Confira todos os textos da edição #311
- Se quiser entender a história do povo negro, é preciso atentar para as manifestações culturais negras, por Raphaela Donaduce Flores
- Djalma do Alegrete: “O último abacaxi que lancei na sociedade de consumo internacional” – Parte I, por Jandiro Koch
- Personagens de uma vida: Luís Gomes, Juremir Machado da Silva
- Histórias de Autógrafos: Ruy Carlos Ostermann em “A paixão do futebol", por Carlos Gerbase
- O povo de religião em filme: uma entrevista com Carlos Caramez, por Luís Augusto Fischer
- Medir em palavras as coisas humanas, por Helena Terra
- Da roça ao Planalto, por Nubia Silveira
- 1902: Uma litografia a cores no relatório dos comerciários, por Arnoldo Doberstein
- A medida das coisas humanas: capítulo I, por Helena Terra
Ainda estávamos fechados, sem poder expor o nariz para fora de casa, em razão da covid-19, quando o cientista político Benedito Tadeu César me apresentou Marlise Fernandes, durante uma reunião virtual. O amigo comum ressaltou que ela era feminista e ativista histórica do Movimento das Margaridas, como ficou conhecido o grupo de mulheres do campo que, nos anos 1980, deu início a uma grande luta: a de que o Estado (Rio Grande do Sul) reconhecesse sua condição de trabalhadoras rurais e o seu direito à aposentadoria.
Naquela reunião, como diria Donald Trump, deu liga. Não a liga falsa, alardeada pelo norte-americano, mas a autêntica, que se transformou em amizade e admiração. Tínhamos encontros online todas as semanas. Sempre calma e afável com os e as participantes do grupo – que preparava um programa virtual de entrevistas – Marlise se revelou uma grande dialogadora. Era quem conseguia organizar a discussão. Mostrou por que, ainda adolescente, foi uma das organizadoras do Primeiro Encontro Estadual das Mulheres Trabalhadoras Rurais, realizado em 17 de outubro de 1985, no Estádio Beira-Rio.
No depoimento abaixo, Marlise fala sobre sua vida de trabalhadora rural, iniciada aos oito anos, e relata como, há 40 anos, as agricultoras se reuniram para defender suas reivindicações e conquistar direitos inexistentes. Ela acredita que, ao conhecerem o Movimento das Margaridas, outras mulheres entenderão que juntas podem mudar suas vidas. Saberão que precisam ter autonomia para criar espaços e caminhos próprios.
O que diz Marlise:
Nasci em 1966, em Boa Vista do Buricá. Meus pais eram arrendatários de uma pequena propriedade rural. Eu tinha um ano, quando nos mudamos para Ponte Alta, interior de Três de Maio, onde meus pais, Décio e Celita, compraram uma área de 11 hectares. Comecei a trabalhar na roça aos oito anos. Ajudava a aumentar a renda da família. O trabalho no campo não tem descanso. Começa antes do sol nascer e só termina quando ele se põe. Isto todos os dias da semana. Nós tínhamos animais pequenos e grandes, cuidados por mim e pelos meus três irmãos, bem mais moços do que eu.
Para estudar, eu precisava caminhar cinco quilômetros de ida e cinco de volta. Aprendi a falar português aos sete anos, na escola. Até aquele dia a família praticamente só falava alemão. Ensinei um pouco mais de português para meus pais.