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Muito antes de Trump – a trama milenar entre Armênia e Irã

Parêntese #327

Muito antes de Trump –  a trama milenar entre Armênia e Irã
Foto: Blondinrikard Fröberg / Flickr

*Este texto está divido em três partes, publicadas semanalmente em edições da revista Parêntese, entre 23 de maio e 6 de junho.

Quando Trump disse que acabaria com uma ‘‘civilização’’ em uma noite, eu sabia que isso não aconteceria – o diversionismo é muitas vezes a arma daqueles que têm as mãos sujas. Suas palavras e ações mais me fizeram pensar nas minhas passagens pela sofrida região médio-oriental do mundo.  

Nas minhas viagens para a Armênia em 2021 e 2023, eu sempre fiz escala no Catar. Lembrei-me que estive, em quatro ocasiões, cerca de 30 quilômetros de distância da catari Al Udeid, a maior instalação militar norte-americana no Oriente Médio, bombardeada pelo Irã em 2025 e 2026. Quando dentro do avião em direção a Yerevan, capital da Armênia, gostava de analisar o trajeto em tempo real da jornada: depois de se cruzar o Golfo Persa/Árabe, a rota da aeronave dava-se toda pelo espaço aéreo iraniano, sobrevoando históricas cidades, como Isfahan e Shiraz, bombardeadas pelos EUA e Israel recentemente. Aquela Isfahan, da qual cheguei apenas a ler, relembrada como a portentosa capital do Império Persa durante a dinastia Safávida, cuja relevância em diversas áreas conferiram-lhe o ditado de ter sido ‘‘metade do mundo’’. Shiraz, ‘‘a cidade dos jardins’’ e da poesia, da célebre uva da qual derivam celebrados vinhos até os dias atuais. A cidade de tal memória lírica que, dizem algumas fontes, teve seu nome conferido a um dos mais brilhantes poetas armênios do século passado, Onik Karapetyan, cujo trabalho foi eternizado pela assinatura ‘‘Hovhannes Shiraz’’. 

Contudo, quando notei por onde minha mente andava, percebi que ativar estas escassas lembranças tinham me levado muito além, rumo a um exercício memorial mais desafiador: o que tinha visto eu de Irã durante minha vida na Armênia? Viciado em contexto, fui até o mais longe que meu conhecimento me permitia para chegar à minha experiência pessoal. A história entre persas e armênios é um assunto muitíssimo anterior à chegada de peregrinos ingleses ao terreno de um futuro país de um continente hoje chamado americano. Está marcada por mais de dois milênios de diversos capítulos que imprimiram proximidades e intercâmbios constantes, mas também longos domínios políticos de dinastias persas, como a Aquemênida e a Sassânida, sobre a Armênia, que na Antiguidade chegou a ser um reino que se espraiou do Cáucaso até meados do que hoje nomeiam-se Turquia e Oriente Médio. A continuidade desta dominação não deixou de eternizar atritos entre as partes: a Batalha de Avarayr, ocorrida em 451 d.C., que posteriormente alçou o militar Vartan Mamikonian ao status de santo da Igreja Apostólica Armênia, é um exemplo disto.