Confira todos os textos da edição #314
- A alegre democracia de distinções interseccionais: viva o carnaval!, por Jairo Ferreira
- Quando o carnaval passar, por Juremir Machado da Silva
- Ele não poderia ter deixado de ir, por Paulo Coimbra Guedes
- O “le-lo-lai” do Bad Bunny é o nosso sapucay, por Clarissa Ferreira
- O manifesto de um espetáculo, por Chris Cidade Dias
- Natalia Ginzburg: uma leitura sobre a experiência, por Caroline Lima
- Apolinário e Esmê, um romance coletivo, por Jorge Benitz
- Histórias de Autógrafos: Michel Houellebecq em “Submissão”, por Carlos Gerbase
- Camborianga, por Álvaro Magalhães
- A medida das coisas humanas: Capítulo IV, por Helena Terra
A Prefeitura de Porto Alegre apresentou um projeto de transformação urbanística da Avenida Ipiranga e seu entorno batizado de “Regenera Dilúvio”. O nome sugere um processo de despoluição do arroio cujo canal passa em meio à avenida. Mas não se trata exatamente disso e sim a proposta de incremento do uso intensivo do solo da área contígua ao curso d'água, que deve provocar uma verticalização extrema da região.
O Arroio Dilúvio está poluído há décadas, é fato. Não há tratamento adequado aos efluentes líquidos aí depositados, sejam os domésticos ou das atividades de comércio e serviço de uma grande região da cidade. Grande parte deles é jogada no arroio, misturado à água da chuva recolhida. Porém, se fosse esse o problema principal a ser atacado pelo projeto, os tratamentos deveriam ser iniciados de cima para baixo, ou seja, tratar dos lançamentos das águas próximas às nascentes e ir baixando até a foz, junto ao Guaíba. O caminho proposto pelo “Regenera Dilúvio” é o contrário, dos bairros mais a oeste da Ipiranga em direção ao leste. Inicia pelas áreas com maior potencial de atração de investidores privados. Parece contraditório, não?
Utilizando-se da figura jurídica da Operação Urbana Consorciada, o projeto pretende conceder liberdade quase total aos agentes do capital imobiliário de construírem prédios sem limites de altura. O valor arrecadado pela prefeitura por meio de leilões das concessões servirá para financiar a construção de um parque linear ao longo da avenida e algumas outras melhorias, entre elas a construção de dois grandes coletores que conduziriam parte dos dejetos para a estação de tratamento localizada na zona sul da cidade. Há previsão de melhorias pontuais na estrutura viária e nas alternativas de transporte coletivo, não sendo possível garantir a absorção da carga adicional advinda da maior densidade de ocupação.