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Projeto Gema – Dez anos: outras histórias antes das histórias

Parêntese #309

Por Lucas Luz

Ato I – Prefácio

O início de uma história quase nunca é o momento em que suas palavras ganham tinta ou voz. Muitas vezes, ele está no invisível ou em alguma forma de silêncio. Vem de antes, às vezes de um tempo difícil de localizar, às vezes de memórias grudadas nos afetos de quem a conta. O Projeto Gema, que em 2026 celebra dez anos de sua realização, foi narrado a partir de diferentes olhares que residem no tempo — resultado de muitas memórias, vivências e invenções. Foi também uma realização de deriva e percurso, de travessias e atravessamentos, de buscas e encontros, de lugares e existências.

Pode-se dizer, sem dúvida, que o Gema começa na urgência dos anos 90 e nas diversas demandas represadas que ali se manifestaram. Com toda a repercussão do manguebeat — movimento de contracultura surgido no Recife no início daquela década — e o entendimento da importância da valorização das culturas regionais, artistas de todo o Brasil passaram a explorar as tradições locais de seus estados. Lembro que, a partir da morte precoce de Chico Science, um dos principais colaboradores do movimento mangue, matérias e notícias pipocavam em veículos como a MTV e a revista Showbizz (na época, ainda com esse nome), apresentando artistas, grupos e coletivos que propunham sonoridades diferentes, inspirados por Chico.

Acredito que, de certa forma, a própria indústria fonográfica também estava disposta — e até incentivava — o surgimento de um novo nome para ocupar aquele espaço que havia ficado “vazio”. Anos antes, a mesma indústria musical já havia feito algo semelhante, procurando pelo “terceiro mundo” um possível substituto para Bob Marley. Festivais, programas de TV e rádio, e a cultura popular e tradicional brasileira sendo valorizada e compreendida por seu potencial artístico, comercial e econômico. Nada disso era exatamente novidade: Os Paralamas do Sucesso, os Novos Baianos, a Tropicália, Os Tapes e tantos outros artistas já haviam feito esse movimento, propondo leituras mais atentas e afetuosas aos gêneros regionais e às culturas tradicionais locais. O manguebeat ampliou esse olhar, amplificando vozes, criando conceito, linguagem e estética próprias, ainda que preservasse a diversidade.

Em 1997, eu tinha 14 anos e fazia parte de uma espécie de fã-clube da banda O Rappa, que naquela época ainda era pouco conhecida. A própria sonoridade do grupo refletia esse contexto cultural — social, econômico e político — sendo uma mistura de samba, rap, rock e reggae, que dava origem a uma música pop muito inteligente. Em uma passagem de som para um show no Bar Opinião, durante um inverno angustiante de tão frio, apareceu por lá Kako Xavier, que presenteou o técnico de som da banda com um CD demo — acredito — composto por uma versão inicial de No Meio da Praça, canção autoral em formato voz e tambor. Mais tarde, antes do início do show, como uma introdução enquanto os músicos se organizavam em seus postos, essa música foi tocada, sendo repetida após o último bis.

Eu não sabia quem era Kako Xavier, nem me recordo de tê-lo visto na passagem de som. Só tomei conhecimento de seu nome em dezembro seguinte, quando perguntei ao técnico que música era aquela da introdução dos shows de inverno. Tambores com graves profundos, o som dos guizos das maçacaias e os cantos responsivos tradicionais do Maçambique de Osório ecoaram por meses em minhas lembranças. Aqui, preciso falar um pouco sobre esse técnico de som e sobre a importância dele para a execução ao vivo da música pop brasileira nos anos 2000: Ricardo Vidal, de Pelotas.