Confira todos os textos da edição #321
- Entre o Mundo e Eu – Capítulo I, por Marlon Pires Ramos
- Marlon Pires Ramos, entre sorrisos e lágrimas, por Luís Augusto Fischer
- Vida na Pinguela, por Luís Augusto Fischer
- Todas as artes juntas, e mais uma, por Alfredo Fedrizzi
- Porto Alegre, 1911: A árvore e seu monumento, uma inutilidade ou algo mais?, por Arnoldo Doberstein
- As velhas e suas falas, por Fernando Seffner
- Tempo de fúria e desmedida, por Juremir Machado da Silva
- O rock gaúcho – Parte III, por Arthur de Faria
- Com rima e sem solução: ato, fato e Pilatos, por Homero Vizeu Araúho
- A vida retoma o ritmo – e as leituras que se adaptem, por Carlos André Moreira
- Cordel do Corte Raso, por Gonçalo Ferraz
Quando ocorreu o relançamento, em 2004. de O ato e o fato, de Carlos Heitor Cony, quarenta anos depois de sua publicação original, já havia algum debate sobre a cena da resistência imediata ao golpe militar de 1964. No calor da hora Cony destacou-se na crítica ao que chamou de quartelada, isto num quadro em que muitos intelectuais e políticos ainda saudavam a intervenção militar como uma resposta, talvez excessiva, mas defensável, devido à radicalização política e à suposta zoeira administrativa do governo João Goulart. Para Cony não havia desculpa ou argumento para o arbítrio e para o cerceamento das liberdades, daí sua implacável campanha nas crônicas publicadas no jornal carioca Correio da Manhã. Desta defesa desassombrada em favor da liberdade saiu a coletânea que compõe O ato e o fato, com o título referindo diretamente o ato institucional que danou o país e estabeleceu o regime.
Não havia censura oficial à imprensa, e o livro foi lançado sem mais. Na minha antiga edição havia uma fotografia da multidão presente ao lançamento e uma vinheta anunciando de que se tratou da primeira “manifestação civil espontânea contra o regime militar”. Cony, até então um cronista razoavelmente lírico e apolítico, tornou-se um sucesso nos arraiais progressistas ao partir para a crítica e para o panfleto. Mas Cony é basicamente um feroz individualista, avesso a qualquer tentativa de arregimentação e capaz de captar com rapidez a ideia consensual para emitir, assim que possível, sua opinião divergente. Assim, o autor prosseguiu sua carreira de ficcionista e jornalista combinada à disposição crítica sempre aguerrida que já lhe garantiria prisão antes mesmo do AI-5, que só veio no final de 68.
O caldo entornou em 1967, quando Cony lançou Pessach: a travessia. No romance, Paulo Simões, escritor cuja biografia se confundia com a de Cony, acaba envolvido contra a vontade em uma desastrada e desastrosa aventura guerrilheira contra o regime militar. Boa parte do público progressista recebeu o livro como ofensa pessoal, por apresentar combatentes de esquerda capazes de sacrifícios heroicos e de sordidez arrematada. O autoritarismo de uns e outros era simplesmente uma regra do jogo imposto pela ditadura militar, logo não ofendia ninguém, era antes um elogio à disciplina dos guerrilheiros. Ruy Castro anotou que o narrador Paulo Simões, além de ostentar o desencanto e ceticismo típico dos narradores do autor, fazia 40 anos em 14 de março de 1966, como Cony, além de ser romancista carioca, desquitado e vinculado a um editor comunista, tal como Cony, que era editado pelo mítico Ênio Silveira, comunista e bonachão, dono da editora Civilização Brasileira.