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O dia em que entrei na casa destruída mais famosa da cidade

Parêntese #320

O dia em que entrei na casa destruída mais famosa da cidade
Desenho de Renate Molz

Confira todos os textos da edição #320

Esse ano eu e um grupo de artistas resolvemos começar a desenhar as casas antigas de Porto Alegre que estavam com os dias contados. No nosso primeiro encontro, desenhamos a casa e a retroescavadeira junto pois a demolição já estava acontecendo. Ali percebi que o tempo corria mais rápido, era um sábado de carnaval e a ânsia pelo apagamento parecia urgente.

Passaram-se alguns dia e recebi uma mensagem da Veronica, artista e coordenadora do grupo USKPOA (urban sketchers Porto Alegre). Era sobre uma outra casa antiga que estaria aberta para o público conhecer os objetos que seriam leiloados. Percebemos que seria mais uma na nossa lista das apagadas da cidade. Nos organizamos e criamos o evento “Desenhe Antes que Destruam – Casa Dom Pedro II”.

Na noite anterior, me percebi reflexiva. Lembrei de algumas críticas sobre estarmos “apenas desenhando” e que isso não mudaria nada, que deveríamos ter feito outros movimentos. Mas fui dormir e acordei ativista (ainda bem!). Me veio a mente de que somos uma sociedade formada por milhões de pessoas singularmente únicas e tribais. Sem julgamento de valor, no meu entendimento, cada pessoa tem uma função nesse sistema complexo. Para mim, os artistas tem o papel de retratar, registrar, comunicar de forma que mobilize a sociedade. A arte é potência política. Desenhar uma casa que está sendo derrubada pode ser uma forma de chamar a atenção de poderes públicos e mobilizar comunidades a exigir uma cidade que respeita a sua história. Então, peguei meu lápis e fui fazer meu papel.