mos.

Depois, com passo de­ci­di­do e sem olhar para trás, entrei na fila do con­tro­le de imi­gra­ção (era o que dizia a placa, ainda que eu es­ti­ves­se de fato emi­gran­do). Che­ga­da a minha vez, os po­li­ci­ais olha­ram o do­cu­men­to, olha­ram para o meu rosto, olha­ram de novo o do­cu­men­to, de novo para meu rosto, pe­di­ram para tirar os óculos e, fi­nal­men­te, após uma eter­ni­da­de de se­gun­dos, ca­rim­ba­ram uma página ale­a­tó­ria sem le­van­tar as so­bran­ce­lhas.

***

Dentro do avião, um Dou­glas DC-8 com as cores ver­me­lha e branca da Swis­sair, o astral era outro. Um co­mis­sá­rio de bordo me in­di­cou a pri­mei­ra classe. Ex­pli­cou bai­xi­nho que fora um up­gra­de pelo fato de o trecho até Buenos Aires estar com pouca ocu­pa­ção, mas eu sus­pei­ta­va que era um agrado da mão in­vi­sí­vel de Don José.

Sen­ta­do nas pol­tro­nas largas de couro, meu es­tra­nha­men­to foi pro­fun­do. Não era apenas pelo luxo iné­di­to, pelos ta­lhe­res de metal ou pelo cham­pa­nhe ofe­re­ci­do antes de de­co­lar por uma ae­ro­mo­ça loira que falava es­pa­nhol per­fei­ta­men­te. Era um dis­tan­ci­a­men­to exis­ten­ci­al, quase me­ta­fí­si­co. Eu vinha de um sub­mun­do de sus­pei­tas, porões, crimes, mo­nu­men­tos po­si­ti­vis­tas, calor es­ta­fan­te, ônibus com cheiro de mijo, pis­to­las com e sem balas, sexo com uma gar­ço­ne­te que apenas co­nhe­cia e con­ta­to direto com sangue e morte. Porém, ao subir aque­les de­graus até a cabine da pri­mei­ra classe, me via de re­pen­te em uma at­mos­fe­ra de nor­ma­li­da­de ab­so­lu­ta. Uma vida limpa e bem ilu­mi­na­da que corria sem medos, sem sur­pre­sas, onde as pes­so­as vi­a­ja­vam fe­li­zes, le­va­vam cri­an­ças e sa­co­las cheias de pre­sen­tes e sor­ri­am como se o mundo lá fora não es­ti­ves­se em guerra. Sentia-me um in­tru­so, um fan­tas­ma as­sus­ta­dor in­va­din­do os sonhos bem-aven­tu­ra­dos de outra pessoa. Apenas o amor de Pa­trí­cia me re­di­mia, mas não me tor­na­va um se­me­lhan­te dos outros pas­sa­gei­ros.

Em todo caso, assim que as rodas do DC-8 se se­pa­ra­ram do solo bra­si­lei­ro, emiti um pro­fun­do sus­pi­ro e me de­di­quei a des­fru­tar dessas de­lí­cias “bur­gue­sas”, como diriam meus amigos de es­quer­da: cham­pa­nhe, janta com vinho fran­cês, queijo e cho­co­la­te suíço, co­nha­que, café e fi­nal­men­te es­ti­car as pernas sobre um des­can­so que emer­gia da pol­tro­na, e fumar um ci­gar­ro, o que era per­mi­ti­do na época. Dormi o res­tan­te do voo, que foi curto demais para minha ne­ces­si­da­de de apagar even­tos re­cen­tes. 

Não tinha acor­da­do com­ple­ta­men­te e já es­tá­va­mos des­cen­do no ae­ro­por­to de Ezeiza, que nos re­ce­beu com o seu cos­tu­mei­ro vento frio das noites de ja­nei­ro e com aquela mis­tu­ra de cheiro de que­ro­se­ne e pampa úmida que nenhum outro lugar do mundo tem. Passar pela imi­gra­ção e pela al­fân­de­ga foi mera for­ma­li­da­de, apesar da oni­pre­sen­te e in­ti­mi­dan­te vi­gi­lân­cia dos sol­da­dos ar­ma­dos com fuzis au­to­má­ti­cos. Depois, tro­quei os cru­zei­ros por pesos na su­cur­sal do Banco Nación e, apro­vei­tan­do que a he­ran­ça do tra­du­tor tinha sido mais subs­tan­ci­al do que eu es­pe­ra­va e que eu não pen­sa­va en­tre­gá-la para a “causa”, decidi pegar um remis da eterna con­ces­si­o­ná­ria do trans­por­te de Ezeiza ao centro: a em­pre­sa de ônibus e remis de Manuel Tienda León. A poucos qui­lô­me­tros da saída do ae­ro­por­to, um forte posto de con­tro­le de po­li­ci­ais e mi­li­ta­res com bra­ça­dei­ras lu­mi­no­sas ins­pe­ci­o­na­va cada ve­í­cu­lo e cada pas­sa­gei­ro. Apre­sen­tei meu pas­sa­por­te real de Pedro N. e minha cre­den­ci­al do mi­nis­té­rio. Para eles, eu era tão so­men­te um bu­ro­cra­ta re­tor­nan­do e pude con­ti­nu­ar a viagem tran­qui­la­men­te. Fi­nal­men­te estava em casa.

As ruas de Buenos Aires es­ta­vam quase de­ser­tas; apenas de tempos em tempos cru­zá­va­mos com al­gu­mas tropas, jipes mi­li­ta­res e sol­da­dos que pa­tru­lha­vam al­gu­mas das es­qui­nas mais “es­tra­té­gi­cas” da ca­pi­tal sob a luz es­ver­de­a­da dos postes de ilu­mi­na­ção.

Quando fi­nal­men­te entrei no meu apar­ta­men­to em Al­ma­gro, senti que podia re­la­xar. Tran­quei a porta com três voltas de chave. O cheiro de casa fe­cha­da, a visão dos meus livros e dos meus móveis e de uma gar­ra­fa de vinho pela metade me trou­xe­ram uma paz ines­pe­ra­da. Senti-me como um hobbit re­tor­nan­do ao seu re­fú­gio seguro. Eu estava tem­po­ra­ri­a­men­te a salvo.

Fiz um café e acres­cen­tei à in­fu­são um pouco de um co­nha­que de boa qua­li­da­de – a ae­ro­mo­ça da Swis­sair tinha me pre­sen­te­a­do com um con­jun­to de gar­ra­fi­nhas em mi­ni­a­tu­ra. Liguei a te­le­vi­são: uma se­nho­ra loira, ro­de­a­da de ob­je­tos eso­té­ri­cos, falava das gran­des van­ta­gens de ter nas­ci­do sob o signo de Aquá­rio. Pro­gra­ma­ção típica das duas da manhã.

Dormi no sofá, sem des­li­gar a te­le­vi­são e sem abrir a mala.

***

Na manhã se­guin­te, a cam­pai­nha me acor­dou mais cedo do que eu de­se­ja­ria. Era a en­tre­ga de um te­le­gra­ma e alguém tinha que as­si­nar o re­ce­bi­men­to. O prédio tinha um por­tei­ro, mas os seus ho­rá­rios eram de­fi­ni­dos de acordo com as suas pró­prias con­ve­niên­cias. Desci até a en­tra­da do edi­fí­cio; por sorte, tinha dor­mi­do ves­ti­do e isso ace­le­rou o trâ­mi­te. O te­le­gra­ma era de Pa­trí­cia: “Espero que tenha che­ga­do bem. Se cuida. Te amo”. Teria que passar numa agên­cia dos cor­rei­os para te­le­gra­far a res­pos­ta.

En­tran­do de volta no apar­ta­men­to, notei um pedaço de papel perto da porta. Alguém tinha des­li­za­do uma men­sa­gem du­ran­te a noite, ou de manhã cedo, visto que já eram dez horas. Tra­ta­va-se de meia folha ar­ran­ca­da de um ca­der­no e o texto era quase tão con­ci­so quanto o do te­le­gra­ma, mas sem um “te amo” como des­pe­di­da. Tinham es­cri­to em es­pa­nhol: “Pa­ra­béns com­pa­nhei­ro! Nos vemos no El Lon­dres às cinco em ponto da tarde”.

Às cinco horas de uma tarde ca­lo­ren­ta, eu estava sen­ta­do em uma mesa do bar Lon­dres, na Ave­ni­da de Mayo, não muito longe da Casa Rosada ocu­pa­da pelos mi­li­ta­res, nem do mi­nis­té­rio onde eu tra­ba­lha­va. No ca­mi­nho, tinha pas­sa­do pelo enorme prédio dos cor­rei­os para enviar um te­le­gra­ma a Pa­trí­cia. Sem um “te amo” no final, porque podia ser lido por Don José.

Pedi um café e, antes que ele che­gas­se, apa­re­ceu um homem ves­tin­do uma capa de chuva com­pri­da, apesar do calor e do fato de não estar cho­ven­do, e sentou-se à minha frente. Pediu também um café. Era o con­ta­to do grupo de es­quer­da que, agora eu sabia, me en­vi­a­ra a Porto Alegre. 

— Pa­ra­béns, com­pa­nhei­ro — ele disse, num sus­sur­ro quase inau­dí­vel, man­ten­do os olhos na rua atra­vés da vi­dra­ça e as mãos nos bolsos do im­per­me­á­vel. — Você eli­mi­nou um es­bir­ro da re­pres­são e, se bem que não con­se­guiu salvar o uru­guaio, des­truiu os do­cu­men­tos mais com­pro­me­te­do­res. A missão foi cum­pri­da com ma­es­tria.

Não quis es­cla­re­cê-lo sobre quem era o es­bir­ro e quem o herói até porque não estava seguro de qual era a his­tó­ria ver­da­dei­ra. Decidi usar uma pe­que­na ironia como res­pos­ta:

— Teria des­tru­í­do todos os do­cu­men­tos — falei —, se os vasos sa­ni­tá­rios bra­si­lei­ros não en­tu­pis­sem tão fa­cil­men­te.

Mal ele ouviu meu co­men­tá­rio irô­ni­co sobre as pri­va­das. O homem le­van­tou-se tão ra­pi­da­men­te quanto havia che­ga­do, e nem es­pe­rou o seu café vir. Me deixou so­zi­nho com dois cafés para beber e para pagar. E pensei cá com meus botões que talvez eles achas­sem que tudo tinha sido um ato pla­ne­ja­do de he­ro­ís­mo re­vo­lu­ci­o­ná­rio, quando eu só havia ten­ta­do salvar a minha pró­pria pele, e tinha fugido com a ajuda de um grande bur­guês aliado dos mi­li­ta­res.

***

Voltei ao tra­ba­lho na se­gun­da-feira se­guin­te. Ca­rim­bei do­cu­men­tos, ar­qui­vei me­mo­ran­dos, e nin­guém no es­cri­tó­rio notou que o Pedro N. que havia par­ti­do era um homem di­fe­ren­te do que havia vol­ta­do. Con­ti­nu­a­va ena­mo­ra­do.

Es­cre­vi para Pa­trí­cia al­gu­mas vezes, en­vi­an­do as cartas para o en­de­re­ço de uma de suas amigas que tinha vi­a­ja­do com ela a Porto Alegre.

Porto Alegre.

A cidade ficara gra­va­da na me­mó­ria, com seus mo­nu­men­tos po­si­ti­vis­tas, suas praças, seus hotéis lu­xuo­sos, suas tor­ra­das sem torrar, seus frutos exó­ti­cos, sua des­con­fi­an­ça dis­far­ça­da de cor­di­a­li­da­de, seus en­gra­xa­tes pre­ci­o­sis­tas, seu ab­sur­do cas­te­li­nho e suas gar­ço­ne­tes se­du­to­ras. Por falar em gar­ço­ne­tes, perdi o con­ta­to com Marisa; fui des­cui­da­do com ela, não dei im­por­tân­cia para a moça, pro­va­vel­men­te a única pessoa ino­cen­te em toda esta his­tó­ria, nem pedi seu en­de­re­ço, nem sei se ela ficou segura em Porto Alegre. Também não pensei em pedir in­for­ma­ções sobre ela para Don José, talvez te­me­ro­so de que isso pu­des­se min­guar o amor da filha por mim ou as sim­pa­ti­as dele pelo pos­sí­vel na­mo­ra­do. E por falar em amores, Pa­trí­cia res­pon­deu com longas cartas no início, que eu também re­ce­bia em um en­de­re­ço falso, mas as men­sa­gens foram ra­re­an­do.

Por fim, no início de um in­ver­no frio, quiçá cinco ou seis meses depois do meu re­tor­no, e quando estava co­me­çan­do a perder o medo de ser as­sas­si­na­do por algum com­par­sa do Sandro, chegou a última carta. Ela me co­mu­ni­ca­va que estava pres­tes a se casar com um jovem en­ge­nhei­ro de uma tra­di­ci­o­nal fa­mí­lia pau­lis­ta­na. O cu­ri­o­so é que não se des­cul­pa­va nem la­men­ta­va que nosso amor, se exis­tiu, ter­mi­nas­se assim, mas ex­pli­ca­va que, por razões que eu de­ve­ria en­ten­der, não podia me con­vi­dar para o ca­sa­men­to.

