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Proust-à-porter: Castas

Parêntese #302

“A burguesia da época mantinha uma concepção um tanto hindu da sociedade, como se ela fosse composta por castas bem separadas onde cada pessoa, ao nascer, era instalada no nível já ocupado por seus pais, e de onde nada, a não ser uma carreira excepcional ou um casamento inesperado, poderia deslocá-la para uma casta superior.” (Um amor de Swann)

Apesar de praticamente sair de cena depois do primeiro volume do romance, Charles Swann é o personagem do qual emanam alguns dos temas principais de Em busca do tempo perdido: a paixão e o ciúme, a construção da memória, o sentido da arte e da beleza, a passagem do tempo. E é também Swann quem incorpora, da maneira mais melancólica, o eixo histórico da narrativa: os jogos de poder, real e simbólico, travados entre burgueses e aristocratas nos estertores da Belle Époque. 

Burguês rico, culto e de origem judaica, Swann sentia-se à vontade nos dois pólos - o dos bem de vida e o dos bem-nascidos. Frequentava os salões mais exclusivos e era paparicado pelos afetadíssimos Guermantes, mas continuava aceitando convites para jantar com a família, burguesa até a raiz dos aspargos, de Marcel - onde, aliás, ninguém desconfiava que o amigo de tantos anos poderia estar jantando com o príncipe de Gales já na noite seguinte. 

O casamento com uma mulher de má reputação e mais tarde o antissemitismo que eclode na França durante o Caso Dreyfuss acabam afastando Swann dos dois círculos. Nem aristocratas (em sua maioria não apenas “antidreyfusards”, mas antissemitas envergonhados) nem burgueses de costumes provincianos (como a família de Marcel) aceitam receber Odette de Crécy em suas casas. Swann só então percebe como era frágil a posição que havia desfrutado até ali.