Pular para o conteúdo

PUBLICIDADE

A medida das coisas humanas: Capítulo IV

Parêntese #314

A medida das coisas humanas: Capítulo IV
Foto: Liana S/Unsplash

Rodrigo me pediu para te perguntar por quanto tempo você vai seguir com esse projeto no presídio, Tati diz, mexendo num cantinho de unha. Soube que a mulher de um chefe do tráfico de drogas foi ou está para ser transferida para lá e parece que foi ele quem a prendeu. Prisão fácil no instante em que ela chegava em um salão de beleza na Tristeza. Só Porto Alegre para ter um bairro com um nome desses. Rodrigo gosta de trancafiar pessoas. Fica feliz. À própria mãe, não que ela não mereça, pelo menos a língua deveria ser presa, ele manteve chaveada durante um domingo inteiro quando tinha treze anos. Segundo sua sapiência, por brincadeira e para mostrar a ela o quanto ele estava crescido. Rodrigo é do time que pensa que tamanho é documento. 

Quando o conheci, eu usava a minha sandália de salto mais alto. Onze centímetros. Quase não a comprei. Precisei dar uma volta no shopping para me decidir. De alguma forma, sabia que eu estaria fazendo uma propaganda enganosa sobre minha estatura, foi disso que Rodrigo me acusou, usando-a, mas acontece e, quando vem um ‘mas acontece’ sempre é uma bobagem, é que antes eu havia visto um vestido longo na vitrine de uma loja de grife, caríssimo, e, sabe-se lá por quê, havia pensado que ele me transformaria em um mulherão. Tinha me sentido como um e seguiria me sentindo se o atendente, me olhando pelo espelho, não tivesse dito: “Se você tivesse uns dez centímetros a mais, o vestido te cairia bem”. Que burro!, na hora pensei, embora ele tivesse razão.