Ao ler aque­las linhas, re­pas­san­do as datas e a lem­bran­ça da­que­la cópula febril no banco tra­sei­ro da Mer­ce­des em plena Via Anhan­gue­ra — onde tí­nha­mos nos en­tre­ga­do ao prazer sem qual­quer tipo de pro­te­ção —, uma sus­pei­ta se ins­ta­lou na minha mente. Don José, com sua rede in­fi­ni­ta de con­ta­tos e sua ob­ses­são por apa­rên­cias, cer­ta­men­te havia ar­ru­ma­do um bom marido para a filha, e um pai ofi­ci­al para o neto ou neta que Pa­trí­cia car­re­ga­va no ventre e que, pos­si­vel­men­te, era meu filho. Nunca tive como con­fir­mar. E a co­mu­ni­ca­ção ter­mi­nou para sempre.

EPÍ­LO­GO

Os anos se pas­sa­ram e, sur­preen­den­te­men­te, eu con­ti­nu­ei vivo. So­bre­vi­vi aos piores anos do terror de Estado na Ar­gen­ti­na, ca­mu­fla­do na minha me­di­o­cri­da­de de fun­ci­o­ná­rio pú­bli­co, man­ten­do a cabeça baixa e os se­gre­dos tran­ca­dos no peito.

A junta mi­li­tar, pre­si­di­da por um ge­ne­ral al­co­ó­la­tra, de­cla­rou guerra à Grã-Bre­ta­nha, e o clima na­ci­o­nal foi tomado por um na­ci­o­na­lis­mo his­té­ri­co. Como fun­ci­o­ná­rio civil do Mi­nis­té­rio, recebi a con­vo­ca­ção ofi­ci­al na semana pas­sa­da: fui de­sig­na­do para pres­tar ser­vi­ços bu­ro­crá­ti­cos e lo­gís­ti­cos em Puerto Rivera, ou Puerto So­le­dad, ou Puerto Ar­gen­ti­no - foram muitos nomes para a ca­pi­tal das ilhas - as­ses­so­ran­do o recém-no­me­a­do go­ver­na­dor.

Vou para o front.

Pela se­gun­da vez na vida, co­lo­ca­ram uma arma na minha mão. Não sei se re­tor­na­rei com vida. Não sei se serei vítima do fogo inglês ou do fogo amigo. Por isso, na vés­pe­ra do meu em­bar­que, pro­cu­rei Ri­car­do, um velho amigo e ad­vo­ga­do. En­tre­guei-lhe este relato, junto com a cópia em car­bo­no da­que­la pas­sa­gem da Swis­sair, as notas do hotel Duque e do hotel Plaza, as cartas de Pa­trí­cia e a velha iden­ti­da­de bra­si­lei­ra de Ramiro Her­re­ra Solís, tudo guar­da­do em um en­ve­lo­pe selado.

Deixei uma única ins­tru­ção es­cri­ta à mão na capa: Abra-o so­men­te em caso da minha morte.

FIM

As opi­ni­ões emi­ti­das pelo autor não ex­pres­sam ne­ces­sa­ri­a­men­te a po­si­ção edi­to­ri­al da Ma­ti­nal.

—José Roberto Iglesias

José Roberto Iglesias — Nascido na Argentina, é professor emérito da UFRGS, com atuação nos departamentos de Física e Economia.

Feira do Livro de Porto Alegre

Palestina Revelada

Ca­pí­tu­lo Um

As chaves que car­re­ga­mos

Es­ta­mos em 1977. Minha ir­mã­zi­nha Aida, com menos de um ano de idade, chora nos braços da minha mãe en­quan­to somos re­preen­di­das por sol­da­dos is­ra­e­len­ses, que nos or­de­nam que sa­í­a­mos do ônibus quente e lotado que nos levava pela ponte Al­lenby, na fron­tei­ra, que liga a Jor­dâ­nia à Pa­les­ti­na ocu­pa­da.

Todos nós, pa­les­ti­nos, saímos e ca­mi­nha­mos até uma gua­ri­ta. Es­ta­mos acos­tu­ma­dos com esse pro­ces­so. É sempre assim quando vol­ta­mos à terra natal ocu­pa­da, onde as fa­mí­lias da minha mãe e do meu pai vi­ve­ram por ge­ra­ções e ge­ra­ções. A gua­ri­ta fica entre nós e um con­jun­to de gran­des edi­fí­cios, onde se­re­mos obri­ga­das a es­pe­rar por horas, ou até mesmo o dia in­tei­ro, sub­me­ti­das a che­ca­gens.

Logo no ônibus, um sol­da­do das Forças de Defesa de Israel (FDI, também co­nhe­ci­da pela sigla em inglês – IDF) abre a bolsa de bebê que minha mãe car­re­ga, pega a fór­mu­la in­fan­til, as ma­ma­dei­ras e todas as fral­das de Aida, jo­gan­do-as em uma grande li­xei­ra, jun­tan­do-as a uma série de outros itens pes­so­ais re­ti­ra­dos das pes­so­as que de­sem­bar­ca­ram antes de nós.

Ao ver as fral­das e a comida da bebê irem para o lixo, minha mãe fica es­tres­sa­da. Ela im­plo­ra aos sol­da­dos, sa­ben­do que po­de­rí­a­mos ficar na fila por mais oito horas à espera de uma au­to­ri­za­ção para vi­a­jar­mos – de Amã a Je­ru­sa­lém e depois a Belém – o que de­ve­ria levar menos de duas horas de carro. Os sol­da­dos riem. Um deles zomba da minha mãe. Sinto-a en­ri­je­cer, vejo suas bo­che­chas co­ra­rem, sinto-a re­pri­mir uma res­pos­ta, en­quan­to lida com a dor da hu­mi­lha­ção. De­tes­to vê-la assim, sendo des­res­pei­ta­da dessa ma­nei­ra.

Mas não temos es­co­lha. A ponte Al­lenby con­ti­nua sendo, até hoje, a única pas­sa­gem ofi­ci­al entre a Cis­jor­dâ­nia e a Jor­dâ­nia, onde vivem mi­lhões de pa­les­ti­nos – pa­les­ti­nos como minha fa­mí­lia, que foram ex­pul­sos à força du­ran­te e desde a Nakba (do árabe, ca­tás­tro­fe) de 1948; e é o único ponto de saída/en­tra­da de­sig­na­do para os pa­les­ti­nos da Cis­jor­dâ­nia.

O resto do dia é uma névoa na minha me­mó­ria. Eu era ado­les­cen­te. Lembro-me do calor, do edi­fí­cio eco­an­te cheio de vi­a­jan­tes e sol­da­dos, das filas in­ter­mi­ná­veis para passar de um tipo de vis­to­ria para outra. Mas as re­vis­tas ín­ti­mas fi­ca­ram na minha me­mó­ria; a hu­mi­lha­ção de me despir, fi­can­do apenas com a roupa íntima, sob o olhar dos sol­da­dos is­ra­e­len­ses que gostam de ver as pes­so­as a se con­tor­cer, que as passam por má­qui­nas e re­vis­tas com va­ri­nhas e depois ainda apal­pam cada parte do corpo com mãos ás­pe­ras. O mesmo acon­te­ce com os gritos, di­ri­gi­dos a qual­quer pessoa que ouse sentir-se con­fu­sa, fazer uma per­gun­ta ou olhar nos olhos deles. Os sol­da­dos cha­ma­vam mu­lhe­res como a minha mãe de shar­mou­ta (pros­ti­tu­ta) ou homens da idade do meu pai de hmar (burro). Tudo isso, é claro, ainda vis­ce­ral, como a emoção que surgiu em mim na­que­le mo­men­to.

Esse cons­tan­te des­res­pei­to, essa ins­ti­la­ção de­li­be­ra­da de medo por parte dos sol­da­dos is­ra­e­len­ses, cons­ti­tui o que sig­ni­fi­ca ser pa­les­ti­no há várias ge­ra­ções: a hu­mi­lha­ção sis­te­má­ti­ca e ri­tu­a­li­za­da é o preço a pagar por querer vi­si­tar nossa fa­mí­lia em nossa pró­pria terra natal rou­ba­da e ocu­pa­da. O sis­te­ma tem um ob­je­ti­vo: tornar cada visita o mais trau­má­ti­ca pos­sí­vel para que menos pes­so­as voltem no ano se­guin­te.

Dez anos antes, em 1967, com apenas cinco anos de idade, apren­di outra coisa sobre ser pa­les­ti­no. Aco­lhi­do no peito da minha mãe, em um porão úmido em Amã, na Jor­dâ­nia, ouço, acima de nós, os jatos is­ra­e­len­ses ru­gin­do como tro­vões. Tro­vões que duram muito tempo, sa­cu­din­do ja­ne­las, dentes, ossos, sa­ni­da­de. Minha mãe segura a mim e à minha irmã mais nova, que na época tinha três anos de idade. Tento ser co­ra­jo­sa, por ambas. Mas, para ser sin­ce­ra, estou apa­vo­ra­da. Ouvi nossos vi­zi­nhos, lá em­bai­xo co­nos­co, con­ver­san­do em voz baixa sobre como as cal­dei­ras ao nosso redor po­de­ri­am ex­plo­dir com um único tiro. Ob­ser­vo os gran­des con­têi­ne­res me­tá­li­cos de gás, es­pe­ran­do que ex­plo­dam.

No en­tan­to, mesmo na­que­le porão, cer­ca­dos pelas má­qui­nas de uma guerra des­ti­na­da a nos ex­ter­mi­nar, algo in­que­bran­tá­vel per­sis­tia. O aroma do chá de car­da­mo­mo que minha mãe estava pre­pa­ran­do quando as si­re­nes de ataque aéreo co­me­ça­ram a soar. O per­fu­me dela, que per­ma­ne­cia em sua cla­ví­cu­la. O toque tran­qui­li­zan­te da mão do meu pai em meu ombro. A suave canção de ninar em árabe que ela can­ta­ro­la­va para nos dar algo para ouvir, sob o ba­ru­lho dos caças.

Apren­di uma ver­da­de, talvez in­cons­ci­en­te­men­te, mas senti no meu íntimo: não im­por­ta quem tente nos ex­ter­mi­nar, a cul­tu­ra pa­les­ti­na per­meia, so­bre­vi­ve e até pros­pe­ra em nossas fa­mí­lias, nossas his­tó­rias, nossas me­mó­rias, nossas can­ções, nossos co­ra­ções. Aque­las noites amon­to­a­dos no porão foram du­ran­te a guerra de 1967, que viu Israel lançar um ataque de­vas­ta­dor e ex­pan­si­o­nis­ta contra os países vi­zi­nhos e ocupar o resto da Pa­les­ti­na, bem como as Co­li­nas de Golã, na Síria, e o Sinai, no Egito. Mas os cinco dias na­que­le porão não são onde nossa his­tó­ria começa. Ela teve início na virada do século, mas, por en­quan­to, vamos voltar a 1948, quando, para minha mãe e tantos outros, essa his­tó­ria em par­ti­cu­lar co­me­çou.

“Tí­nha­mos uma linda casa em Je­ru­sa­lém Oci­den­tal, ha­bib­ti”, minha mãe, Nawal, co­me­ça­va a contar. Sin­ce­ra­men­te, es­tá­va­mos todos um pouco can­sa­dos de ouvir a mesma his­tó­ria, mas ten­tá­va­mos ouvir com pa­ciên­cia mesmo assim. Pa­re­cia algo que ela pre­ci­sa­va contar. “Mo­rá­va­mos todos lá – eu, meus irmãos, nossos pais. E tí­nha­mos um prédio em Haifa, no Monte Car­me­lo”.

Nawal Shukri Halaby nasceu em Haifa e suas his­tó­rias sobre como foi cres­cer na Pa­les­ti­na, em sua casa em Je­ru­sa­lém, che­ga­ram até nós por uma voz que ex­pres­sa­va tris­te­za e raiva, mas também re­sis­tên­cia e de­ter­mi­na­ção – como se ela sen­tis­se que, se eles podiam roubar nossas casas, pelo menos nunca po­de­ri­am nos roubar nossa es­sên­cia. Os pa­les­ti­nos ainda car­re­gam as chaves de suas casas rou­ba­das. Chaves pas­sa­das de ge­ra­ção em ge­ra­ção, de latão e ferro des­gas­ta­das, que eram tudo o que nos res­ta­va das casas que nos foram rou­ba­das, das quais sen-tíamos sau­da­de e pelas quais an­si­á­va­mos. Mas os meus avós não guar­da­vam as chaves apenas como sím­bo­los e lem­bran­ças, guar­da­vam-nas como prova, tan­gí­vel, de que as casas de suas fa­mí­lias ainda cheias de móveis lhes per­ten­ci­am. Prova de que o slogan si­o­nis­ta de que a Pa­les­ti­na era “uma terra sem povo” não pas­sa­va de pro­pa­gan­da, uma men­ti­ra con­ve­ni­en­te para dis­far­çar o roubo de suas casas.

