“Sabemos, em teoria, que a Terra gira, mas na prática não percebemos. O chão por onde caminhamos não parece se mexer, então vivemos tranquilos. É assim com o tempo.” (À Sombra das Moças em Flor)
Quando foi que você percebeu que o chão da sua vida estava se movendo, ou melhor, que o tempo estava passando? Lembro de dois momentos absolutamente aleatórios. Aos 13, conversando com uma amiga, me ocorreu que eu já não era criança – ou pelo menos não 100% criança. Aos 24, me dei conta, talvez com algum atraso, que eu já era uma mulher feita e não mais um projeto inacabado de adulto. Não lembro o que causou essas oscilações repentinas no sismógrafo da vida, apenas que nas duas ocasiões eu estava na rua, caminhando – ou seja, como o tempo e o planeta, eu também estava em movimento.
Para o narrador de Em Busca do Tempo Perdido, essa espécie de batismo na história ocorre na adolescência, depois da visita do Sr. Norpois à casa dos seus pais. Narrado no começo de À Sombra das Moças em Flor, esse primeiro encontro com um homem considerado “cosmopolita” (o amigo do seu pai era diplomata e supostamente culto) arranca Marcel do conforto de algumas de suas certezas.