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Serranos na várzea – Parte 2

Parêntese #304

Serranos na várzea – Parte 2
Imagem: Reprodução / Vídeo do Departamento Estadual de Informações do RS

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Desajustes

Para os serranos em geral, desde os adultos escolados aos mais jovens estreantes na atividade safrista, a granja encostada na cidade era um reduto da civilização – um lugar onde ganhavam o dinheiro vivo com que conseguiriam driblar as agruras dos invernos no isolamento de suas grotas, a apenas 100 quilômetros de distância, na áspera serrania pampeana. 

Brutal contradição: geograficamente próximos, aqueles forasteiros estavam sujeitos a um enorme distanciamento sociocultural. Foi na convivência fugaz com esses caipiras que percebi o quanto eram simultaneamente valorizados por seu desempenho laboral e discriminados por sua condição social. 

Para nós, crianças de uma comunidade estável e relativamente próspera, eles traziam uma lição anual de sacrifício e esperança. Os adultos, porém, os encaravam como seres inferiores – semiescravos bons de serviço que rivalizavam em invisibilidade com os indígenas desprezados como “bugres” vagabundos; com os ciganos acampados eventualmente em barracas itinerantes e vistos como trapaceiros; e com os negros, incorporados à comunidade, sim, mas que não ousassem levantar a cabeça e desafiar a hierarquia estabelecida desde os primórdios da colonização. Outros componentes dessa fauna secundária – bêbados, loucos ou simplesmente desajustados --, eram tratados com desprezo equivalente a uma sentença de morte. 

Quando um desses pobres diabos levou uma surra e foi jogado de cima da ponte, comentou-se menos a tentativa de homicídio do que a sorte da vítima ao sobreviver a uma queda de 12 metros. Segundo o consenso varzeano, “salvou-se porque estava borracho”. Não morreu mas ficou estropiado para sempre.