Minha mãe tinha apenas dez anos em 1948, quando entre 750 mil e um milhão de pa­les­ti­nos foram ví­ti­mas de lim­pe­za étnica, ex­pul­sos por grupos ter­ro­ris­tas si­o­nis­tas e for­ça­dos a viver como re­fu­gi­a­dos da noite para o dia, de­ses­pe­ra­dos para es­ca­par dos mas­sa­cres e as­sas­si­na­tos sis­te­má­ti­cos de pa­les­ti­nos que acon­te­ci­am em sua terra natal. Como a mai­o­ria dos pa­les­ti­nos, meus avós nem sequer em­pa­co­ta­ram seus per­ten­ces pes­so­ais, pen­san­do, ra­zo­a­vel­men­te, que a vi­o­lên­cia iria di­mi­nuir; que eles vol­ta­ri­am para casa em poucos dias, ou se­ma­nas, no máximo. Eles nunca foram au­to­ri­za­dos a voltar. Minha mãe acabou indo para um in­ter­na­to no Líbano. Ela se formou aos de­zes­seis anos e foi para a Uni­ver­si­da­de Ame­ri­ca­na de Bei­ru­te es­tu­dar psi­co­lo­gia, gra­du­an­do-se com honras. Ela re­ce­beu uma bolsa Rhodes para fazer pós-gra­du­a­ção na Uni­ver­si­da­de Brown, mas de­ci­diu se casar com meu pai. Minha mãe também era uma ar­tis­ta ta­len­to­sa, uma das poucas mu­lhe­res na Jor­dâ­nia que es­tu­dou com a re­no­ma­da ar­tis­ta Prin­ce­sa Fah­rel­nis­sa Zeid. Ela expôs suas obras, mas sempre as pre­sen­te­a­va, res­pei­tan­do o desejo de meu pai de que ela não ven­des­se suas pin­tu­ras.

Meu pai estava em um in­ter­na­to em Je­ru­sa­lém na época da Nakba. Com cerca de onze anos, ele também foi for­ça­do a sair e con­ti­nu­ar os es­tu­dos em Bei­ru­te, uma cidade com­ple­ta­men­te nova para ele, antes de poder re­tor­nar, alguns anos depois. Após o ensino médio, ele se formou em Eco­no­mia pela London School of Eco­no­mics.

Meus pais fa­la­vam e es­tu­da­vam três idi­o­mas flu­en­te­men­te. Meu pai con­ti­nuou com os ne­gó­cios da fa­mí­lia e atuou como cônsul ho­no­rá­rio da Ja­mai­ca. Se a Ja­mai­ca parece ale­a­tó­ria, vou ex­pli­car que uma de suas irmãs, Aida Kattan, casou-se com Johnny Issa, um pa­les­ti­no de Belém da Ja­mai­ca. A di­ás­po­ra em curso es­pa­lhou nossa fa­mí­lia por toda parte: minha tia, Laila Kattan Sousa, a irmã mais velha do meu pai, mudou-se para Paris; seu irmão, Tony, para a Suíça; e sua irmã mais nova, Zein, para Por­tu­gal.

Foi pre­ci­so es­for­ço, tempo e per­se­ve­ran­ça para voltar à Pa­les­ti­na en­quan­to cres­cia, mas guardo com ca­ri­nho as lem­bran­ças dessas vi­si­tas a Belém, pas­san­do tempo com pa­ren­tes que viviam fir­me­men­te sob ocu­pa­ção. Lembro-me do fres­cor das pedras da casa da nossa fa­mí­lia an­ces­tral, ro­de­a­da por oli­vei­ras an­ti­gas e re­tor­ci­das, car­re­ga­das de frutos e de um forno tabun no jardim, no qual se assava pão fresco todos os dias. Tí­nha­mos re­fei­ções fa­mi­li­a­res de­li­ci­o­sas e abun­dan­tes que du­ra­vam horas, com con­ver­sas que en­tre­la­ça­vam o pas­sa­do e o pre­sen­te. Nossas tias pas­sa­vam longos dias pre­pa­ran­do com­po­tas fres­cas com frutas pa­les­ti­nas da es­ta­ção – em es­pe­ci­al a in­cri­vel­men­te per­fu­ma­da mishmish mistkawi, um tipo es­pe­cí­fi­co de da­mas­co pa­les­ti­no de tem­po­ra­da muito curta, mas que tem um sabor divino, seja fresco ou con­cen­tra­do em con­ser­vas doces.

A David Ben-Gurion (nas­ci­do David Grün, na Po­lô­nia), pri­mei­ro a ocupar o cargo de pri­mei­ro-mi­nis­tro de Israel é atri­bu­í­da a afir­ma­ção de que os idosos na Pa­les­ti­na mor­re­ri­am e os jovens se es­que­ce­ri­am. Se­ten­ta e sete anos após a Nakba de 1948, acho que é seguro dizer que ele estava errado. Os pa­les­ti­nos se lem­bram de tudo. A pri­mei­ra ge­ra­ção de so­bre­vi­ven­tes da Nakba lembra-se do per­fu­me de jasmim que subia pelas pa­re­des de seus ca­sa­rões em Je­ru­sa­lém, do padrão es­pe­cí­fi­co dos azu­le­jos de suas co­zi­nhas e do cheiro dessas co­zi­nhas à noite, quando o jantar era pre­pa­ra­do. Eles lem­bram-se dos nomes de seus vi­zi­nhos pa­les­ti­nos – cris­tãos, mu­çul­ma­nos e judeus que vi­ve­ram lado a lado por ge­ra­ções.

A me­mó­ria tem alguma im­por­tân­cia? É real? É uma prova? Para todo um povo que foi morto ou ex­pul­so e for­ça­do a partir sem seus per­ten­ces, fo­to­gra­fi­as, roupas – sim, a me­mó­ria é a única coisa real. Nós, pa­les­ti­nos, apren­de­mos que nossos bens e nossas casas podem ser rou­ba­dos. Mas nossas me­mó­rias não.

As con­se­quên­cias do dia 7 de ou­tu­bro de 2023 trou­xe­ram uma re­ve­la­ção que des­truiu tudo o que eu pen­sa­va saber sobre a com­preen­são do mundo em re­la­ção à Pa­les­ti­na. Na grande mídia, era como se a his­tó­ria ti­ves­se co­me­ça­do na­que­le dia, sem qual­quer re­fe­rên­cia ao cerco cruel – e ilegal – de Gaza, que havia co­me­ça­do dé­ca­das antes. Com o passar do tempo, en­quan­to as­sis­tia a um ge­no­cí­dio trans­mi­ti­do ao vivo, ig­no­ra­do pelos go­ver­nos oci­den­tais e pela mídia tra­di­ci­o­nal, ou acom­pa­nha­do de nar­ra­ti­vas dis­tor­ci­das para su­ge­rir que matar mi­lha­res de civis era de alguma forma acei­tá­vel, per­ce­bi algo que me mudou para sempre: muitas pes­so­as no Oci­den­te não sabiam pra­ti­ca­men­te nada sobre os pa­les­ti­nos – nem sobre nossa his­tó­ria, nossa cul­tu­ra, nem mesmo re­co­nhe­ci­am nossa hu­ma­ni­da­de básica.

“É com­pli­ca­do” era uma frase que eu ouvia com fre­quên­cia. As pes­so­as acha­vam que o con­fli­to era antigo, com­ple­xo e quase im­pos­sí­vel de com­preen­der.

De certa forma, essa é uma con­clu­são com­preen­sí­vel. Todos têm as­sis­ti­do a va­ri­a­ções desse “con­fli­to” há tantos anos que ele re­al­men­te parece avas­sa­la­dor e, sim, com­ple­xo. Mas, en­quan­to eu estava em Lon­dres nos meses após o 7 de ou­tu­bro de 2023, vendo fa­mí­lias pa­les­ti­nas serem ex­ter­mi­na­das en­quan­to go­ver­nos oci­den­tais for­ne­ci­am in­te­li­gên­cia e armas ao go­ver­no de Israel, co­me­cei a en­ten­der que essa cha­ma­da com­ple­xi­da­de não era aci­den­tal; ela era fa­bri­ca­da. Cui­da­do­sa­men­te cons­tru­í­da para criar uma pro­fun­da ig­no­rân­cia que per­mi­tis­se a con­ti­nu­a­ção da lim­pe­za étnica dos pa­les­ti­nos e que agora cul­mi­na­va em um ver­da­dei­ro ge­no­cí­dio.

Não é pos­sí­vel ig­no­rar um ge­no­cí­dio – e, uma vez que você o vê, com­preen­de que tudo o que lhe foi dito sobre a Pa­les­ti­na ser “com­pli­ca­da” foi feito para ocul­tar uma ver­da­de sim­ples: esta é uma his­tó­ria de povos in­dí­ge­nas sendo sis­te­ma­ti­ca­men­te eli­mi­na­dos por co­lo­ni­za­do­res. De re­pen­te, o porão em Amã fez sen­ti­do. No fim das contas, não es­tá­va­mos nos es­con­den­do de uma única guerra – es­tá­va­mos nos es­con­den­do de uma cam­pa­nha de eli­mi­na­ção que nunca re­al­men­te parou.

A his­tó­ria da minha fa­mí­lia é apenas um fio numa ta­pe­ça­ria que re­mon­ta a mi­lê­nios. Eu queria com­par­ti­lhar minha pers­pec­ti­va, tanto atra­vés do pod­cast The En­ligh­ten­ment, que co­me­cei para dis­cu­tir pontos de vista e ideias sobre a Pa­les­ti­na que são ig­no­ra­dos pela mídia tra­di­ci­o­nal, quanto agora atra­vés deste livro. Porque, uma vez que você en­ten­de quem os pa­les­ti­nos re­al­men­te são, e sempre foram, todas as men­ti­ras que lhe foram con­ta­das des­mo­ro­nam.

Não sou his­to­ri­a­do­ra, po­lí­ti­ca ou aca­dê­mi­ca. Mesmo assim, gos­ta­ria de pensar que este livro conta uma his­tó­ria muito ne­gli­gen­ci­a­da, que abran­ge alguns even­tos po­lí­ti­cos e his­tó­ri­cos sur­preen­den­tes e de tirar o fôlego. Mas, neste ca­pí­tu­lo, estou com­par­ti­lhan­do as his­tó­rias e a he­ran­ça da minha fa­mí­lia, não para mos­trar nossas con­quis­tas (embora sejam muitas e eu tenha or­gu­lho delas), mas como um pri­mei­ro passo para con­vi­dar você a re­con­si­de­rar tudo o que lhe foi dito sobre a Pa­les­ti­na.

Venha comigo até a casa do meu avô, em Amã, na década de 1960; um belo ca­sa­rão de pedra si­tu­a­do no Ter­cei­ro Cír­cu­lo, hoje um pa­tri­mô­nio his­tó­ri­co, com amplos jar­dins que re­ce­bi­am reu­ni­ões se­ma­nais. O aroma do café árabe sempre sendo pre­pa­ra­do. O som de con­ver­sas ani­ma­das em árabe, inglês e fran­cês. Chá de menta fresco. Mesas re­ple­tas de tantos pratos que pa­re­cia sempre um dia de festa. Um fluxo cons­tan­te de vi­si­tan­tes que vinham ver meu avô: re­fu­gi­a­dos pa­les­ti­nos em busca de ajuda, em­pre­sá­rios em busca de par­ce­ri­as, in­te­lec­tu­ais de-ba­ten­do o futuro da Pa­les­ti­na e da região.

Meu avô pa­ter­no, Tewfic Ma­thi­as Kattan – ca­ri­nho­sa­men­te co­nhe­ci­do como Sido para nós e El Basha e Abu Fuad para os outros – foi o homem que me en­si­nou que os pa­les­ti­nos não eram apenas so­bre­vi­ven­tes, mas lí­de­res que con­ti­nu­a­vam a cons­truir mesmo no exílio. Se a nar­ra­ti­va co­lo­ni­al gos­ta­va de afir­mar que os pa­les­ti­nos eram uma cul­tu­ra “pri­mi­ti­va”, Tewfic Kattan virou essa ideia de cabeça para baixo. Ele era uma força da na­tu­re­za que falava cinco idi­o­mas, ao mesmo tempo em que servia ao seu povo no go­ver­no e cons­tru­ía um im­pé­rio em­pre­sa­ri­al.

Tewfic foi membro do par­la­men­to em Belém, de 1950 a 1956, até perder tem­po­ra­ri­a­men­te a visão. Re­ce­beu o título de Pasha do rei Ab­dul­lah I da Jor­dâ­nia por suas con­tri­bui­ções eco­nô­mi­cas, in­dus­tri­ais e fi­lan­tró­pi­cas. Foi cônsul ho­no­rá­rio da Suíça na Jor­dâ­nia e re­ce­beu a me­da­lha dos Ca­va­lei­ros de Malta – o Che­va­li­er de Malte – por ajudá-los a es­ta­be­le­cer uma base em Belém.

