Confira todos os textos da edição #307
- Serranos na várzea – Parte 5, por Geraldo Hasse
- Enchente e apagão no Rio Grande: crises bem diferentes entre si, por Álvaro Magalhães
- Lutz e o Pampa, por Lilly Lutzenberg
- Carta para Juliana, por trabalhadoras da Rede de Atenção Psicossocial (RAPS)
- O pinochetismo volta para La Moneda, por Alexis Cortés
- José Amaro: dândi, flâneur e tenor pelotense, por Jandiro Koch
- O bug, as formigas e a merdificação da internet, por Beatriz Marocco
- Porto Alegre, 1900: a criação da Faculdade Livre de Direito e a presença de magistrados nordestinos como professores, por Arnoldo Doberstein
- Cicatrizes da rua, por Luís Augusto Fischer
- Rimbaud retraduzido, por Juremir Machado da Silva
- Mulher a caminho, por Helena Terra
- Diário da guerra do sono: Capítulo VII – Homem de palavra, por Cristiano
Peões Urbanos
Não faltava o que fazer na repartição oficial. Se não havia máquina para reparar, Teo cumpria ordens de serviço nas ruas. Abriu valas, manejando a picareta, feito mestre cavuqueiro, para colocação de manilhas de esgoto. Até paralelepípedos assentou na rua baldia em que fez sua última morada, construída com tábuas de segunda mão e materiais recolhidos no depósito de entulhos.
Menos por escolha do que por contingências da vida, fez essa casa (finalmente própria) num dos pontos mais elevados de um arrabalde, perto de uma sanga e longe, bem longe, do risco de uma enchente do rio. Desgastado, o ribeirinho sagaz negava as raízes... Reação de desgosto, talvez, à perda da filha, levada pela correnteza, após cair de um barco embandeirado na festa de Nossa Senhora dos Navegantes. Tiara morreu aos 17.
Só fiquei sabendo dessa tragédia muito tempo depois, numa das minhas esporádicas visitas à terra natal. Num desses dias de passeio rápido pela cidade, avistei Teo numa atividade de rua e parei para cumprimentá-lo. Sua aparência já não lembrava o Tarzan. Com a vista fraca, talvez, demorou um pouco a me reconhecer, mas sua reação me soou como queixa:
“Faz tempo que tu nunca mais apareceu...”
O gesto largo da mão sugeriu que meu antigo ídolo carregava ressentimentos. Constrangido, prometi visitá-lo. Não me esforcei para fazê-lo. Me faltou tempo. E convicção. Coragem também. Nunca levei jeito para conviver com pessoas que, não sabendo envelhecer, se deixam envilecer. Mais do que triste, é revoltante.
Entrementes, aquela situação inesperada e constrangedora teve um lado engraçado proporcionado por Alcino, antigo companheiro de trabalho também dedicado a bicos rurais e urbanos. Encontrei-o na estação rodoviária. Fios brancos na carapinha davam indícios do seu envelhecimento precoce, mas seguia bem-humorado. Falou de sua vida, da mulher, os dois filhos encaminhados longe de casa. Aparentemente conformado com sua sina de peão descartável, mantinha a verve sutil que o diferenciava dos colegas de trampo. Sobre o amigo Teo, foi bem específico: disse que ele estava “rengo, molengo e capengo”, só lhe faltando ser “atacado das polias” (ficar lelé) e “babado pelas tias velhas”, como se referia às prostitutas. Seu modo de contar era engraçado e triste ao mesmo tempo. Dividimos o lanche, pastel e café com leite.
*
Não me agrada terminar com lamúrias esse relato iniciado com tão boas lembranças da infância. Na real, sou grato a essa gente briosa dos campos produtivos, das estradas vicinais e das vilas suburbanas. No geral, o saldo de tantas vivências é positivo, mas não posso negar o contencioso amargo resultante do balanço final da história de Teodoro e Felícia, a serrana e o ribeirinho-varzeano.