Confira todos os textos da edição #311
- Se quiser entender a história do povo negro, é preciso atentar para as manifestações culturais negras, por Raphaela Donaduce Flores
- Djalma do Alegrete: “O último abacaxi que lancei na sociedade de consumo internacional” – Parte I, por Jandiro Koch
- Personagens de uma vida: Luís Gomes, Juremir Machado da Silva
- Histórias de Autógrafos: Ruy Carlos Ostermann em “A paixão do futebol", por Carlos Gerbase
- O povo de religião em filme: uma entrevista com Carlos Caramez, por Luís Augusto Fischer
- Medir em palavras as coisas humanas, por Helena Terra
- Da roça ao Planalto, por Nubia Silveira
- 1902: Uma litografia a cores no relatório dos comerciários, por Arnoldo Doberstein
- A medida das coisas humanas: capítulo I, por Helena Terra
Apesar do frio, o sol sobre o presídio é como o que a gente deseja que passe sobre Porto Alegre, os amigos e as plantas quando elas estão meio caídas. Não que dê para se comparar as duas formas de estar no mundo, mas dentro de um sistema imaginativo de que também fazemos fotossíntese para sobreviver, eu gosto de pensar em clorofila e na cor verde como uma resposta ou saída a tudo o que nos desbota e descolore. Eu gosto de verde. De todos os tons. Mas hoje me vesti dos pés à cabeça de preto. Não, dos pés ao pescoço, porque esqueci de perguntar, na última troca de mensagens com a assistente social, se eu poderia usar um boné ou um gorro nesse primeiro encontro presencial com a direção.
Portanto, cheguei sem nada na cabeça, com esse aspecto opaco. Meus cabelos perderam o azul-marinho aveludado da infância que minha mãe tanto elogiava, ainda mais nos verões de frente para o rio, em que ela me chamava ora de filhote de orca sem gordura ora de negativo de fotografia. Na época, eu até achava engraçado. Da adolescência para cá, desapareceram essa graça e a vontade de ter o meu sorriso registrado. O amarelo, então, nem se fala. Por sorte, nenhum será feito enquanto eu estiver dando aula ou algo parecido com isso. Não sou professora, e elas não são alunas. São mulheres privadas de liberdade precisando de atividades que as ajudem a passar o tempo e a melhorar, se é que isso é possível em um mundo praticamente invisível.
Talvez esse seja o meu maior desafio. Até agora, nada do que fiz precisou se manter em segredo ou oculto, com exceção de um que outro namorico. Meu passado com os homens quase me condena. Já esse projeto de leitura e escrita literalmente entre quatro paredes me eleva. Posso falar sobre ele desde que mantenha um tratamento, de certa forma, discreto ou ficcional ou imaterial. Comigo, poderei carregar lápis de escrever e anotações em folhas de papel. Celular nem sob a mira de um revólver. No caso, de pistolas. Antes de todos os encontros, serei revistada por uma agente prisional. Sabe aquela coisa de abrir os braços e as pernas, virar de costas, de frente de novo, responder de que se trata se o detector de metais apitar? Pois é: terei de humildemente me submeter. O que não é ruim. Como a maioria das pessoas, também preciso de um espinho de laranjeira no bolso para espetar o ego.