Mas suas con­quis­tas foram muito além da po­lí­ti­ca e da di­plo­ma­cia. Além de es­ta­be­le­cer ne­gó­cios re­la­ci­o­na­dos à dis­tri­bui­ção, lojas de varejo de ele­trô­ni­cos e con­ces­si­o­ná­rias de au­to­mó­veis, Tewfic fundou o pri­mei­ro en­tre­pos­to al­fan­de­gá­rio pri­va­do da Jor­dâ­nia – um de­pó­si­to isento de im­pos­tos que re­vo­lu­ci­o­nou o co­mér­cio. Ele foi co­fun­da­dor da pri­mei­ra e única em­pre­sa de ener­gia elé­tri­ca da Jor­dâ­nia, uma so­ci­e­da­de anô­ni­ma de ca­pi­tal aberto na qual atuou como vice-pre­si­den­te e na qual meu pai, Fuad, mais tarde se tornou membro do con­se­lho.

Meu avô também fundou a Intaj, um grande com­ple­xo in­dus­tri­al com fá­bri­cas de de­ter­gen­tes, sa­bo­ne­tes, bis­coi­tos, sor­ve­tes, tintas, pro­du­tos de hi­gi­e­ne pes­so­al e em­ba­la­gens. Ele atuou como pre­si­den­te até sua morte, em 1975, quando meu pai as­su­miu o co­man­do. Meu avô tinha outra fá­bri­ca de már­mo­re e azu­le­jos, e meu pai mais tarde fundou uma fá­bri­ca de ta­pe­tes. Mais pre­sen­te em minha me­mó­ria está a fa­zen­da de oli­vei­ras Al Zai­tou­neh, do meu avô, nos ar­re­do­res de Amã. Com mais de vinte mil oli­vei­ras, ela pro­du­zia um de­li­ci­o­so azeite de oliva; um sabor que lembro até hoje e uma ri­que­za que ele com­par­ti­lha­va ge­ne­ro­sa­men­te com a fa­mí­lia e os amigos.

Desde o mo­men­to em que co­me­cei a andar, passei inú­me­ras horas na casa do meu avô em Amã, ob­ser­van­do-o con­du­zir ne­gó­cios em vários idi­o­mas. Du­ran­te as férias es­co­la­res, ele me levava (or­gu­lho­sa­men­te, car­re­gan­do minha mi­ni­pas­ta) para seus es­cri­tó­rios no centro de Amã para que eu pu­des­se “tra­ba­lhar” e para suas fá­bri­cas du­ran­te suas vi­si­tas re­gu­la­res ao local. Eu era a mais velha de seis me­ni­nas e não tí­nha­mos irmãos. Sido sempre me in­cen­ti­vou a entrar no mundo dos ne­gó­cios e ser in­de­pen­den­te. As fa­mí­lias pa­les­ti­nas, como tantas co­mu­ni­da­des no exílio, tendem a va­lo­ri­zar muito a edu­ca­ção e as re­a­li­za­ções de seus filhos, in­de­pen­den­te­men­te do gênero.

Tewfic Kattan tinha de­zoi­to anos quando se es­ta­be­le­ceu entre a Jor­dâ­nia e a Pa­les­ti­na, dando con­ti­nui­da­de aos ne­gó­cios de seu pai. Quando a Nakba eclo­diu, em 1948, ele estava em po­si­ção de ajudar os pa­les­ti­nos que ti­ve­ram tudo rou­ba­do pelos is­ra­e­len­ses e que nunca foram au­to­ri­za­dos a re­tor­nar para re­cu­pe­rar suas casas, terras e ne­gó­cios. Mas o que me im­pres­si­o­nou, mesmo quando cri­an­ça, foi que os pa­les­ti­nos que che­ga­vam à sua porta não eram casos de ca­ri­da­de em busca de es­mo­las. Eram pro­fes­so­res, mé­di­cos, en­ge­nhei­ros, ar­tis­tas, em­pre­sá­rios e lí­de­res cí­vi­cos que ti­ve­ram tudo rou­ba­do da noite para o dia. Pedir ajuda era motivo de ver­go­nha, mas, para cuidar de suas fa­mí­lias, eles pediam uma opor­tu­ni­da­de de re­cons­truir, uma chance de re­co­me­çar, mas não pediam pi­e­da­de; nunca pediam pi­e­da­de.

A ge­ne­ro­si­da­de do meu avô era len­dá­ria, mas era uma ge­ne­ro­si­da­de in­cri­vel­men­te in­for­ma­da – com­bi­nan­do pes­so­as qua­li­fi­ca­das com opor­tu­ni­da­des, cri­an­do redes que se es­ten­de­ri­am por dé­ca­das. Só com­preen­di isso ver­da­dei­ra­men­te anos mais tarde, quando vi­si­tei a Pa­les­ti­na e a Jor­dâ­nia, já adulta, e ouvi his­tó­rias dos filhos e netos das pes­so­as que ele tinha aju­da­do. Para essas fa­mí­lias, o legado do meu avô era algo apre­ci­a­do e dis­cu­ti­do como parte da sua his­tó­ria fa­mi­li­ar. Foi uma ex-pe­riên­cia muito co­mo­ven­te.

Essa era a so­ci­e­da­de pa­les­ti­na na época do meu avô: so­fis­ti­ca­da, edu­ca­da, co­la­bo­ra­ti­va. A ge­ne­ro­si­da­de de Tewfic era tão co­nhe­ci­da que ele era cha­ma­do por Raja Al Issa, pro­pri­e­tá­rio de um im­por­tan­te jornal diário cha­ma­do Fi­las­teen (Pa­les­ti­na), de Kareem Al Di­fa­tein, que pode ser tra­du­zi­do como “o ge­ne­ro­so das duas mar­gens” (re­fe­rin­do-se à Cis­jor­dâ­nia e à Margem Ori­en­tal). Muitos outros es­cre­ve­ram sobre ele e suas re­a­li­za­ções, in­clu­in­do Elia Nuqul, que co­me­çou sua car­rei­ra na em­pre­sa do meu avô e que fala sobre Tewfic em sua ma­ra­vi­lho­sa bi­o­gra­fia The Boy From Ramleh.

O nome Kattan estava en­tre­la­ça­do na his­tó­ria da Pa­les­ti­na, mesmo quando não sa­bí­a­mos que nosso des­ti­no estava sendo de­ci­di­do nas ca­pi­tais eu­ro­pei­as por pes­so­as que nunca haviam pisado na Pa­les­ti­na. O avô de Tewfic, Moussa Kattan, foi pre­fei­to de Belém, em 1925. Meu tri­sa­vô, Jiries Kattan, do lado da fa­mí­lia Kattan da minha avó, era um juiz pro­e­mi­nen­te em Belém, re­pre­sen­tan­do ge­ra­ções de es­pe­ci­a­lis­tas ju­rí­di­cos pa­les­ti­nos. A árvore ge­ne­a­ló­gi­ca se es­pa­lhou por con­ti­nen­tes – minha avó Mar­ga­rit­te tinha cinco irmãos e três irmãs, e a mai­o­ria deles emi­grou para todo o mundo, in­clu­in­do o Sudão, o Chile, o Japão, a Índia e a In­gla­ter­ra, tor­nan­do-se muito bem-su­ce­di­dos na fa­bri­ca­ção de têx­teis e outros ne­gó­cios. Sua irmã, Vic­to­ria Kattan Hirmas, tornou-se em­pre­sá­ria no Chile, com sua pró­pria fá­bri­ca de botões.

Minha avó – Teita Margo – também era uma Kattam de Belém, mas de outro ramo da fa­mí­lia. Ela falava cinco idi­o­mas flu­en­te­men­te e atuou como vice-pre­si­den­te do Cres­cen­te Ver­me­lho, em Amã, por mais de uma década, pres­tan­do as­sis­tên­cia hu­ma­ni­tá­ria a re­fu­gi­a­dos pa­les­ti­nos. Era uma ca­tó­li­ca devota, pro­fun­da­men­te ca­ri­do­sa, mas de ma­nei­ra dis­cre­ta. Nos fins de semana, ela me lia ro­man­ces em fran­cês e es­pa­nhol, sua voz dando vida aos per­so­na­gens em idi­o­mas que fluíam mu­si­cal­men­te de sua língua.

Na época, é claro, eu não sabia disso, en­quan­to es­tá­va­mos sen­ta­das no salão ilu­mi­na­do pelo sol, lendo juntas, mas cada con­ver­sa com ela era mais uma prova que des­men­tia a pro­pa­gan­da co­lo­ni­a­lis­ta. Os pa­les­ti­nos são atra­sa­dos? Essa mulher dis­cu­tia li­te­ra­tu­ra em vários idi­o­mas, lia e rezava em latim.

Meu avô Tewfic tinha oito irmãs no­tá­veis, cada uma com sua pró­pria his­tó­ria de re­si­liên­cia e con­quis­tas. Deixe-me contar-lhe sobre apenas uma delas, Julia (tia Joujou para nós). Em 1972, quando o mundo ten­ta­va es­que­cer que os pa­les­ti­nos alguma vez exis­ti­ram, a tia Joujou fez algo ex­tra­or­di­ná­rio. Ela fundou um museu na sua qua­li­da­de de líder da União das Mu­lhe­res Árabes. Bai­tu­na Al Ta­lha­mi – Nossa Casa em Belém – fica na Rua Star, perto da Igreja da Na­ti­vi­da­de, e apre­sen­ta casas tra­di­ci­o­nais pa­les­ti­nas ao redor de um hosh (pátio pa­les­ti­no), com ex­po­si­ções do pa­tri­mô­nio cul­tu­ral local, in­clu­in­do trajes tra­di­ci­o­nais, uten­sí­lios do­més­ti­cos e ob­je­tos his­tó­ri­cos, ar­te­fa­tos doados por fa­mí­lias pa­les­ti­nas de­ter­mi­na­das a pre­ser­var um re­gis­tro de sua cul­tu­ra in­dí­ge­na.

A pró­pria União das Mu­lhe­res Árabes or­ga­ni­zou ofi­ci­nas que pro­por­ci­o­na­ram em­pre­go às mu­lhe­res pa­les­ti­nas, pre­ser­van­do ao mesmo tempo o ta­treez, as téc­ni­cas tra­di­ci­o­nais de bor­da­do pa­les­ti­no que con­ta­vam his­tó­rias atra­vés de tra­ba­lhos de cos­tu­ra in­tri­ca­dos que re­fle­ti­am a iden­ti­da­de, o ca­rá­ter, a per­so­na­li­da­de e as ori­gens es­pe­cí­fi­cas da mulher que os criava.

A tia Joujou com­preen­deu algo que levei alguns anos para per­ce­ber: a cul­tu­ra não se pre­ser­va apenas nos museus, ela é vivida no dia a dia. As abun­dan­tes re­fei­ções fa­mi­li­a­res que ela or­ga­ni­za­va em Belém reu­ni­am nossa fa­mí­lia e amigos para sa­bo­re­ar pratos tra­di­ci­o­nais pa­les­ti­nos, pre­pa­ra­dos a partir de re­cei­tas trans­mi­ti­das de ge­ra­ção em ge­ra­ção. O árabe que ela in­sis­tia que todos fa­lás­se­mos cor­re­ta­men­te tinha o so­ta­que ca­rac­te­rís­ti­co da região em torno das an­ti­gas pedras de Belém. Nossas raízes em Belém eram pro­fun­das, mas nosso ramo em Je­ru­sa­lém era igual­men­te so­fis­ti­ca­do – e seu des­ti­no ainda mais co­mo­ven­te.

O lado ma­ter­no da minha fa­mí­lia é cris­tão or­to­do­xo grego pa­les­ti­no, de Je­ru­sa­lém, Al Quds, nossa Cidade Santa. Meu avô ma­ter­no, Shukri Saba Halaby, era o mais novo de quatro irmãos que re­pre­sen­ta­vam o su­ces­so in­te­lec­tu­al e co­mer­ci­al pa­les­ti­no na Pa­les­ti­na urbana. Ao con­trá­rio do meu avô pa­ter­no, que tinha re­cur­sos para re­cons­truir, Sido Shukri nunca se re­cu­pe­rou fi­nan­cei­ra­men­te depois que a casa, os ne­gó­cios e os bens de sua fa­mí­lia foram rou­ba­dos em 1948.

Mas não me lembro de um homem aba­ti­do ou amargo. Lembro-me dos seus olhos avelã-es­ver­de­a­dos que bri­lha­vam com in­te­li­gên­cia e uma pre­sen­ça digna. Ele tra­ba­lhou duro para re­co­me­çar, abrin­do uma tor­re­fa­do­ra de café no centro de Amã. O aroma acho­co­la­ta­do e per­fu­ma­do de sua loja ainda me vem à mente hoje, sempre que sinto o cheiro de um certo tipo de café recém-tor­ra­do e, admito, sou muito exi­gen­te com meu café por causa disso.

Sido Shukri era pa­ci­en­te e gentil, um ex­ce­len­te jo­ga­dor de tênis que me levava nos fins de semana para jogar. Ele também pas­sa­va horas me en­si­nan­do xadrez e gamão (sheish beish). Eu ra­ra­men­te o vencia, mas ado­ra­va tentar. Depois do tênis, vol­tá­va­mos para casa, onde minha avó Teita Leonie pre­pa­ra­va um café da manhã pa­les­ti­no: ovos fritos com samneh ba­la­di­eh (man­tei­ga cla­ri­fi­ca­da ou man­tei­ga ghee pa­les­ti­na), pol­vi­lha­dos ge­ne­ro­sa­men­te com za’atar e su­ma­gre pales-tinos e ser­vi­do com la­ba­neh ca­sei­ro, homus e ful me­dam­mes. Meu avô com­pra­va fa­la­fel recém-feito e Ka’ek Al Quds (também co­nhe­ci­do como Ka’ek bil sumsum) recém-as­sa­dos, bagels pa­les­ti­nos de ger­ge­lim ex­clu­si­vos de Je­ru­sa­lém.

