Confira todos os textos da edição #308
Diário da guerra do sono: Capítulo VIII – Um plano, por Cristiano Fretta
A Ópera do Malandro, por Luís Augusto Fischer
Centenária: Maria, vó minha – Capítulo 10, por Tiago Maria
Qual é, Nano Gross?, por Juremir Machado da Silva
A última carreira do ano, por Carlos André Moreira
O grande encontro, por Abrão Slavutzki
O que está acontecendo com o cinema de horror?, por Matheus Cenachi
Orçamento Participativo federal é possível?, por Álvaro Magalhães
A felicidade é consequência, por Alexandre Silva
1978 é ainda o tempo da ditadura, sem novidades significativas do ponto de vista das leis e das restrições à livre manifestação do pensamento. No ano seguinte, o AI-5 viria a ser revogado, assim como seria aprovada a Lei da Anistia, dois motivos fortes para perceber a mudança dos ventos. Os primeiros anistiados começaram a chegar de volta ao país em agosto de 79.
Também no mais poderoso veículo de comunicação massivo do momento, a TV Globo com sua rede que unificava o país como nunca antes, Chico recomeçou a aparecer. Ele fora vetado na programação, mas em 1977 sua canção “Maninha” foi tema de novela, e em 1978 “João e Maria” entraria na trilha do blockbuster que foi Dancin’ days. Ainda estava longe, porém, o momento em que Chico e Caetano estrelariam um programa tão maravilhoso para a cultura musical como foi Chico e Caetano, lá em 1986.
Em 78 ocorreria também a primeira viagem de Chico a Cuba, como convidado para integrar o júri do prêmio de Literatura Casa de las Américas. De lá voltaria com os ouvidos impregnados por compositores da “nueva trova” cubana, Pablo Milanés e Silvio Rodríguez, que futuramente seriam gravados por Chico.
Neste 1978 Chico lança o livro da peça Ópera do Malandro, encenada no mesmo ano, com direção de Luiz Antônio Martinez Correa. O livro, em sua primeira edição, é o guia do presente texto, que pretende analisar o andamento da peça e localizar as canções nos momentos em que ocorrem, na representação.
Trata-se de um musical, cujo enredo é decalcado em duas outras peças, uma de Bertolt Brecht e Kurt Weill, a Ópera dos três vinténs, de 1928, que por sua vez nasceu como uma releitura atualizada da Ópera dos Mendigos, de John Gay, de 1728. Todas as três peças são a rigor musicais satíricos, talvez óperas satíricas, tendo como centro um mundo de ladrões, impostores, falsários, malandros enfim. Em matéria de datas, como se pode ver, estamos lidando com números redondos: 200 anos entre a primeira e a segunda, outros 50 de Brecht/Weil a Chico Buarque.
Consta que a sugestão de revisitar a peça de 1928 veio de Ruy Guerra, parceiro de Chico em Calabar, o elogio da traição; a Ópera do Malandro é dedicada “à lembrança de Paulo Pontes”, parceiro de Chico em Gota d’água. A Ópera viria a ser a última dedicação do autor ao mundo do teatro.
As três peças mantêm as linhas gerais de uma mesma estrutura narrativa: gente que vive à margem da lei vai se associando para ganhar vantagem sobre outros, tudo imerso num clima debochado, em que a plateia é solicitada a considerar, o tempo todo, as tramas do mundo apresentado no palco como uma representação do mundo ao revés, do mundo de ponta-cabeça, do mundo às avessas, característico das encenações populares em muitos lugares mundo afora, inclusive no carnaval.
A lógica é que ali, na representação desse teor, o que é alto fica baixo e o que é legal vira fora-da-lei, e vice-versa. No caso da Ópera do Malandro, exatamente como nas duas peças anteriores que a inspiram, o mundo do crime, da contravenção, dos fora-da-lei, ganha o centro do palco, e nele o espectador vai acompanhar dramas parecidos com os que ocorrem num mundo dentro-da-lei – arranjos obscuros, casamentos de oportunidade e trapaças são apresentadas na rotina dos dias.
Olhando a coisa em 2025, a conta revela os ritmos da história: entre 1940, época das ações relatadas na Ópera do Malandro, e 1978, ano da edição do livro, haviam se passado 38 anos, pouco mais que o tempo de uma geração; a distância seria a mesma, na contagem dos anos, daquela entre 2026 e 1988, o ano da atual Constituição brasileira. Dá agora a impressão de que o primeiro intervalo foi muito mais vertiginoso que o segundo: naquele, entraram em cena a televisão e a ditadura militar, o rock e a pílula anticoncepcional, a Coca-cola e o chiclete. Ou não foi mais vertiginoso? No segundo intervalo, pensando bem, se impuseram mudanças imensas, a dita globalização dos anos 80/90, a internet, a dissolução dos suportes chamados LP e CD, a AIDS e a pandemia da Covid-19, o smartphone.
Na primeira edição do livro (Livraria Cultura Editora, de São Paulo, 1978) consta um prefácio de Luiz Werneck Vianna, sociólogo de fama, da mesma geração de Chico, mencionado por este, na Nota de abertura, como alguém “que contribuiu com observações muito esclarecedoras” no processo de produção intelectual da peça, cujo enredo se passa no tempo de Getúlio, anos 1940, uma realidade já portanto bastante afastada do universo em que a peça foi escrita e montada.
O texto de Luiz W. Vianna, uma interpretação da história do país naquele momento, lido agora, revela uma interpretação bastante confusa do intervalo que vai de Getúlio a 1978, mediante uma série de simplificações e atalhos de raciocínio, ou de diagnósticos duvidosos. Fala-se de uma “paixão pelo moderno” e de uma “ideologia do progresso”; “o americanismo tem sido também uma estética” no Brasil; fala de latifúndio e da vitória da indústria sobre a agricultura – tudo isso para explicar ao leitor a diferença entre o mundo retratado na Ópera e o presente.
Para o leitor de agora, o ponto de interesse é considerar que o texto do sociólogo é trazido como porta de entrada para o texto da peça como uma forma de dar elementos históricos para o leitor dimensionar as coisas que serão apresentadas no enredo. Visto de agora, este serviço não foi bem feito.