Confira todos os textos da edição #307
- Serranos na várzea – Parte 5, por Geraldo Hasse
- Enchente e apagão no Rio Grande: crises bem diferentes entre si, por Álvaro Magalhães
- Lutz e o Pampa, por Lilly Lutzenberg
- Carta para Juliana, por trabalhadoras da Rede de Atenção Psicossocial (RAPS)
- O pinochetismo volta para La Moneda, por Alexis Cortés
- José Amaro: dândi, flâneur e tenor pelotense, por Jandiro Koch
- O bug, as formigas e a merdificação da internet, por Beatriz Marocco
- Porto Alegre, 1900: a criação da Faculdade Livre de Direito e a presença de magistrados nordestinos como professores, por Arnoldo Doberstein
- Cicatrizes da rua, por Luís Augusto Fischer
- Rimbaud retraduzido, por Juremir Machado da Silva
- Mulher a caminho, por Helena Terra
- Diário da guerra do sono: Capítulo VII – Homem de palavra, por Cristiano
“Quando o indizível vem à luz, ele é político” (Annie Ernaux)
Porto Alegre, 09 de dezembro de 2025: Na noite de ontem, uma mulher foi achada morta, seminua dentro de uma lixeira no bairro São João, na zona norte de Porto Alegre (RS)
No dia seguinte às manchetes nos jornais, ficamos lembrando daquelas que há alguns dias ou semanas não apareciam no nosso serviço. Com o silêncio sustentando as trocas de olhares, nos perguntávamos: será que foi a Jéssica? A Maria? A dona Dulce? A Shayanne? De alguma forma, o teu nome, identificado dois dias depois, não surgiu na nossa lista prioritária: Juliana da Silva Dias, 44 anos. Isto porque, Juliana, ainda está fresca a memória de tua despedida no serviço, dias antes, dançando e dizendo: “Hoje eu tô bem, então vou indo… Tenho que caminhar”. Mas agora, lembrando de ti, o que fica é silêncio – porque nenhuma palavra é suficiente.
A gente sabe, a gente sente e necessita dizer algo, mas há dias que por aqui palavra alguma conseguia sair da gente. Até que a literatura, encontrada em um trecho do Filho de Mil Homens, bate à porta para nos soltar a palavra:
“A Isaura acreditava naquilo como algo de mulher sozinha. Inventava o resto. O resto era só medo. Ainda não sabia se medo de perder o pouco que recebia agora, ou medo de ser devorada de uma vez por todas e não poder ir mais longe. Por instinto, queria ainda sobreviver, nem que fosse apenas pra morrer mais tarde”.
Juliana. A crueldade da tua morte acordou nosso medo.
Somos mulheres, cuidadoras, preparadas para o cuidado em saúde no SUS, mas tudo isso nos dói tanto, que te escrever não foi possível no singular. Tu não está mais aqui pra contar a tua história e o que nos resta é, juntas, colher nossas memórias do cotidiano para produzir algo que apenas a escrita e a literatura podem fazer existir e acontecer.