Minha avó Leonie Zawa­neh também era cristã or­to­do­xa grega de Je­ru­sa­lém que, junto com meu avô e seus três filhos, se tornou so­bre­vi­ven­te da Nakba e depois re­fu­gi­a­da – pri­mei­ro em Bei­ru­te, depois em Amã. Havia mais tris­te­za por trás de seus olhos azuis. O peso do des­lo­ca­men­to, embora ra­ra­men­te men­ci­o­na­do em voz alta, nunca aban­do­nou sua ge­ra­ção.

A irmã mais velha do meu avô Shukri, Sul­ta­neh Halaby, era uma mulher tão à frente do seu tempo que suas con­quis­tas pa­re­cem no­tá­veis até hoje. Ela fundou uma bela li­vra­ria cha­ma­da Dar Al Kutob, A Casa dos Livros, no co­ra­ção da antiga Je­ru­sa­lém. Quando a Nakba dis­per­sou nossa fa­mí­lia, ela se adap­tou e con­ti­nuou sua re­sis­tên­cia, abrin­do fi­li­ais em Amã e Bei­ru­te, cri­an­do uma rede de es­pa­ços in­te­lec­tu­ais pa­les­ti­nos em toda a di­ás­po­ra. Não foi uma tarefa fácil – uma mulher pa­les­ti­na cons­tru­in­do uma rede li­te­rá­ria, na­que­la época, em toda a Ásia Oci­den­tal
(que é como me re­fe­ri­rei ao Ori­en­te Médio ao longo deste texto).

Seu irmão Assad Halaby era um em­pre­sá­rio de su­ces­so cuja tra­je­tó­ria re­fle­te uma versão comum sin­te­ti­za­da da his­tó­ria pa­les­ti­na: pros­pe­ri­da­de na Pa­les­ti­na, tudo lhe foi rou­ba­do du­ran­te a Nakba; status de re­fu­gi­a­do no Líbano e depois na Jor­dâ­nia, e então re­cons­tru­ção do zero nos Es­ta­dos Unidos com sua esposa, Fou­to­nie Atalla, e seus quatro filhos. Dois desses filhos me­re­cem menção es­pe­ci­al: minha tia, Samia Halaby, é uma ar­tis­ta visual con­tem­po­râ­nea de renome mun­di­al, com obras no Gug­ge­nheim e ex­po­si­ções que pas­sa­ram pela Tate Modern e outros gran­des museus em todo o mundo, além de ser es­cri­to­ra, aca­dê­mi­ca, edu­ca­do­ra e ati­vis­ta. Quando a apre­sen­ta­mos no pod­cast The En­ligh­ten­ment, ouvi-la falar sobre a arte como re­sis­tên­cia foi uma aula ma­gis­tral sobre a tra­di­ção in­te­lec­tu­al pa­les­ti­na.

A irmã de Samia, Nahida Halaby Gordon, era pro­fes­so­ra emé­ri­ta de Es­ta­tís­ti­ca e atuou como bol­sis­ta sênior Ful­bright na Uni­ver­si­da­de Bir­zeit, na Pa­les­ti­na. Nas­ci­da em Je­ru­sa­lém, ela es­cre­veu um livro, Pa­les­ti­ne is Our Home: Voices of Loss, Cou­ra­ge, and Ste­ad­fast­ness (A Pa­les­ti­na é o nosso lar: vozes de perda, co­ra­gem e per­se­ve­ran­ça), e pu­bli­cou ex­ten­si­va­men­te em ve­í­cu­los de co­mu­ni­ca­ção como Elec­tro­nic In­ti­fa­da, Mon­doweiss e Coun­ter­Pun­ch, ga­ran­tin­do que as vozes pa­les­ti­nas che­gas­sem a pú­bli­cos glo­bais.

Além disso, do lado da minha mãe, a irmã do meu avô Shukri Halaby, Emilie, casou-se com Hanna Atalla, um ad­vo­ga­do e juiz pa­les­ti­no de su­ces­so em Je­ru­sa­lém. Hanna também era editor de uma re­vis­ta. Meus pais eram pró­xi­mos do filho deles, o tio Munir, e da esposa dele, a tia Odette, e, en­quan­to cres­cia, eu era pró­xi­ma dos meus quatro primos: Reem, Rula, Marwan e Rania Atalla.

Reem e Rula fun­da­ram a Silsal Ce­ra­mics (que sig­ni­fi­ca “argila” em árabe), em Amã, com o ob­je­ti­vo de pre­ser­var nossa tra­di­ção cul­tu­ral da arte ce­râ­mi­ca e, ao mesmo tempo, criar em­pre­gos para mu­lhe­res ar­te­sãs locais. Minha prima Rania deixou uma car­rei­ra de grande su­ces­so na po­lí­ti­ca para se tornar es­pe­ci­a­lis­ta em saúde mental e edu­ca­do­ra. Quanto aos filhos do meu tio Suheil Halaby – meus primos Ramzi, Shukri e Mazen Halaby –, todos eles são em­preen­de­do­res por mérito pró­prio. A mãe deles, minha tia, Nawal Abu Khader, é uma chef in­crí­vel e criou a The Cakery, uma marca de ca­te­ring de so­bre­me­sas de su­ces­so. Seu livro, All That is Sweet, não re­co­men­do se você es­ti­ver ten­tan­do perder peso. Meu outro tio, Saba Halaby, tornou-se en­ge­nhei­ro mu­ni­ci­pal em Kil­leen, Texas, onde meu primo Mi­cha­el ainda mora.

Muitos anos depois, esses tios, Saba e Suheil (irmãos mais novos da minha mãe), vol­ta­ram para vi­si­tar a Pa­les­ti­na ocu­pa­da, usando seus pas­sa­por­tes es­tran­gei­ros, que era a única ma­nei­ra de serem au­to­ri­za­dos a entrar; como con­vi­da­dos em seu pró­prio país. Eles en­con­tra­ram judeus ale­mães ocu­pan­do a casa da fa­mí­lia em Je­ru­sa­lém Oci­den­tal, onde eles e minha mãe haviam cres­ci­do. Eles es­ta­vam lá desde 1948. Quando meus tios se apre­sen­ta­ram, os ocu­pan­tes per­mi­ti­ram que en­tras­sem, com a con­di­ção de que não to­cas­sem em nada. Para sur­pre­sa dos meus tios, tudo estava exa­ta­men­te como era quando eles eram jovens; apenas o ba­nhei­ro e a co­zi­nha haviam sido mo­der­ni­za­dos. Meus tios ca­mi­nha­ram pela casa da in­fân­cia, sob o olhar atento dos co­lo­ni­za­do­res que agora mo­ra­vam lá. Eles não que­ri­am, mas não con­se­gui­ram evitar: cho­ra­ram.

Minha tia, Samia Halaby, en­fren­tou um tipo di­fe­ren­te de dor quando voltou. Os judeus eu­ro­peus que rou­ba­ram a casa dos seus pais re­cu­sa­ram-se a deixá-la entrar. Essa foi a re­a­li­da­de para a mai­o­ria dos pa­les­ti­nos que ten­ta­ram vi­si­tar, anos depois – en­con­trar suas casas rou­ba­das, ocu­pa­das com móveis e tudo e con­ce­di­das gra­tui­ta­men­te a co­lo­nos ile­gais da Europa, sem qual­quer com­pen­sa­ção ou res­ti­tui-ção aos pro­pri­e­tá­rios. Esta ex­pe­riên­cia foi par­ti­lha­da por mais de 750.000 pa­les­ti­ni­a­nos que foram ví­ti­mas de lim­pe­za étnica na Nakba de 1948 e, no­va­men­te, por mais de 300.000 pa­les­ti­ni­a­nos em 1967, du­ran­te o Naksa; apesar de o di­rei­to in­ter­na­ci­o­nal ga­ran­tir o seu di­rei­to de re­gres­so.

Minha fa­mí­lia re­pre­sen­ta um mundo que os co­lo­ni­za­do­res pre­fe­ri­am fingir que não exis­tia: so­fis­ti­ca­ção no co­mér­cio, na arte, na cul­tu­ra e em muitos outros as­pec­tos. Mas, como uma fa­mí­lia pa­les­ti­na cristã mi­no­ri­tá­ria, também re­pre­sen­tá­va­mos outra re­a­li­da­de que as nar­ra­ti­vas co­lo­ni­ais efe­ti­va­men­te su­pri­mi­am: a co­e­xis­tên­cia pa­cí­fi­ca entre cris­tãos pa­les­ti­nos, mu­çul­ma­nos pa­les­ti­nos e judeus pa­les­ti­nos ao longo de sé­cu­los.

Por que essa re­a­li­da­de foi ocul­ta­da é algo que abor­da­rei no Ca­pí­tu­lo Três, mas, por en­quan­to, deixe-me dar apenas um exem­plo sig­ni­fi­ca­ti­vo dessa co­e­xis­tên­cia: duas fa­mí­lias mu­çul­ma­nas de Je­ru­sa­lém – as fa­mí­lias Nus­sei­beh e Joudeh-al Hus­sei­ni – detêm as chaves da Igreja do Santo Se­pul­cro, em Je­ru­sa­lém, e abrem e fecham essa igreja, um dos locais mais sa­gra­dos do cris­ti­a­nis­mo, desde o século XII. Esse acordo foi pas­sa­do de ge­ra­ção em ge­ra­ção em cada fa­mí­lia e con­ti­nua até hoje, re­pre­sen­tan­do oito sé­cu­los de con­fi­an­ça e co­o­pe­ra­ção inter-re­li­gi­o­sa que sub­ver­tem qual­quer nar­ra­ti­va co­lo­ni­al sim­plis­ta de con­fli­to re­li­gi­o­so exis­ten­te ou ine­vi­tá­vel.

Cris­tãos, mu­çul­ma­nos e judeus pa­les­ti­nos vi­ve­ram lado a lado du­ran­te sé­cu­los na Pa­les­ti­na, nossa terra natal, com­par­ti­lhan­do ce­le­bra­ções, pro­te­gen­do os locais de culto uns dos outros e cons­tru­in­do ne­gó­cios juntos. In­fe­liz­men­te, essa era a so­ci­e­da­de pa­les­ti­na plu­ra­lis­ta que os bri­tâ­ni­cos e os si­o­nis­tas pre­ci­sa­vam apagar para jus­ti­fi­car seu pro­je­to co­lo­ni­a­lis­ta.

Você pode ler sobre a so­ci­e­da­de pa­les­ti­na antes do si­o­nis­mo. Com uma rápida pes­qui­sa on-line, você pode ver fotos de ar­qui­vo de es­tú­dios de rádio, te­a­tros, fer­ro­vi­as, áreas co­mer­ci­ais mo­vi­men­ta­das, edi­fí­cios or­na­men­ta­dos e co­lhei­tas de azei­to­nas e la­ran­jas em grande escala, pron­tas para ex­por­ta­ção e dis­tri­bui­ção in­ter­na. No en­tan­to, a má­qui­na de pro­pa­gan­da do si­o­nis­mo es­pa­lhou com su­ces­so o mito de “uma terra sem povo”, uma terra que era um “de­ser­to”, uma terra que pre­ci­sa­va dos co­lo­nos si­o­nis­tas para “flo­res­cer”. As men­ti­ras e a pro­pa­gan­da se es­pa­lha­ram. Iro­ni­ca­men­te, eles con­se­gui­ram re­mo­ver mi­lhões de pa­les­ti­nos usando esse mito de um ter­re­no vazio; e depois mu­dan­do-se di­re­ta­men­te para as suas casas. Mas o que não con­se­gui­ram fazer foi eli­mi­nar as ge­ra­ções se­guin­tes que se lem­bram e que ainda sentem a ne­ces­si­da­de de cor­ri­gir uma imensa in­jus­ti­ça.

O que acon­te­ce quando se tenta apagar um povo que se recusa a de­sa­pa­re­cer? Muitos pa­les­ti­nos lu­ta­ram para so­bre­vi­ver, mas muitos se tor­na­ram exa­ta­men­te aquilo que o seu des­lo­ca­men­to de­ve­ria im­pe­dir que se tor­nas­sem: mé­di­cos, ad­vo­ga­dos, ci­ne­as­tas, ar­qui­te­tos. Cada su­ces­so é uma re­preen­são si­len­ci­o­sa à lógica do apa­ga­men­to. Meu primo, Dr. Victor Kattan, é es­pe­ci­a­lis­ta em di­rei­to in­ter­na­ci­o­nal e luta pela jus­ti­ça pa­les­ti­na por meio de seus livros pu­bli­ca­dos, pa­les­tras e en­tre­vis­tas em todo o mundo. Ele é fre­quen­te­men­te citado e con­vi­da­do para for­ne­cer aná­li­ses es­pe­ci­a­li­za­das sobre di­rei­to in­ter­na­ci­o­nal no que se refere à Pa­les­ti­na. Meu pod­cast com Victor des­man­te­lou as es­tru­tu­ras co­lo­ni­ais e os fun­da­men­tos ju­rí­di­cos da ocu­pa­ção por meio de sua ri­go­ro­sa eru­di­ção. Seu pai, meu tio Wil­li­am, também atuou como pro­mo­tor pú­bli­co, pro­cu­ra­dor-geral e pro­cu­ra­dor-geral da Re­pú­bli­ca de Va­nu­a­tu.

