Confira todos os textos da edição #319
Elis Regina, 81, por Antônio Schimeneck
Cony 100 anos – A entrada no mundo, por Marina Ruivo
Um ficcionista indispensável, por Sergius Gonzaga
A imagem perdida, por Sergio Faraco
Era Lisboa e chovia, por Ivan Pinheiro Machado
Quino, a ditadura e além – dados sobre um pessimista atemporal, por Vinícius Rodrigues
Fases da vida: saudades imaginárias, por Juremir Machado da Silva
Legião Urbana: o extraordinário nada de mais, por Paulo Damin
É só Rock Gaúcho... mas foda-se!, por Arthur de Faria
A medida das coisas humanas – Capítulo IX, por Helena Terra
Josué Guimarães fez uma pausa, deu um gole na taça do magnífico vinho verde, sorriu e falou: "Esta vai ser a primeira frase de um romance que eu vou escrever. Não sei quando, mas vou escrever". A pequena roda de amigos reunida no terceiro pavimento do estúdio em que Josué e família moravam em Cascais curtia a prosa sempre interessante e divertida.
Darcy Ribeiro, seu velho amigo, frequentador assíduo da morada de Cascais, disputava o protagonismo da conversa. "Muito boa, Josué, escreve logo porque se não escreveres eu vou escrever". E repetiu "Era Lisboa e chovia". Muito bom!!! E quem ganhava com a disputa éramos nós, amigos "comuns" que nos deliciávamos com as histórias. Ambos homens brilhantes, perseguidos e exilados pela ditadura brasileira.
Estávamos em 1976. Portugal vivia o renascimento, como país, depois de décadas sob a sombria ditadura de Salazar. Eu voltava da Alemanha, onde participara pela primeira vez da Feira Internacional do Livro de Frankfurt. Amigo da minha família (meu pai era advogado do Josué nos seus embates com os militares), me tornei hóspede do Josué e sua esposa, a queridissima Nídia. Como a ditadura no Brasil estava cada vez mais brutal, Lisboa era um dos endereços mais procurados pelos brasileiros perseguidos políticos. Era um oásis onde se falava português em plena Europa. Ao som de "Grândola Vila Morena", experimentávamos o "sol da liberdade". E Portugal vivia ainda a adorável ressaca da Revolução dos Cravos que acabou com a ditadura em 1974.