Pular para o conteúdo

PUBLICIDADE

Nem toda mistura é boa

Parêntese #313

Nem toda mistura é boa

Pisar “devagar, miudinho, devagarinho”, como ensina Paulinho da Viola, implica compreender que a economia semiótica dos espaços em que acontecem o samba e seus derivados é recheada de mistérios, encantamentos e potência revolucionária, signos que os saberes coloniais têm dificuldade de apreender. E talvez nisso resida a sobrevivência secular do samba.

Bater palma na cadência, reconhecer o surdo de primeira, o surdo de segunda, ou até o espaço vazio às vezes preenchido pelo surdo de terceira, cantar e cantar na roda de samba, não se meter de pato a ganso no repertório de músicos, entender que a roda de samba é um lugar sagrado e que agencia o profano, que a língua cantada é o pretuguês, que quintal não é uma derivação da quinta portuguesa ou do playground estadunidense. Trata-se de um aprendizado complexo, que reúne elementos que podem e precisam ser incorporados, pois carregam em si uma força transformadora que não se entrega às estruturas que imobilizam o pensamento. 

Até porque “o mundo passa por mim todos os dias/enquanto eu passo pelo mundo uma vez”, canta a Velha Guarda da Portela. Mas não se trata de uma filosofia do samba no sentido de que o samba seria seu objeto. O samba é o próprio sujeito que ousa sair do contratualismo, do capitalismo, do falicismo europeu. Nesse sentido, só podemos falar da cosmologia “do” samba se considerarmos uma cosmopolítica que venha dele, que o pense a partir de uma escuta e do acolhimento de questões que o próprio samba coloca ao território e as pessoas interessadas em se envolver com ele.

Ando cismado faz tempo com a ideia de que precisamos ler os tambores. Na sofisticada construção do samba como um sistema de compreensão e interação com o mundo, pulsa o convite para pensar nas entrelinhas, brincar nas frestas, desafiar as normas das marcações preestabelecidas e ousar a inconstância que, paradoxalmente, só se manifesta porque conversa com a constância. 

Os eventos que partem do samba como as rodas de samba e o carnaval de rua têm como princípio dinamizador Exu, senhor dos caminhos, da encruzilhada, da imprevisibilidade, aquele que subverte o sentido linear do tempo, que espera o inesperado, por isso as alas das baianas giram no sentido anti-horário, a roda de capoeira a mesma coisa e na umbanda da mesma forma. Mas tais ritos se encruzam com Oxalufan, que dita regras, códigos e posturas para alcançar o sublime. Na tradição ocidental seria uma dicotomia entre o caos e a ordem, mas nas culturas afro-diaspóricas elas se alimentam e se fundamentam na multiplicidade e comunhão de opostos.