En­quan­to isso, em uma co­zi­nha em Belém, os aromas de za’atar e melaço de romã enchem o ar. Meu primo Fadi Kattan, filho da minha tia Mi­che­li­ne, é um chef e res­tau­ra­teur pre­mi­a­do que ce­le­bra nossa he­ran­ça pa­les­ti­na por meio de uma cu­li­ná­ria que une o pas­sa­do e o pre­sen­te – pre­ser­van­do téc­ni­cas e in­gre­di­en­tes tra­di­ci­o­nais, mas com­bi­nan­do-os com ino­va­ções con­tem­po­râ­neas. Seu livro mais re­cen­te, Be­th­le­hem: A Ce­le­bra­ti­on of Pa­les­ti­ni­an Food (Belém: Uma Ce­le­bra-ção da Comida Pa­les­ti­na), é um ban­que­te visual, re­ple­to de re­cei­tas, mas também de his­tó­rias que ce­le­bram os for­ne­ce­do­res de Belém que de­fen­dem in­gre­di­en­tes es­pe­ci­a­li­za­dos diante dos de­sa­fi­os de viver sob ocu­pa­ção. Fadi tem res­tau­ran­tes pa­les­ti­nos acla­ma­dos em Belém, Lon­dres e To­ron­to. Já comi muitas vezes em dois desses res­tau­ran­tes, o Akub e o Louf, e é ma­ra­vi­lho­so ver os sor­ri­sos de pes­so­as de todas as cul­tu­ras en­quan­to sa­bo­rei­am sua comida.

Quando en­tre­vis­ta­mos Fadi para o nosso pod­cast, ele com­par­ti­lhou algo pro­fun­do: “A comida é me­mó­ria. Os sa­bo­res trans­por­tam a his­tó­ria atra­vés das ge­ra­ções. Cada prato nos co­nec­ta aos agri­cul­to­res pa­les­ti­nos que cui­da­ram dos mesmos oli­vais, dos mesmos jar­dins de ervas, das mesmas ár­vo­res fru­tí­fe­ras du­ran­te mi­lê­nios”.

Seria exa­ge­ro dizer que cada re­fei­ção pa­les­ti­na se torna um ato de re­sis­tên­cia contra o es­que­ci­men­to? A rica he­ran­ça cu­li­ná­ria da Pa­les­ti­na está en­fren­tan­do apro­pri­a­ção por uma pro­li­fe­ra­ção de chefs e res­tau­ra­teurs is­ra­e­len­ses que ex­por­tam comida pa­les­ti­na para todo o mundo, reem­ba­la­da como “is­ra­e­len­se”. O maf­toul, por exem­plo, é um ali­men­to básico pa­les­ti­no, ligado aos mé­to­dos tra­di­ci­o­nais de en­ro­lar o tri­gui­lho e trigo in­te­gral em pe­que­nas bolas que formam a base de en­so­pa­dos. A pa­la­vra maf­toul sig­ni­fi­ca li­te­ral­men­te “en­ro­la­do à mão” em árabe. No en­tan­to, você verá o maf­toul sendo apre­sen­ta­do como “cous­cous is­ra­e­len­se” em todo o mundo. É im­por­tan­te chamar a aten­ção para a apro­pri­a­ção cul­tu­ral e abra­çar esses pe­que­nos atos de re­sis­tên­cia ao fazê-lo, es­pe­ci­al­men­te quando se trata de algo tão nu­tri­ti­vo e en­vol­ven­te como uma boa re­fei­ção.

O irmão mais novo de Fadi, meu primo Karim Kattan, é um ro­man­cis­ta pre­mi­a­do que mora em Paris. Por meio da ficção, ele cap­tu­ra ex­pe­riên­cias pa­les­ti­nas que as no­tí­cias não con­se­guem trans­mi­tir – o pa­no­ra­ma in­ter­no do des­lo­ca­men­to for­ça­do, a psi­co­lo­gia da re­sis­tên­cia, os sonhos que so­bre­vi­vem à ocu­pa­ção. A irmã deles, Muna, mora em Belém, onde ajuda a educar jovens pa­les­ti­nos em de­ba­tes e em nossas tra­di­ções in­te­lec­tu­ais. Em um lugar onde a edu­ca­ção é frágil, seu tra­ba­lho ga­ran­te que os es­tu­dan­tes per­ma­ne­çam pers­pi­ca­zes, in­for­ma­dos e cultos.

O cinema é talvez uma das formas mais po­de­ro­sas de in­flu­en­ci­ar a cul­tu­ra. Hollywo­od sempre soube disso. Minha prima ci­ne­as­ta, Anne-marie Jacir, cria filmes pa­les­ti­nos ino­va­do­res, como o re­cen­te can­di­da­to ao Oscar, Pa­les­ti­ne 36, que evocou de forma bri­lhan­te a re­sis­tên­cia na Pa­les­ti­na sob o Man­da­to Bri­tâ­ni­co. Seu filme Salt of This Sea foi se­le­ci­o­na­do para Cannes em 2008 – o pri­mei­ro filme pa­les­ti­no a com­pe­tir neste fes­ti­val. Seus filmes sub­se­quen­tes, in­clu­in­do When I Saw You e Wajib, ga­nha­ram vários prê­mios in­ter­na­ci­o­nais, le­van­do narra-tivas pa­les­ti­nas co­mo­ven­tes, in­te­li­gen­tes e, às vezes, bem-hu­mo­ra­das a um pú­bli­co global que ra­ra­men­te teve a chance de nos ver como seres hu­ma­nos com­ple­tos.

Sua irmã, Emily Jacir, é uma ar­tis­ta, edu­ca­do­ra e ci­ne­as­ta acla­ma­da. Os filhos da minha tia Pau­li­ne Kattan Dab­doub, meus primos Elias e Yousef Anas­tas, são ar­qui­te­tos e de­sig­ners in­ter­na­ci­o­nal­men­te re­co­nhe­ci­dos em Belém, que apoiam ar­te­sãos pa­les­ti­nos locais por meio de sua prá­ti­ca ar­qui­te­tô­ni­ca. Seu pro­je­to Stone Mat­ters revive an­ti­gas téc­ni­cas pa­les­ti­nas de abó­ba­das de pedra, uti­li­zan­do mé­to­dos de nossos an­ces­trais e adap­tan­do-os para edi­fí­cios mo­der­nos. Cada es­tru­tu­ra que eles pro­je­tam parece, para mim, uma de­cla­ra­ção: es­ta­mos aqui, esta-mos cons­tru­in­do, es­ta­mos cri­an­do fu­tu­ros que honram nosso pas­sa­do.

A ge­ra­ção mais jovem con­ti­nua esse legado com a mesma de­ter­mi­na­ção. Minha so­bri­nha Jana Kattan es­cre­veu e di­ri­giu um curta-me­tra­gem de ani­ma­ção pre­mi­a­do, Check­po­int, e seu irmão Jad de­sem­pe­nhou um papel cru­ci­al no pri­mei­ro Fes­ti­val de Cinema Pa­les­ti­no de Mon­tre­al, or­ga­ni­za­do pelo Clube de Cul­tu­ra Pa­les­ti­na. Minha so­bri­nha Na­tasha Kattan Durel é uma ati­vis­ta vocal pela Pa­les­ti­na nos Es­ta­dos Unidos. Meu primo Marwan é em­pre­sá­rio e seu filho, Munir Atalla, tra­ba­lha na Wa­ter­me­lon Pic­tu­res, pro­du­zin­do e dis­tri­bu­in­do con­te­ú­do pa­les­ti­no que leva nossas nar­ra­ti­vas ao pú­bli­co global. O filho da minha prima Rula, Bassel Ghan­dour, é um ci­ne­as­ta ta­len­to­so cujos tra­ba­lhos in­clu­em The Alleys and Theeb, in­di­ca­do ao Oscar de Melhor Filme Es­tran­gei­ro em 2016. Meus filhos, Ethan e Luca, são en­ge­nhei­ros de softwa­re, mas também atu­a­ram em filmes, in­clu­si­ve como pa­les­ti­nos no meu último filme, Po­la­ri­zed.

E eu? Como todo mundo, tento trazer para di­fe­ren­tes as­pec­tos do meu tra­ba­lho a busca pelo lar e pela jus­ti­ça. Pro­du­zi dois filmes pre­mi­a­dos em fes­ti­vais, I Can’t Think Straight e Po­la­ri­zed, que mos­tram mu­lhe­res da di­ás­po­ra pa­les­ti­na que ad­mi­nis­tram ne­gó­cios, uma pe­que­na forma de cor­ri­gir os es­te­re­ó­ti­pos de ter­ro­ris­tas e re­fu­gi­a­dos fre­quen­te­men­te as­so­ci­a­dos à Pa­les­ti­na no cinema. Também abri o Tabun Kit-chen, um res­tau­ran­te no Soho, em Lon­dres, que fun­ci­o­nou por alguns anos, para re­cu­pe­rar uma comida e um pa­tri­mô­nio que es­ta­vam sendo apro­pri­a­dos como is­ra­e­len­ses. Agora, dirijo o The En­ligh­ten­ment Pod­cast para mos­trar a cul­tu­ra e a his­tó­ria pa­les­ti­nas com alguns con­vi­da-dos no­tá­veis e con­ti­nuo a in­cluir per­so­na­gens e his­tó­rias pa­les­ti­nas nos filmes e séries que minha par­cei­ra Shamim e eu de­sen­vol­ve­mos.

Para fa­mí­lias pa­les­ti­nas como a minha, a re­sis­tên­cia não se resume apenas ao que es­ta­mos ten­tan­do salvar, mas também está muito pre­sen­te no que con­ti­nu­a­mos a nos tornar. É um fio con­du­tor que se for­ta­le­ceu nos úl­ti­mos tempos, à medida que a origem da in­jus­ti­ça na região se tornou mais co­nhe­ci­da, es­pe­ci­al­men­te entre a ge­ra­ção mais jovem. A his­tó­ria da minha fa­mí­lia, mul­ti­pli­ca­da por cen­te­nas de mi­lha­res de fa­mí­lias pa­les­ti­nas, do­cu­men­ta algo mais po­de­ro­so do que a des­trui­ção cul­tu­ral: ela mostra a res­sur­rei­ção cul­tu­ral.

Nós so­bre­vi­ve­mos. Mais do que so­bre­vi­ver, nós pros­pe­ra­mos.

A his­tó­ria da minha fa­mí­lia não é única. Faz parte de um vasto ar­qui­vo vivo que abran­ge con­ti­nen­tes e ge­ra­ções. Em co­mu­ni­da­des pa­les­ti­nas de De­troit a Sydney, de San­ti­a­go a Es­to­col­mo, surgem nar­ra­ti­vas se­me­lhan­tes. Cada fa­mí­lia pa­les­ti­na guarda te­sou­ros da re­sis­tên­cia. Chaves de casa, mas também tí­tu­los de pro­pri­e­da­de pre­ser­va­dos em sacos plás­ti­cos, fo­to­gra­fi­as de casas que agora foram de­mo­li­das, re­cei­tas ra­bis­ca­das nas mar­gens de livros, cer­ti­dões de ca­sa­men­to de igre­jas e mes­qui­tas pa­les­ti­nas, fotos de for­ma­tu­ra de ins­ti­tui­ções que alguns afir­ma­ri­am nunca ter exis­ti­do. Co­le­ti­va­men­te, eles formam um ar­qui­vo que nenhum go­ver­no pode des­truir e ne­nhu­ma pro­pa­gan­da pode negar.

Na grande co­mu­ni­da­de pa­les­ti­na de De­troit, as fa­mí­lias ainda se reúnem às sextas-feiras para fazer o pão tra­di­ci­o­nal. As mu­lhe­res idosas não en­si­nam apenas a amas­sar e a le­ve­dar; a cada dobra e cada fer­men­ta­ção, elas trans­mi­tem me­mó­rias – his­tó­rias pas­sa­das atra­vés do tra­ba­lho e das re­fei­ções par­ti­lha­das. Os campos de re­fu­gi­a­dos pa­les­ti­nos contam uma his­tó­ria se­me­lhan­te. Apesar de dé­ca­das de cerco, os pa­les­ti­nos nos campos de re­fu­gi­a­dos e na di­ás­po­ra ainda dão às suas ruas os nomes das al­dei­as que foram for­ça­dos a aban­do­nar. Atra­vés da cu­li­ná­ria, os pa­les­ti­nos pre­ser­vam não apenas os sa­bo­res, mas também o co­nhe­ci­men­to agrí­co­la. Atra­vés do bor­da­do ta­treez, eles do­cu­men­tam as his­tó­rias das al­dei­as em linhas e pa­drões. Atra­vés das can­ções de ninar, eles trans­mi­tem nomes de lu­ga­res, li­nha­gens fa­mi­li­a­res e co­nhe­ci­men­to ge­o­grá­fi­co. A pró­pria língua se torna um ato de re­sis­tên­cia. Os di­a­le­tos árabes pa­les­ti­nos, com seus so­ta­ques es­pe­cí­fi­cos das al­dei­as e ex­pres­sões locais, muitas vezes so­bre­vi­vem in­tac­tos nas co­mu­ni­da­des da di­ás­po­ra.

