Confira todos os textos da edição #310
- Sobre as tiranias: uma possível leitura psicanalítica, por Leonardo Beni Tkacz
- Trump nem disfarça, não é mesmo?, por Euclides Bitelo
- As vaias, por Gustavo Melo
- Equipamentos culturais públicos: a gestão importa, por Álvaro Magalhães
- Bruxas, por que não?, por Clarissa Brittes
- Histórias de Autógrafos: Luis Fernando Verissimo em “Comédias da Vida Privada”, por Carlos Gerbase
- Pensa um homem jaguara, por Paulo Damin
- Diário da guerra do sono: Capítulo X – O sono, por Cristiano Fretta
- Nas pegadas de Milton Hatoum, por Juremir Machado da Silva
Natural de Manaus, Milton Hatoum vive há décadas em São Paulo. A Amazônia, porém, vive nele e mais ainda nos seus livros. Tenho lido a obra de Hatoum como quem persegue um rastro. No domingo à tarde, depois de ter relido Hamlet de manhã, atravessei de um gole só Órfãos do Eldorado (2009).
Em alguns momentos, parecia outra versão de Dois irmãos (2000), a história de um herdeiro perdulário, vagabundo e ressentido. Algo que também aparece em Cinzas do Norte (1989). Em Dois Irmãos, o gastador é Omar, o protegido da mamãe libanesa. Ele desaparece e um mateiro é contratado para localizá-lo em algum recanto da Amazônia. Domingas é a “índia” agregada da família, escrava doméstica de cama e mesa. Em Órfãos do Eldorado, o enfant terrible é Arminto Cordovil. A escrava é a indígena Florita. Já Dinaura, a paixão etérea do protagonista, desaparece nas Anavilhanas, o arquipélago do Rio Negro, fazendo com que mateiros sejam pagos para tentar achá-la.
Em Cinzas do Norte o rebelde é Raimundo. Coincidências? Um projeto literário obsessivo? Sobre o que mesmo? A decadência da Manaus da era da borracha. Um labirinto de lembranças que se enrosca em nomes, trajetórias, lendas, mitos e histórias. O cenário é grandioso, mesmo quando se apresenta como ruína: a Amazônia luxuriante. O procedimento narrativo é cirúrgico: produzir lentamente uma sensação de abandono, de melancolia, de perda.