Pelé de saia e Viagra feminino
Pelé de saia. Versão feminina de Michael Phelps. Esposa do Fulano de Tal.
Com frequência, mulheres de destaque como a camisa 10 Marta são chamadas por apelidos que colocam o homem como exemplo de excelência. Como se não fosse possível compreender a magnitude de uma mulher no campo – nas quadras, na literatura ou onde for – sem uma referência masculina.
Esse tipo de expressão apaga a identidade das mulheres e reforça estereótipos sexistas. Mas evidencia outro aspecto das relações de gênero: eles chegaram primeiro em um nível de excelência. E esse pioneirismo em relação a elas é facilmente explicado pelo machismo – no esporte, na literatura ou onde for.
Na saúde também. Já há alguns anos anunciaram o “Viagra feminino”, indicado para tratar o distúrbio do desejo sexual hipoativo em mulheres na pré-menopausa. O medicamento volta à pauta agora, com o lançamento do documentário The Pink Pill: Sex, Drugs, and Who Has Control (A Pílula Rosa: Sexo, Drogas e Quem Detém o Controle, em tradução livre), que estreou na semana passada no festival DOC NYC.
O filme conta a história de como surgiu o Addyi ou “pílula rosa”. Cindy Eckert, fundadora da Sprout Pharmaceuticals, trabalhou por cinco anos para levar o medicamento ao mercado, o que só conseguiu em 2015, com a aprovação da Food and Drug Administration (FDA). O documentário mostra como a agência federal dos Estados Unidos foi mais exigente no caso do Addyi do que em outros processos.
Eckert enfrentou diversas barreiras para defender a importância da tal pílula rosa. Foi acusada de tentar patologizar as “oscilações naturais” da libido feminina. Ouviu absurdos como: o remédio seria desnecessário porque mulheres são fisicamente capazes de ter relações mesmo sem estarem excitadas, ao contrário dos homens, conforme conta Elizabeth Segran neste artigo. Ou ainda: é normal mulheres não terem desejo sexual depois do parto ou na menopausa, argumento que restringe o sexo a uma função meramente reprodutiva.
A partir da história do medicamento, o documentário mostra como, historicamente, a sociedade negligencia o prazer e a saúde das mulheres, um cenário que, como mostra essa reportagem do New York Times, está mudando – tanto que hoje, depois de anos desacreditado, o Addyi está super em alta.
Para além das questões sexistas, chamar o Addyi de “Viagra feminino” é equivocado do ponto de vista técnico: ele atua sobre os neurotransmissores, e não sobre o fluxo sanguíneo, como o medicamento destinado a homens.
Você pode dizer: “ah, mas o Viagra surgiu primeiro, é um nome conhecido, ajuda as pessoas a saberem do que estamos falando”. