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Estória enviesada

Parêntese #313

Estória enviesada
Foto: Cesar Lopes / PMPA

Uma escultura de 15 toneladas de um navio de ferro, criada pelo artista Vinicius Vieira, singra sobre pedras no Recanto Italiano, na orla do Guaíba, em Porto Alegre. Na mesma orla milhares de pessoas desembarcaram, há 150 anos. “Nosso povo valoriza muito os imigrantes italianos”, disse a secretária municipal de Cultura, em 21 de janeiro de 2026. 

Puxando o carrinho de compras à frente do corpo com a mão direita, com todo o cuidado para mantê-lo em linha reta na estreita largura de pouco mais de um metro da calçada, uma mochila à tiracolo, me dou conta de que no mesmo instante estou andando pelas ruas da Itália, o país dos agricultores que foram às mesmas ruas para protestar contra o acordo comercial com o Mercosul. Bem fácil de desenvolver uma argumentação sobre o motivo, voltando do supermercado com bergamotas anêmicas, sem ter conseguido encontrar frutas tropicais para o desjejum. O ombro dolorido me proíbe movimentos bruscos, o protecionismo, sem o mesmo zelo, deu de ombros ao livre mercado. 

Na casa de pedra de uns oitenta metros quadrados, alugada por temporada, a 4,5 quilômetros do centro de Florença, depois de acomodar as compras, aprofundo aquela sensação fugaz com a lembrança do êxodo dos italianos da pobreza e do desemprego ao final da Segunda Guerra. Milhares de imigrantes viajaram milhares de milhas náuticas com uma mão na frente e a outra atrás, para se inserirem no contexto brasileiro de crescimento industrial e mecanização agrícola. Muitos deles fizeram fortuna, graças ao modo de fazer as coisas, fazer negócios e cultivar a terra. Das ondas imigratórias italianas resgato do imaginário popular, com descaradas segundas intenções, a alcunha de carcamano, estendida do significado original – ladrão, mafioso – a toda a etnia.