Confira todos os textos da edição #313
Nem toda mistura é boa, por José Damico
Geração Z não gosta de carnaval?, por Juremir Machado da Silva
“Ó, abre alas, que eu quero passar”: Dyrson Cattani, por Jandiro Koch
Estória enviesada, por Beatriz Marocco
Entre casa e marido, por Fernando Seffner
Histórias de Autógrafos: Michael Ruse em Levando Darwin a sério, por Carlos Gerbase
Pedaço de uma vida íntegra, por Luís Augusto Fischer
O “avô” dos estudos do livro e da edição no Brasil, por Ana Elisa Ribeiro
A medida das coisas humanas: Capítulo III, por Helena Terra
1903: A morte de Barros Cassal, memória e esquecimentos, por Arnoldo Doberstein
Na calçada vão duas senhoras idosas. Cada uma delas conduz um cãozinho na coleira. Pela rua vem vindo, vagarosamente, em sentido contrário, uma pequena camioneta. Um alto-falante grita seu propósito. Fogão velho, recolhemos. Forno de micro-ondas velho, recolhemos. Armário velho, recolhemos. Máquina velha de lavar roupa, recolhemos. Será que não recolhem também marido velho?, é o que pergunta uma das senhoras para a outra, em alto e bom som. As duas caem na risada, se sacodem de tanto rir. A outra diz, apontando para o céu: o meu já foi recolhido faz tempo! Novas risadas. A que fez o primeiro comentário acrescenta: o meu passa me estorvando o dia todo dentro de casa. Mais risadas. A outra diz: se eu fosse fazer uma lista de tudo que o meu me estorvava dentro de casa, depois de aposentado, não tinha fim. Na esquina elas vão para um lado, eu para o outro. A última coisa que escuto é uma pergunta feita pela primeira senhora: mas tu sabes o que mais me incomoda nele hoje em dia?
O uso do verbo estorvar me diverte. Ele revela a idade das senhoras. Quem aqui usou o verbo estorvar nos últimos três meses? E qual sua idade? Mas o que me fascina mesmo é aquilo que ficou no ar. Aquela coisa que mais incomoda a senhora em seu marido aposentado. Aqui, a imaginação se põe a trabalhar, não há como frear o processo. Em parte porque pesquiso questões ligadas a gênero e sexualidade na produção das subjetividades, me ponho a indagar se é algo relacionado à vida sexual. Abandono esta hipótese, dando como morta a vida sexual daquelas senhoras e seus maridos, o que, reconheço, pode ser um enorme preconceito. Sigo outros caminhos. Poderá ser o regime de horários de cada um. Eu tive um senhor aposentado como companheiro na academia que um dia me disse: A minha patroa já deixou claro, depois do café da manhã eu só posso voltar para casa perto do meio-dia, senão atrapalha o serviço dela, e atrapalha também a preparação do almoço. Se quero ficar em casa, que seja durante a tarde, ela diz, porque pela manhã ela não aceita. Eu saio aqui da academia e vou encontrar outros velhos ali na Redenção até perto do meio-dia.