Confira todos os textos da edição #319
Elis Regina, 81, por Antônio Schimeneck
Cony 100 anos – A entrada no mundo, por Marina Ruivo
Um ficcionista indispensável, por Sergius Gonzaga
A imagem perdida, por Sergio Faraco
Era Lisboa e chovia, por Ivan Pinheiro Machado
Quino, a ditadura e além – dados sobre um pessimista atemporal, por Vinícius Rodrigues
Fases da vida: saudades imaginárias, por Juremir Machado da Silva
Legião Urbana: o extraordinário nada de mais, por Paulo Damin
É só Rock Gaúcho... mas foda-se!, por Arthur de Faria
A medida das coisas humanas – Capítulo IX, por Helena Terra
“A professora Paula levou um fora?”, Rita pergunta, interrompendo a leitura que faço de um poema. “A professora não está com boa cara hoje”, diz. As outras mulheres levantam os rostos e me miram como se eu fosse um alvo de dardos. Talvez ainda não tivessem percebido o meu aspecto ruim. De manhã, escovando os dentes, me senti vinte anos mais velha. Meus cabelos, mesmo eu tendo usado meu melhor condicionador, estão opacos. Se tivessem sentimentos, eu diria que tristes. O silêncio de Tati abala o meu bem-estar. Enviei mais mensagens a ela. Telefonei. E nada. Pensei em ir até sua casa. Não sei se não tem o dedo de Rodrigo nisso tudo. Depois que ele me disse que poderia fazer o que bem quisesse, por impulso, o bloqueei nas redes sociais, arrependendo-me em segundos, mas voltar atrás seria ainda pior.
“A Paula não quer falar sobre o que está pegando?”, Rita pergunta, dessa vez, de um jeito mais terno, esforçando-se com o português. “Ou escrever sobre”, ela completa. As outras riem, dizendo, mais ou menos ao mesmo tempo, que ela está falando fino, copiando o meu jeito de falar. Aí, também dou uma risada. No presídio, se ri pouco. Penso em O Nome da Rosa e no quanto ele ecoou em minha adolescência. E se Aristóteles tivesse escrito mesmo um livro sobre o riso, teria a civilização ocidental tomado um rumo menos amargo? O riso como um bem, um patrimônio, mudaria a nossa índole?
Olho para o grupo, todas tentando não cair da própria altura, umas com falhas graves de caráter, e penso que a linha que nos separa é frágil. O fato de eu ter chegado até os trinta e cinco anos sem ter cometido um crime depende menos de mim do que de minha circunstâncias. Se, como em um filme, eu tivesse trocado de corpo com qualquer uma delas, com exceção das de sangue frio, e tivesse também sido criada em meio a privações, espancamentos e estupros, a minha boa natureza poderia ter ido pelo ralo. Dentro da prisão, quem ainda a tem está sempre a um átimo de perdê-la. Umberto Eco não acharia as instalações de um presídio brasileiro muito diferentes das masmorras medievais e riria, desesperado, do palco que está sendo montado para o show de André.