Confira todos os textos da edição #308
Diário da guerra do sono: Capítulo VIII – Um plano, por Cristiano Fretta
A Ópera do Malandro, por Luís Augusto Fischer
Centenária: Maria, vó minha – Capítulo 10, por Tiago Maria
Qual é, Nano Gross?, por Juremir Machado da Silva
A última carreira do ano, por Carlos André Moreira
O grande encontro, por Abrão Slavutzki
O que está acontecendo com o cinema de horror?, por Matheus Cenachi
Orçamento Participativo federal é possível?, por Álvaro Magalhães
A felicidade é consequência, por Alexandre Silva
Imagino que ocorra o mesmo com todos, mas dezembro costuma ser aquele mês em que, à medida que outro ciclo anual se encaminha para o fim, me pego dando um último gás na leitura de livros que deixei incompletos por vários motivos ao longo do ano. Um dos motivos é a indivisibilidade do tempo. Não são poucos os leitores que confessam ler em simultâneo dois, três, por vezes mais livros. Só que o “simultâneo” ou “ao mesmo tempo” que usamos – sim, eu também – para esse tipo de confissão é mais uma imagem do que uma realidade. Lemos “em simultâneo” dois ou três livros ao longo de uma determinada janela de tempo, mas a leitura, o ato mesmo de ler, só admite dedicação imediata. Você pode alternar entre leituras ao longo de uma ou duas semanas, mas sempre que estiver lendo um livro, lerá aquele livro e mais nenhum outro. Imagino que essa seja a principal catástrofe que vem ocorrendo na capacidade geral de leitura com o advento da moda da “segunda tela”. Você até pode passear os olhos por duas atrações audiovisuais ao mesmo tempo, mas qualquer leitura que fizer alternando a mirada entre a TV ou o celular e as páginas será um desastre ao fim do qual talvez você não tenha retido nada do que leu.
Mas enfim, o fim de ano se aproxima, a gente sai catando os livros deixados incompletos tentando terminar a leitura antes que termine o ano. Às vezes há um motivo pragmático: os livros foram emprestados (como alguns mencionados neste texto) e você não quer devolver sem ter lido. Outras vezes, essas carreiras de última hora parecem se dar em meio a um espírito que considero não apenas chato, mas insuportável, o da “gamificação” da vida. A gamificação, técnica muito usada nas redes sociais para garantir sua navegação contínua, consiste em dar a tudo o significado simbólico de um desafio ou tarefa a ser cumprida. É um dispositivo comum nos videogames em que você passa horas adicionais recolhendo tranqueiras que não fazem diferença alguma na progressão do jogo e de sua narrativa, mas te permitem escolher uma nova aparência (a gurizada diz “skin) para o personagem, por exemplo.
Ou um distintivo a ser exibido numa lista de realizações. O que chama a atenção na gameficação é como ela consegue fazer alguém dedicar um trabalho intenso em troca de uma recompensa em tudo simbólica. Ao menos a antiga coroa de louro das Olimpíadas era um objeto material. Hoje, você ganha anotações estatísticas num ambiente online.
Com as redes sociais transformadas parte em vitrine pessoal e parte em veículo noticioso individual, tudo ganha ares de “gamificação”: você posta as leituras do ano numerando os livros, você estabelece “desafios” em redes como o Goodreads, você lista os filmes vistos no Letterbox’d, tentando superar os números do ano anterior. É um tipo de abordagem que transforma fruição em dever de casa e desperdiça o que há de mais precioso no potencial verdadeiramente libertário da cultura: a possibilidade radical de ela não ter nenhuma utilidade direta e imediata.
Embora um crítico desse hábito, também me pego várias vezes fazendo isso, e é essa a razão pela qual desejo a todos nós um 2026 nem tanto de mais, mas de melhores leituras. Mais completas e menos numéricas. Mais desafiadoras do que desafios.