Confira todos os textos da edição #311
- Se quiser entender a história do povo negro, é preciso atentar para as manifestações culturais negras, por Raphaela Donaduce Flores
- Djalma do Alegrete: “O último abacaxi que lancei na sociedade de consumo internacional” – Parte I, por Jandiro Koch
- Personagens de uma vida: Luís Gomes, Juremir Machado da Silva
- Histórias de Autógrafos: Ruy Carlos Ostermann em “A paixão do futebol", por Carlos Gerbase
- O povo de religião em filme: uma entrevista com Carlos Caramez, por Luís Augusto Fischer
- Medir em palavras as coisas humanas, por Helena Terra
- Da roça ao Planalto, por Nubia Silveira
- 1902: Uma litografia a cores no relatório dos comerciários, por Arnoldo Doberstein
- A medida das coisas humanas: capítulo I, por Helena Terra
A primeira e a segunda miss: Maria José Cardoso e Sandra Hervé Chaves Barcellos
Para retomar o multivalente Djalma do Alegrete (1931-1994), é possível partir das narrativas sobre racismo e homofobia e das formas de resistência expressas ao longo da vida do artista gaúcho. Foram inúmeras as situações denunciadas, em lugar de vanguarda, pelo Rio Grande do Sul e pelo país. Face ao recente falecimento da sul rio-grandense Ieda Maria Vargas (1944-2025), coroada Miss Universo, em 1963, vou navegar próximo das margens, por um rumo que também é interessante.
Sabe-se muito pouco sobre como Djalma auxiliou a primeira miss de sua trajetória. Observem-se as rememorações dele mesmo: “Eu tinha direito de me sentir um ‘artista-estrela’, afinal eu dei brilho a diversas misses do nosso Estado, a começar pela belíssima Maria José Cardoso.” Com os cabelos castanho-escuros e de olhos azuis-esverdeados, ela era catarinense. Nasceu, em São Francisco do Sul, em 1935, mudando-se para Porto Alegre quando tinha dois anos de idade. Como não tomava chimarrão, nem montava a cavalo, compensava dizendo que adorava churrasco e que lia Mário Quintana (1906-1994).
Em 1955, ela foi eleita Miss Clube do Comércio e Miss Porto Alegre. No ano seguinte, venceu o Miss Rio Grande do Sul. Depois o Miss Brasil. Na época, ela residia na rua Vicente da Fontoura, na capital gaúcha, e estudava no Instituto de Belas Artes, portanto deve ter sido colega de Djalma.
Quando passou para a etapa de Miss Universo, Maria José ficou entre as quinze finalistas. Seu traje inspirado nos gaúchos, conforme a revista O Cruzeiro, tinha mais cara de “festa de São João”. Já a cuia e a bomba, que levou como presentes, causaram certo estardalhaço, no júri e na plateia estrangeiros, durante o Miss Universo. Como ela não sabia falar inglês, conseguiu apenas explicar que portava uma “bomb” – assustando os presentes.
Já para Djalma, o que parece ter caído como uma bomba, foi uma fala da substituta de Maria José. Sandra Hervé Chaves Barcellos (1937-2024). Filha do vereador Ábio Hervé e de Ercília Stabel Hervé, ela foi Miss Rio Grande do Sul em 1957. Depois trabalhou como colunista na Folha da Tarde, lançou alguns livros e, principalmente, tornou-se figura frequente nas colunas sociais.
Em algum momento impreciso, na época ainda assinando Djalma dos Santos, ele se encontrava, na casa de Sandra, em Porto Alegre. Quando ela o flagrou fazendo o retrato de uma empregada negra, não teria reagido bem. Apesar de ter interesse em divulgar o artista, acreditava que esse tipo de representação não renderia reconhecimento, não atrairia o mercado. O atrito se deu e permaneceu na memória do retratista. Ele repetiu a história em uma entrevista para o Museu da Imagem e do Som, no Rio de Janeiro, em 1988. Também o contou para um jornal de Viamão/RS, em 1990, corroborando-o como incidente psicológico.
No mesmo ano em que Sandra venceu o certame de beleza, Djalma terminou o Curso de Artes Plásticas, no segmento de Pintura, no Instituto de Belas Artes da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Ele havia feito matrícula em 1949, mas um período de ausência, entre os anos de 1951 e 1955, levou à formatura depois de mais dois anos. A turma tinha dezenove mulheres e três rapazes e a coleção de grau aconteceu em 15 de dezembro de 1957. Era o primeiro negro com diploma nesse curso.
Sabe-se que ele exerceu o magistério por três anos, em escolas públicas, passando por São Lourenço do Sul e Sapucaia do Sul. De São Lourenço, sempre evocou lembranças negativas, reportando que foi apedrejado e impedido de entrar em alguns locais por ser negro. Não foram essas situações, no entanto, que o fizeram abandonar a profissão. Ele sentia que “não encontraria a si mesmo como artista” se permanecesse como docente. Sua intenção era a pintura. Mas, antes disso, ganhou renome como figurinista. Nesse segmento, fez incontáveis croquis para carnavais, sobre o que já existe amplo estudo compartilhado na Parêntese. Quanto aos figurinos para peças de teatro, para programas de televisão e para as misses, cabe um levantamento mais detalhado. Em parte, é o que se fará a seguir.