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Gilles Lipovetsky: “A Europa tornou-se vassala dos Estados Unidos da América”

Filósofo francês acaba de lançar "A Odisseia da Superpotência"

Gilles Lipovetsky: “A Europa tornou-se vassala dos Estados Unidos da América”
Gilles Lipovetsky na PUCRS. Foto: Giodarno Toldo

Estou lendo Coisa de rico, livro do antropólogo Michel Alcoforado que está fazendo muito sucesso no Brasil. O autor diz que, em determinando momento das suas desastradas tentativas para ter acesso aos milionários, aceitou o conselho de uma especialista desdenhosa para se preparar melhor e foi se aperfeiçoar na Europa, tendo feito cursos de “figurões” como Gilles Lipovetsky. Então liguei para o meu velho amigo Gilles e agradeci, pois tinha acabado de receber pelo correio sua mais recente obra, A Odisseia da superpotência, que chegou ontem às livrarias francesas. Mais do que interessante, a conversa que tivemos foi sintomática.

Para Lipovetsky, a Europa errou tudo em suas estratégias pós-Segunda Guerra Mundial e principalmente pós-queda do muro de Berlim: acreditou na ilusão da pós-história, num mundo livre baseado exclusivamente no comércio, com respeito à soberania nacional e à autodeterminação dos povos, e não se preparou para a defesa dos seus territórios. “Hoje, a Europa está desarmada e vassala dos Estados Unidos”. Num mundo dividido entre EUA, China e Rússia, a Europa está fora do jogo, sem condições de agir e, segundo ele, nada poderá fazer se Donald Trump tomar a Groenlândia. A OTAN, destacou, implodiria, mas o fato seria consumado.

O filósofo considera que Trump despreza a Europa, tomando-a por muito covarde, e quer rachá-la. Ainda que França e Inglaterra tenham armas atômicas, a estrutura militar europeia de defesa é limitada face aos Estados Unidos. Os aviões da Inglaterra e da Dinamarca dependem de tecnologia norte-americana. A Rússia, potência nuclear, oscila entre a incompetência para avançar na Ucrânia e o desejo de potência que move o autocrata Vladimir Putin. Se o russo conquistar a Ucrânia certamente não vai parar por aí, pois alimenta o sonho de reconstituir a Grande Rússia.