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O “le-lo-lai” do Bad Bunny é o nosso sapucay

Parêntese #314

O “le-lo-lai” do Bad Bunny é o nosso sapucay
Imagem: Transmissão da NFL no YouTube / Reprodução

“No, no suelte' la bandera ni olvide' el lelolai
Que no quiero que hagan contigo 
lo que le pasó a Hawái”
Bad Bunny

Depois do show do Bad Bunny no Super Bowl, ficou difícil fingir que ele é “só mais um artista pop”. Por isso fui pesquisar e escutar atentamente sua obra, com olhar de quem trabalha com música como linguagem social. No meio desse mergulho, uma faixa me pegou: Lo Que le Pasó a Hawai. A música encosta numa ferida aberta, marcada por turismo predatório, deslocamento de moradores, gentrificação, overtourism e a ilha como cenário consumível. 

Quando a canção aponta para isso, ela está falando do Havaí, mas também de um mecanismo bem conhecido em territórios marcados por colonialidade e por economia dependente. O lugar vira produto e quem mora nele vira obstáculo logístico. Bad Bunny usa o caso do Havaí como um alerta para Porto Rico. E aí entra o pulo do gato, ele não está jogando essas ideias no ar com uma estética genérica, mas costura isso com símbolos locais específicos, como a cultura tradicional do jíbaro.

No imaginário porto-riquenho, o jíbaro é figura ligada ao universo rural e camponês. Ele pode aparecer como orgulho e símbolo nacional. Tem uma iconografia bem reconhecível: o chapéu de palha, o corpo de trabalhador do interior, a ideia de raízes. Se isso te soa familiar, é porque a gente aqui no Rio Grande do Sul tem um mecanismo parecido, a partir da figura do gaúcho como símbolo, com suas roupas, seus objetos, seus gestos, seus sons. 

Imagem: Puerto Rican Cultural Center / Reprodução

Um detalhe na música Lo Que le Pasó a Hawai que funciona como uma pequena chave de acesso é a palavra “le-lo-lai” nos versos: “No, no suelte' la bandera ni olvide' el le-lo-lai, que no quiero que hagan contigo lo que le pasó a Hawái”.  “Le-lo-lai” é uma palavra que aparece associada à tradição de décima e canto jíbaro, como um refrão vocal, um marcador de estilo. Aqui no sul da América do Sul ele tem um parente funcional: o sapucay, aquele grito agudo, aberto, de celebração e de chamamento, muito presente em bailes e cenas ligadas ao chamamé e a repertórios regionais da fronteira. É uma assinatura sonora. Um jeito de dizer “tô aqui”, “isso é nosso”, sem precisar explicar.

E é aí que, como etnomusicóloga, eu fico feliz. Porque o mundo vive tratando essas coisas como “folclore” no sentido de enfeite quando, na verdade, elas são tecnologia social de alta precisão. O conceito de hibridismo do antropólogo argentino Néstor García Canclini ajuda a não cair no conto da “mistura bonitinha”. Hibridização não é elogio estético, é uma lente para entender como culturas se formam em condições reais de poder, migração, mídia e mercado. Mistura acontece sim, mas com assimetria. E o sociólogo britânico-jamaicano Stuart Hall elucida a ideia de identidade como coisa parada. Identidade é processo, é história em movimento. É “tornar-se”. Isso é crucial para entender por que um símbolo como o jíbaro pode ser orgulho e estereótipo ao mesmo tempo. E por que o gaúcho também pode.