Confira todos os textos da edição #308
Diário da guerra do sono: Capítulo VIII – Um plano, por Cristiano Fretta
A Ópera do Malandro, por Luís Augusto Fischer
Centenária: Maria, vó minha – Capítulo 10, por Tiago Maria
Qual é, Nano Gross?, por Juremir Machado da Silva
A última carreira do ano, por Carlos André Moreira
O grande encontro, por Abrão Slavutzki
O que está acontecendo com o cinema de horror?, por Matheus Cenachi
Orçamento Participativo federal é possível?, por Álvaro Magalhães
A felicidade é consequência, por Alexandre Silva
A vó na casa da mãe. O ano do coiso. Pandemia mundial.
A vó não vive das memórias. Não é nostálgica, nem romantiza época alguma da vida. Antes pelo contrário. Em nossa última prosa…última, não, refaço. Nossa prosa mais recente, teve costuras filosóficas, café com leite e rapadura de amendoim, as favoritas da vó. Descobri que pra ela, quem vive de memória, “na verdade, na verdade, meu filho”, reconhece que está é morto para o presente e se alimenta do passado na esperança de torná-lo cada vez mais valioso. “Viver só de memória é uma admissão de covardia, rapaiz, atestado de preguiça de viver, um reconhecimento de derrota”. A vó rememora hoje o passado, mais com o esforço da imaginação do que com a precisão das lembranças. “Tu vê só, já vai fazer dez anos que eu moro aqui com o teu pai e a tua mãe”. Foi mesmo em 2016, já com seus 90, que ela deixou a casa onde viveu por mais de cinquenta anos. “Dez anos passa muito rápido, rapaiz, de dez em dez se vai aos cem. Mas não é uma linha reta, meu filho, escuita bem, a vida vai anssim: pra cima e pra baixo, pra cima e pra baixo…”
Lembro que teve todo um envolvimento para convencer a vó a deixar a casa da Vidal Barbosa. Mesmo com os pequenos acidentes devido a falta de visão, as quedas cada vez mais frequentes, em função da mobilidade reduzida e o uso do andador. A vó não admitia “ter que depender dos outros agora, onde já se viu, virei um estorvo”. Com muito custo, aceitou morar na casa dos meus pais, no quartinho dos fundos, que um dia foi meu. Pergunta com frequência sobre o aluguel das casinhas, quem tá cuidando do pátio. “Aquilo deve tá virado numa tapera sem dono que eu quero que tu vá lá e veja…”. Digo que tem gente cuidando, mas que precisaram arrancar as goiabeiras. Apodreceram com as águas da enchente, vó. “E água mata árvore agora, rapaiz, conta outra… Não querem é ter trabalho com nada. Como é que eu criei seis filho, trabalhava pra fora e meu terreno era sempre limpo, bem varrido. Os canteiro tudo com verdura aos monte, funcho, arnica, um pé de araçá, a pitangueira, o butiazeiro...”. Na verdade, na verdade, é isso mesmo, arrancaram as goiabeiras porque “fazia uma sujeirama, aquelas praga” e demadavam tempo, cuidado e a atenção que exigem as coisas vivas.