Confira todos os textos da edição #320
- O dia em que entrei na casa destruída mais famosa da cidade, por Tina Perrone
- Eleições 2026: o que está em jogo?, por Álvaro Magalhães
- Cony 100 anos – Uma caderneta para Havana, por Marina Ruivo
- O rock gaúcho – Parte II, por Arthur de Faria
- O Pampa além das planícies, por Luís Augusto Fischer, Gabriela Meirelles, Stela Rates e Gilsane von Poser
- Gonçalo Ferraz: "Tive a fantasia de escrever uma história sobre arquétipos humanos", por Luís Augusto Fischer e Gonçalo Ferraz
- Lu Faccini – Sigo mudando, por Luís Augusto Fischer e Lu Faccini
- Cordel do Corte Raso – Preâmbulo, por Gonçalo Ferraz
- A medida das coisas humanas: Capítulo X, por Helena Terra
Bioma constitutivo da identidade gaúcha, o Pampa é assunto de artigo das pesquisadoras Gabriela Meirelles, Stela Rates e Gilsane von Poser, da UFRGS. O trabalho, intitulado Bioma Pampa – muito além das planícies, foi publicado na revista A Flora, da Sociedade Brasileira de Farmacognosia, em uma edição especial sobre os ecossistemas presentes no Brasil. Confira abaixo o que as três têm a dizer sobre as regiões campestres, em entrevista ao editor da Parêntese, Luís Augusto Fischer.
Luís Augusto Fischer – Ο artigo de vocês inicia com um trecho de O Tempo e o Vento, em que Erico Veríssimo descreve a paisagem do pampa “...coxilhas verdes recobertas de macegas cor de palha e manchadas aqui e ali dum caponete” e cita “uma brisa... carregada dum suave perfume de macela”!
Nesses últimos dias, temos visto os buquês de macela ganharem espaço nos mercadinhos, nas feiras ecológicas e no brique da Redenção. Qual a importância desta planta medicinal, para a ciência e a cultura popular?
Meirelles, Rates e Poser – A macela ou marcela (Achyrocline satureioides) é amplamente usada como remédio caseiro para problemas digestivos, como gastrite, úlceras e má digestão, além de resfriados, febres e inflamações. A planta é considerada uma panaceia, sendo utilizada para inúmeros problemas de saúde, incluindo a confecção de travesseiros que ajudariam a dormir melhor.
É a espécie mais popular da medicina tradicional do Rio Grande do Sul, tanto que se tornou planta medicinal símbolo do Estado (Lei 11.858, de dezembro de 2002, sancionada pelo então governador Olívio Dutra, pelo projeto de lei da deputada estadual Farmacêutica Jussara Cony).
Na época da Páscoa, há a tradição da coleta na Sexta-Feira Santa, ao amanhecer. Acredita-se que ao amanhecer a planta está úmida pelo orvalho e possui as propriedades medicinais intensificadas. Neste período do ano há intenso comércio dos buquês de marcela nas feiras da cidade, proporcionando aporte financeiro para algumas comunidades.
Do ponto de vista científico, a marcela tem sido extensivamente estudada nas universidades. Atualmente, se conhece grande parte de seus constituintes químicos e diversas atividades farmacológicas foram comprovadas.
Luís Augusto Fischer – Muita gente considera o Pampa uma paisagem relativamente simples e com pouco diversidade, a ponto de sua conservação ter sido deixada de lado das políticas ambientais por muito tempo. O que existe “muito além das planícies”?
Meirelles, Rates e Poser – Contrariamente à percepção de que o Pampa seria um bioma pobre em biodiversidade e constituído exclusivamente por vastas planícies de pastagens, estudos demonstram grande complexidade ecológica. O Pampa não se limita a uma área campestre homogênea, mas constitui um conjunto complexo de diversas formações fisiográficas. Embora represente uma pequena área do território nacional, esse bioma abriga aproximadamente 9% da biodiversidade do país, totalizando mais de 12.500 espécies conhecidas.
Em seu conjunto, a flora campestre do Pampa gaúcho abrange cerca de 2.150 espécies vegetais, uma diversidade florística raramente encontrada em outros biomas campestres do planeta. Um único metro quadrado de campo nativo no Pampa pode conter mais de 50 espécies diferentes.