Essa per­sis­tên­cia cul­tu­ral é as­sus­ta­do­ra para um co­lo­ni­za­dor? Talvez. Como se pode afir­mar que um povo nunca exis­tiu quando seus filhos, netos e bis­ne­tos ainda co­zi­nham seus pratos, falam seus di­a­le­tos, lem­bram-se de suas al­dei­as e trans­mi­tem suas tra­di­ções? As re­cei­tas tornam-se mais va­lo­ri­za­das, não menos. As roupas tra­di­ci­o­nais tornam-se mais sig­ni­fi­ca­ti­vas, não menos. Os Kuf­fi­yehs as­su­mem um sim­bo­lis­mo também para mi­lhões de não pa­les­ti­nos.

Este é o poder do sumud, a de­ter­mi­na­ção pa­les­ti­na que trans­cen­de o des­lo­ca­men­to físico. Sumud não é re­sis­tên­cia pas­si­va; é um tipo de re­sis­tên­cia ativa que mantém a cul­tu­ra diante da he­ge­mo­nia im­pos­ta e in­sis­te na ver­da­de em um mundo que elevou a pro­pa­gan­da às man­che­tes dos jor­nais. O sumud está in­cor­po­ra­do no DNA cul­tu­ral pa­les­ti­no – trans­mi­ti­do de ge­ra­ção em ge­ra­ção como sa­be­do­ria her­da­da, com uma fir­me­za que imita a das oli­vei­ras. Se os co­lo­ni­za­do­res pen­sa­vam que po­de­ri­am que­brar a iden­ti­da­de pa­les­ti­na atra­vés do des­lo­ca­men­to for­ça­do e da hu­mi­lha­ção, eles aca­ba­ram por forjar uma cons­ciên­cia pa­les­ti­na in­que­bran­tá­vel que trans­cen­de fron­tei­ras e so­bre­vi­ve a dé­ca­das, e está mais forte hoje do que em qual­quer outro mo­men­to do pas­sa­do re­cen­te.

É fun­da­men­tal re­co­nhe­cer que mi­lhões de pa­les­ti­nos ainda vivem em campos de re­fu­gi­a­dos na Jor­dâ­nia, no Líbano, na Síria e na Pa­les­ti­na ocu­pa­da. Eles não ti­ve­ram as opor­tu­ni­da­des que outros pa­les­ti­nos ti­ve­ram, in­clu­in­do mem­bros da minha fa­mí­lia. Eles ainda lutam para educar seus filhos, criar me­lho­res opor­tu­ni­da­des, cons­truir uma vida melhor em lu­ga­res que nem sempre os acei­tam ple­na­men­te, en­quan­to se agar­ram à es­pe­ran­ça de que um dia po­de­rão re­tor­nar à Pa­les­ti­na para re­cu­pe­rar suas casas e suas terras.

A me­mó­ria his­tó­ri­ca é di­fí­cil de apagar. É uma pro­mes­sa de re­tor­no; um re­tor­no que acre­di­to que virá, cons­tru­in­do uma nação unida onde aque­les que so­fre­ram lim­pe­za étnica possam voltar e viver em suas pró­prias terras, onde pes­so­as de todos os credos e re­li­gi­ões sejam livres para viver, lado a lado, sem su­pre­ma­cia ou apar­theid. De acordo com o di­rei­to in­ter­na­ci­o­nal, todos os pa­les­ti­nos têm o di­rei­to de re­tor­nar – a Re­so­lu­ção 194 da ONU ga­ran­te esse di­rei­to fun­da­men­tal, mas ele con­ti­nua sendo negado por aque­les que co­lo­ni­za­ram a região.

A his­tó­ria da minha fa­mí­lia é a prova pes­so­al de que os pa­les­ti­nos nunca foram nô­ma­des pri­mi­ti­vos va­gan­do pelo de­ser­to. Muitos pa­les­ti­nos eram, e con­ti­nu­am sendo, agri­cul­to­res – em sin­to­nia com a terra, pra­ti­can­do agri­cul­tu­ra re­ge­ne­ra­ti­va para me­lho­rar na­tu­ral­men­te as co­lhei­tas e o sabor muito antes de isso se tornar uma ten­dên­cia no Oci­den­te. Áreas como Battir são co­nhe­ci­das por seus an­ti­gos campos em so­cal­cos, casas tra­di­ci­o­nais de pedra e redes de canais de ir­ri­ga­ção que têm sido usados por agri­cul­to­res pa­les­ti­nos há mais de dois mil anos. Outros, como minha fa­mí­lia, são pes­so­as mais ur­ba­nas, com sé­cu­los de li­de­ran­ça do­cu­men­ta­da, edu­ca­ção mul­ti­lín­gue, redes de ne­gó­cios in­ter­na­ci­o­nais e re­a­li­za­ções cul­tu­rais.

Mas até onde vão re­al­men­te nossas raízes? As evi­dên­cias ar­que­o­ló­gi­cas en­con­tra­das sob o solo re­ve­lam que os pa­les­ti­nos vêm cons­tru­in­do ci­da­des há dez mi­lê­nios; ci­vi­li­za­ções avan­ça­das com as­sen­ta­men­tos con­tí­nuos e or­ga­ni­za­dos na região muito antes de as po­pu­la­ções eu­ro­pei­as terem emer­gi­do do estilo de vida pa­le­o­lí­ti­co de ca­ça­do­res-co­le­to­res. Junte-se a mim em uma viagem ao início da ci­vi­li­za­ção, muito antes do sur­gi­men­to das re­li­gi­ões abraâ­mi­cas, quando mãos in­dí­ge­nas mol­da­ram as pri­mei­ras ci­da­des do mundo. A ver­da­de en­ter­ra­da nessas pedras an­ti­gas des­trui­rá a men­ti­ra de “uma terra sem povo” e revela-rá uma ci­vi­li­za­ção so­fis­ti­ca­da que os fun­da­do­res de Israel pre­ci­sa­vam muito que o mundo es­que­ces­se.

As opi­ni­ões emi­ti­das pela autora não ex­pres­sam ne­ces­sa­ri­a­men­te a po­si­ção edi­to­ri­al da Ma­ti­nal.

—Hanan Kattan

Hanan Kattan — Escritora, cineasta e comunicadora palestino-britânica.

Resenha

Ensaios sobre o invisível: uma análise da cosmologia como espelho da sociedade

Foto: Greg Rakozy

Quando nos de­pa­ra­mos com uma obra que se propõe a de­ba­ter a ciên­cia mo­der­na, a ten­dên­cia ha­bi­tu­al é es­pe­rar um livro clás­si­co de di­vul­ga­ção ci­en­tí­fi­ca, focado em tra­du­zir equa­ções com­ple­xas para o leigo em uma lin­gua­gem aces­sí­vel. En­sai­os sobre o in­vi­sí­vel – O livro zero da cos­mo­lo­gia, ideias, so­ci­e­da­de e o des­co­nhe­ci­do, do as­tro­fí­si­co Rei­nal­do Ramos de Car­va­lho (Edi­to­ra Mauad X), recusa essa fa­ci­li­da­de. Trata-se de uma obra que quebra pa­ra­dig­mas ao ten­si­o­nar e dis­sol­ver as fron­tei­ras e os com­par­ti­men­tos es­tan­ques que his­to­ri­ca­men­te se­pa­ra­ram as ciên­cias so­ci­ais, as cha­ma­das ciên­cias duras e até mesmo a di­men­são do in­cons­ci­en­te in­di­vi­du­al. Para nós, ha­bi­tu­a­dos ao rigor da cos­mo­lo­gia ob­ser­va­ci­o­nal e ao tra­ta­men­to es­tri­to de dados as­tro­fí­si­cos, ver um as­tro­fí­si­co de tra­je­tó­ria tão sólida avan­çar com co­ra­gem sobre o in­cons­ci­en­te e as ciên­cias so­ci­ais é um exer­cí­cio li­ber­ta­dor. Rei­nal­do de­mons­tra que olhar para as es­tre­las e olhar para dentro de nós per­ten­cem, afinal, ao mesmo mo­vi­men­to do pen­sa­men­to.

O tempo dirá se es­ta­mos diante de um clás­si­co, mas, para mim, que acom­pa­nho a tra­je­tó­ria do autor como colega de pro­fis­são e amigo, a obra já se es­ta­be­le­ce como um marco im­por­tan­te. O sub­tí­tu­lo, Livro zero da cos­mo­lo­gia, revela-se de­li­be­ra­do e pro­vo­ca­ti­vo: este não é o manual in­tro­du­tó­rio tra­di­ci­o­nal, mas sim aquilo que se de­ve­ria pensar antes mesmo de abrir o “ca­pí­tu­lo 1” de um curso con­ven­ci­o­nal da dis­ci­pli­na. Numa sín­te­se es­sen­ci­al, Rei­nal­do não in­ves­ti­ga apenas qual é a equa­ção, mas qual mu­dan­ça na ma­nei­ra humana de com­preen­der a Na­tu­re­za tornou essa equa­ção pos­sí­vel.

Essa abor­da­gem am­bi­ci­o­sa não surge por acaso. Rei­nal­do Ramos de Car­va­lho é um dos nomes cen­trais da as­tro­no­mia e da cos­mo­lo­gia ob­ser­va­ci­o­nal no país. Com gra­du­a­ção pela UFRJ, mes­tra­do e dou­to­ra­do pelo Ob­ser­va­tó­rio Na­ci­o­nal e pós-dou­to­ra­do no Cal­te­ch (Ca­li­for­nia Ins­ti­tu­te of Te­ch­no­logy), nos Es­ta­dos Unidos – onde tra­ba­lhou ati­va­men­te no pro­je­to Di­gi­ti­zed Pa­lo­mar Ob­ser­va­tory Sky Survey –, Rei­nal­do ini­ci­ou sua tra­je­tó­ria de pes­qui­sa no Ob­ser­va­tó­rio Na­ci­o­nal (RJ), mu­dan­do-se pos­te­ri­or­men­te para o Ins­ti­tu­to Na­ci­o­nal de Pes­qui­sas Es­pa­ci­ais (INPE), em São José dos Campos, São Paulo. Ex-pre­si­den­te da So­ci­e­da­de As­tro­nô­mi­ca Bra­si­lei­ra (2017–2020), pes­qui­sa­dor 1B do CNPq e atu­al­men­te pro­fes­sor na pós-gra­du­a­ção da Uni­ver­si­da­de Cru­zei­ro do Sul / Uni­ver­si­da­de Cidade de São Paulo, ele acu­mu­la mais de uma cen­te­na de ar­ti­gos nas re­vis­tas mais pres­ti­gi­a­das da área, so­man­do mais de 6 mil ci­ta­ções e um índice h de 46 (ADS). Líder de pro­je­tos de fôlego como o SPIDER (em co­o­pe­ra­ção com o Ob­ser­va­tó­rio As­tro­nô­mi­co de Ca­po­di­mon­te, na Itália), o autor traz para o ensaio a ba­ga­gem de quem domina as en­tra­nhas da cos­mo­lo­gia de ponta: o estudo da evo­lu­ção de ga­lá­xias e a es­tru­tu­ra em larga escala do Uni­ver­so.

Pela for­ma­ção do autor, seria na­tu­ral supor que o co­ra­ção do livro es­ti­ves­se focado es­tri­ta­men­te na ma­té­ria escura, na ener­gia escura ou na ex­pan­são ace­le­ra­da do cosmos. Embora esses con­cei­tos ocupem lugar de des­ta­que nos ca­pí­tu­los aber­ta­men­te cos­mo­ló­gi­cos da obra, o arco re­fle­xi­vo pro­pos­to por Rei­nal­do é imen­sa­men­te mais amplo. O que torna o em­preen­di­men­to de Rei­nal­do fas­ci­nan­te, e ao mesmo tempo au­da­ci­o­so, é a recusa em tratar con­cei­tos como en­tro­pia, re­la­ti­vi­da­de ou o cosmos escuro como meras ana­lo­gi­as or­na­men­tais. Em vez disso, o autor de­mons­tra como as fer­ra­men­tas con­cei­tu­ais e os li­mi­tes ci­en­tí­fi­cos de cada época moldam, de forma sub­ter­râ­nea, a psique in­di­vi­du­al, a or­ga­ni­za­ção do tra­ba­lho e as es­tru­tu­ras do poder. É uma ver­da­dei­ra lição de hu­mil­da­de on­to­ló­gi­ca: ao cons­ta­tar que 95% do cosmos nos é in­vi­sí­vel, a cos­mo­lo­gia mo­der­na nos força a en­ca­rar o des­co­nhe­ci­do não como uma falha pro­vi­só­ria do co­nhe­ci­men­to, mas como di­men­são cons­ti­tu­in­te da pró­pria exis­tên­cia.

