Confira todos os textos da edição #320
- O dia em que entrei na casa destruída mais famosa da cidade, por Tina Perrone
- Eleições 2026: o que está em jogo?, por Álvaro Magalhães
- Cony 100 anos – Uma caderneta para Havana, por Marina Ruivo
- O rock gaúcho – Parte II, por Arthur de Faria
- O Pampa além das planícies, por Luís Augusto Fischer, Gabriela Meirelles, Stela Rates e Gilsane von Poser
- Gonçalo Ferraz: "Tive a fantasia de escrever uma história sobre arquétipos humanos", por Luís Augusto Fischer e Gonçalo Ferraz
- Lu Faccini – Sigo mudando, por Luís Augusto Fischer e Lu Faccini
- Cordel do Corte Raso – Preâmbulo, por Gonçalo Ferraz
- A medida das coisas humanas: Capítulo X, por Helena Terra
Esse ano eu e um grupo de artistas resolvemos começar a desenhar as casas antigas de Porto Alegre que estavam com os dias contados. No nosso primeiro encontro, desenhamos a casa e a retroescavadeira junto pois a demolição já estava acontecendo. Ali percebi que o tempo corria mais rápido, era um sábado de carnaval e a ânsia pelo apagamento parecia urgente.
Passaram-se alguns dia e recebi uma mensagem da Veronica, artista e coordenadora do grupo USKPOA (urban sketchers Porto Alegre). Era sobre uma outra casa antiga que estaria aberta para o público conhecer os objetos que seriam leiloados. Percebemos que seria mais uma na nossa lista das apagadas da cidade. Nos organizamos e criamos o evento “Desenhe Antes que Destruam – Casa Dom Pedro II”.
Na noite anterior, me percebi reflexiva. Lembrei de algumas críticas sobre estarmos “apenas desenhando” e que isso não mudaria nada, que deveríamos ter feito outros movimentos. Mas fui dormir e acordei ativista (ainda bem!). Me veio a mente de que somos uma sociedade formada por milhões de pessoas singularmente únicas e tribais. Sem julgamento de valor, no meu entendimento, cada pessoa tem uma função nesse sistema complexo. Para mim, os artistas tem o papel de retratar, registrar, comunicar de forma que mobilize a sociedade. A arte é potência política. Desenhar uma casa que está sendo derrubada pode ser uma forma de chamar a atenção de poderes públicos e mobilizar comunidades a exigir uma cidade que respeita a sua história. Então, peguei meu lápis e fui fazer meu papel.