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Diário da guerra do sono: Capítulo VIII – Um plano

Parêntese #308

Confira todos os textos da edição #308

Diário da guerra do sono: Capítulo VIII – Um plano, por Cristiano Fretta

A Ópera do Malandro, por Luís Augusto Fischer

Centenária: Maria, vó minha – Capítulo 10, por Tiago Maria

Qual é, Nano Gross?, por Juremir Machado da Silva

A última carreira do ano, por Carlos André Moreira

O grande encontro, por Abrão Slavutzki

O que está acontecendo com o cinema de horror?, por Matheus Cenachi

Orçamento Participativo federal é possível?, por Álvaro Magalhães

A felicidade é consequência, por Alexandre Silva

Uns sussurros altos, como se eu fosse surdo. Nem para disfarçar servem. Deu para ouvir direitinho o ele está louco de sono. Se fazem de sonsas as duas, como se não soubessem que faz décadas que eu não durmo. Estão ali para me infernizar, atazanar a minha existência. Elas pensam que eu sou um idiota, um velho decrépito que espera a morte, mas a verdade é que elas não têm ideia do que eu sou capaz, das coisas que eu já fiz e das que ainda posso fazer. Sou um Major que suja as mãos, nunca fiquei preso à minha sala. 

Eu já não moro numa casa, mas num território inimigo. Tudo tem uma segunda intenção, elas acham que eu não percebo que falam por códigos, fazem de conta que é conversa, mas sei que tudo não passa de código, não servem nem para disfarçar os sussurros. A Odete começou a se mover lentamente pela cozinha, fazendo de tudo para não fazer barulho. Eu não tinha mais coragem de olhar para a Vênus, vai que ela mexesse seus lábios de novo. Vai dormir, Major. Tu sabe que eu não durmo nunca e de repente não era mais Odete, era a Lina ali na minha frente, dizendo papai, vai dormir, papai. Me fui contra a Odete e ela disse o senhor vai dormir, Major, contra mim o senhor não se meta a besta não. Pois besta é você, tu é uma besta, sua imunda. Ela me pegou pelos braços e disse pois o senhor não se meta a besta comigo, estou cansada desses desrespeitos, ouviu? Me afastei, mas antes olhei com calma, para ter certeza de que não era a Lina. Impossível. Minha filha jamais falaria comigo daquele jeito. Será que ela já teria me dado netos? Sim, sim, seria lindo. Joaquim seria o seu nome. Pois saiba, Joaquim, diria a Lina, que teu avô é um homem muito poderoso, parece que vão dar um nome de rua para ele, Cristóvão Colombo, esquina com a Major Orquídea. Tu é uma besta sim, sempre foi uma besta, e tu pensa que eu não percebo os planos de vocês, eu percebo, tomar a casa, ficar com ela toda para vocês, depois sambar sobre o meu cadáver, mas isso nunca vai acontecer, ouviu, nunca vai acontecer. A Odete respirava com dificuldade, os olhos estalados de raiva. Eu continuei: não tem coragem de ir embora, né, tu sabe que do jeito que tu é, tá no sangue, não tem jeito, tu não vai encontrar outro lugar que pague sequer a metade para ti. Ela esbugalhou os olhos, que começaram a se encher de água, tremeu o queixo e disse isso vai ter volta, Major, tu não pode tratar a gente desse jeito, vai dormir, já está muito tarde. Ela foi para o seu lugar, chorar as pitangas. 

Eu fiquei ali olhando a cidade pela janela. Tudo escuro, uma ou outra luz acesa àquela hora. De resto, todos dormindo, corpos atirados, de barriga para cima, de lado, de bruços, braços abertos, braços sobre a barriga, todos entregues ao sono como uns bebezinhos. Mas eu não. Eu não dormia, e assim conseguia ver a realidade das coisas, esvaziá-las de qualquer sentido e deixar somente a rigidez dos prédios e a intensidade da luz como sendo todas as verdades dos meus dias, ou melhor, das minhas noites.