O livro cons­trói um iti­ne­rá­rio fas­ci­nan­te: parte do Cosmos Antigo e da Rup­tu­ra Co­per­ni­ca­na, atra­ves­sa a me­câ­ni­ca e o ide­á­rio de pro­gres­so e con­tro­le da mo­der­ni­da­de, debate a ener­gia, o tra­ba­lho e a exaus­tão, passa pela "fábula do mais apto" e aborda a Re­la­ti­vi­da­de e a crise do ab­so­lu­to. Em se­gui­da, no ca­pí­tu­lo 7, mer­gu­lha no in­cons­ci­en­te e no in­vi­sí­vel – mo­men­to em que, como sin­te­ti­za o autor, deixa de ser na­tu­ral supor o "eu sei o que faço porque sei o que penso". Só então de­sa­gua no Uni­ver­so escuro, nos vazios cos­mo­ló­gi­cos, na me­di­ção, no valor, na fi­ni­tu­de e na sín­te­se final.

Ao re­cu­sar a se­pa­ra­ção es­tan­que entre ciên­cia e so­ci­e­da­de, o livro ar­ti­cu­la como as trans­for­ma­ções nas con­cep­ções cos­mo­ló­gi­cas ca­mi­nham lado a lado com as formas pelas quais or­ga­ni­za­mos a ex­pe­riên­cia humana — do poder e dos li­mi­tes ao tra­ba­lho e aos va­lo­res so­ci­o­cul­tu­rais. Há aqui uma tese pro­fun­da e pro­vo­ca­ti­va: a ma­nei­ra pela qual cons­tru­í­mos uma imagem do Uni­ver­so e a ma­nei­ra pela qual cons­tru­í­mos a imagem de nós mesmos per­ten­cem, em última aná­li­se, à mesma his­tó­ria in­te­lec­tu­al. Como as­si­na­la o pró­prio Rei­nal­do:

[...] “o in­vi­sí­vel mo­der­no muda, então, de po­si­ção. Não é só a le­gi­ti­ma­ção social do método, nem apenas a imagem da má­qui­na como ordem. É a dis­si­pa­ção como com­pa­nhei­ra cons­tan­te de toda po­tên­cia”.

Diante de uma lei­tu­ra si­mul­ta­ne­a­men­te atra­en­te e ins­ti­gan­te, o leitor é con­vi­da­do a me­di­tar sobre ques­tões fun­da­men­tais: onde o autor faz his­tó­ria da ciên­cia, onde faz cos­mo­lo­gia es­tri­ta, onde entra a fi­lo­so­fia e, so­bre­tu­do, até que ponto as ana­lo­gi­as entre ciên­cia e so­ci­e­da­de são his­to­ri­ca­men­te jus­ti­fi­cá­veis ou re­pre­sen­tam belas cons­tru­ções con­cei­tu­ais feitas re­tros­pec­ti­va­men­te?

Essas são pro­vo­ca­ções e ob­je­ções pro­ce­den­tes que tornam a obra um con­vi­te ur­gen­te ao debate — ques­tões fas­ci­nan­tes sobre as quais con­vi­do o futuro leitor a me­di­tar e que cer­ta­men­te con­ti­nu­a­rão a ali­men­tar con­ver­sas en­ri­que­ce­do­ras com o pró­prio autor.

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Luís Au­gus­to Fis­cher, editor da re­vis­ta Pa­rên­te­se, en­tre­vis­tou Ho­rá­cio Dot­to­ri em 2021. Leia aqui.
As opi­ni­ões emi­ti­das pelo autor não ex­pres­sam ne­ces­sa­ri­a­men­te a po­si­ção edi­to­ri­al da Ma­ti­nal.

—Horacio Dottori

Horacio Dottori — Professor emérito de Astronomia da UFRGS.

Crônica

O tempo e o retorno

Foto: Acervo da autora

Fui vi­si­tar a Serra da Ca­pi­va­ra. Foi fas­ci­nan­te ver a arte ru­pes­tre feita há cerca de 50 mil anos, pelo homem mais antigo da Amé­ri­ca do Sul, im­pres­sa em pa­re­dões de are­ni­to de 400 mi­lhões de anos.

No ca­mi­nho de volta para casa, em Pe­tro­li­na, me dei conta de que estava muito perto de Poço de Fora, vi­la­re­jo sede do pro­je­to de pes­qui­sa sobre cobre, onde tra­ba­lhei e vivi por sete anos, na década de 1970. 

Minha von­ta­de de voltar para esse lugar era antiga e sempre acom­pa­nha­da por muitas dú­vi­das. Era um querer não que­ren­do. O que eu es­pe­ra­va en­con­trar depois de 50 anos? Afinal, não se volta a lugar nenhum, assim como não se bebe duas vezes a mesma água de um rio. A pessoa muda, as cir­cuns­tân­cias e o tempo também. Ele não volta. Mas, como estava perto e talvez fosse essa a minha última opor­tu­ni­da­de na vida, re­sol­vi ir.

Voltei a Poço de Fora. Voltei? Sei não. O lugar será o mesmo depois deste tempo todo? Cer­ta­men­te não. E a pessoa? Cin­quen­ta anos é uma vida. O que a vida fez com ela neste tempo? A trans­for­mou em outro ser. Também o povo da vila, aque­les que ainda es­ti­ve­rem vivos, devem estar muito mu­da­dos. 

Re­lem­bro a letra de Sabiá, do Chico Bu­ar­que, que des­cre­ve muito bem esse sen­ti­men­to:

Vou voltar

Sei que ainda vou voltar

Para o meu lugar

Foi lá e é ainda lá

Que eu hei de ouvir cantar

Uma sabiá

Vou voltar

Sei que ainda vou voltar

Vou deitar à sombra

De uma pal­mei­ra que já não há

Colher a flor que já não dá

Depois de muito he­si­tar, fui.

Não che­guei pela es­tra­da, pas­san­do pela ca­pe­li­nha e atra­ves­san­do o riacho do Poço, sempre seco. Como um car­ca­rá, voei acima da serra cha­ma­da de Al­gui­da­res nos mapas, serra do Poço pelo povo, ou si­e­ni­to de Itiúba pelos ge­ó­lo­gos. 

A in­ten­ção era subir até a meia en­cos­ta e ob­ser­var a vila desde a “toca dos an­ti­gos”, cheia de fi­gu­ras ru­pes­tres. Sabia que a subida seria di­fí­cil. Já era quando eu tinha vinte e poucos anos. Como antes, fui so­zi­nha. Quando os blocos soltos co­me­ça­ram a di­fi­cul­tar a subida, Di­a­do­rim, com seus olhos verdes, veio me ajudar. Es­ten­deu sua mão de­li­ca­da que acei­tei – só porque era dele. Ainda não cos­tu­mo acei­tar este tipo de ajuda. 

Depois de uma subida árdua, nos equi­li­bran­do em blocos soltos de si­e­ni­to e nos es­qui­van­do dos es­pi­nhos dos pés de can­san­ção e favela, che­ga­mos lá. 

– A vida nos pede co­ra­gem, disse ele.

Sen­ta­mos na en­tra­da da toca, de onde se via toda a vila de Poço de Fora, as es­tra­das de terra e a BR-235, agora as­fal­ta­da. Ao longe, o ser­ro­te da Ca­ra­í­ba seguia im­pá­vi­do, cer­ca­do por uma nuvem de poeira da mina de cobre, até hoje em ex­plo­ra­ção. No ho­ri­zon­te azul se di­vi­sa­vam os con­tor­nos da serra da Ja­co­bi­na, for­ma­da quando o pla­ne­ta Terra ainda era jovem, há 3,4 bi­lhões de anos.

Des­can­san­do o olhar da luz bri­lhan­te do sol, olho para dentro da toca onde vejo as pa­re­des e o teto do si­e­ni­to de dois bi­lhões de anos, de­co­ra­dos com cír­cu­los con­cên­tri­cos ver­me­lhos, e os con­vi­tes eró­ti­cos dos pés de ema de nossos an­te­pas­sa­dos, feitos há cerca de 50 mil anos. Cá estou eu com minhas me­mó­rias de 50 anos. O que são elas? Nada. Mas é o meu tempo. O tempo do ser humano, cheio de dú­vi­das, an­gús­tias e de­cep­ções. 

Não acho con­ve­ni­en­te com­par­ti­lhar minhas afli­ções com Di­a­do­rim. Dentro de sua bruma, ele nota a nuvem no meu olhar e tenta me animar mos­tran­do as flores bran­cas, recém-aber­tas, do man­da­ca­ru, e as azuis das ca­be­ças de frade cres­cen­do no meio das rochas. Chama minha aten­ção para as ca­rai­bei­ras co­ber­tas de flores ama­re­las, ali­nha­das ao longo das mar­gens de um riacho seco, me­an­dran­do ao longe.

Aos pés da toca está a vila, com a praça qua­dra­da e as ruas tortas que ainda saem dos quatro vér­ti­ces, agora todas elas pa­vi­men­ta­das. As casas que eram pin­ta­das de di­ver­sas cores têm agora suas fa­cha­das co­ber­tas por ce­râ­mi­ca de cores pastel. Um pe­que­no mer­ca­do livre foi cons­tru­í­do numa rua la­te­ral. A praça está ar­bo­ri­za­da, e há duas igre­jas e três far­má­cias. A ta­ma­rei­ra do seu Zi­zi­nho, da far­má­cia, morreu.

O pro­gres­so chegou. Uma mureta de con­cre­to, cons­tru­í­da entre os dois mor­ro­tes da serra, re­pre­sa o riacho do Poço num açude bem grande. A po­pu­la­ção não au­men­tou, é ainda por volta das 500 almas, mas hoje tem água abun­dan­te e luz elé­tri­ca. A vida deve ter me­lho­ra­do.

Re­sol­vo entrar na vila. A es­tra­da de terra ainda é a mesma, com a ca­pe­li­nha na bar­ran­ca do riacho seco. Foi res­tau­ra­da re­cen­te­men­te. Nossa casa-es­cri­tó­rio está lá, me es­pe­ran­do na rua de en­tra­da. Não há mais o buriti no jardim nem as marias-sem-ver­go­nha co­lo­ri­das em volta do portão. A casa, com ja­ne­las e portas cer­ra­das, tem a fa­cha­da re­ves­ti­da por ce­râ­mi­ca bege, e perdeu seu ar alegre, dado pelo verde bri­lhan­te an­te­ri­or. 

Paro no bar da es­qui­na, ainda pin­ta­do de ama­re­lo e com suas quatro portas e ne­nhu­ma janela. No escuro está seu De­dil­son, sen­ta­do numa ca­dei­ra de plás­ti­co e olhan­do para o teto. Me re­co­nhe­ce e faz uma festa enorme. Chama a mulher para me ver. Abra­ços. Vou até a sua casa e tomo um ca­fe­zi­nho muito doce.

Sigo até a Casa Rosa, a venda de ma­te­ri­al de cons­tru­ção do Zé Valdo, nosso antigo pre­pa­ra­dor de amos­tras, re­la­ções pú­bli­cas e cor­reio am­bu­lan­te na década de 70. Não me re­co­nhe­ce logo. Ao des­co­brir quem o visita, chama toda a fa­mí­lia. Sua mulher me in­for­ma que ele já está va­ri­an­do da cabeça, aos 78 anos.

Saio para dar uma volta na praça. Ir­re­co­nhe­cí­vel, agora pa­vi­men­ta­da e ar­bo­ri­za­da.

Numa es­qui­na en­con­tro a pro­fes­so­ra Railda, que dava as aulas numa peça de chão batido, onde as cri­an­ças sen­ta­vam no chão. Ela está forte e lúcida nos seus 83 anos. Es­cre­veu um livro sobre a vila, in­ti­tu­la­do Raízes, to­tal­men­te es­go­ta­do. Me relata sobre o seu mes­tra­do em Agro­e­co­lo­gia, cur­sa­do em Pe­tro­li­na há muitos anos. Conta que, dos 40 em­pre­ga­dos da em­pre­sa nos anos 70, só dois estão vivos: João, mo­to­ris­ta, com Alz­hei­mer, e Zé Valdo, es­que­cen­do tudo.

O tempo não é o mesmo para todos. Depois de 50 anos, só en­con­tro duas pes­so­as co­nhe­ci­das vivas e lú­ci­das.

Saio de lá mais triste do que alegre.

Di­a­do­rim me repete que a vida nos pede co­ra­gem.

As opi­ni­ões emi­ti­das pela autora não ex­pres­sam ne­ces­sa­ri­a­men­te a po­si­ção edi­to­ri­al da Ma­ti­nal.

—Zara Gerhardt

Zara Gerhardt — Geóloga aposentada, é autora de Causos do Brasil profundo (2019) e Mais causos do Brasil profundo (2022), ambos pela editora Bestiário/Class, livros em que narra sua vivência profissional no sertão baiano e pelo Brasil afora.

Fim da edição #350

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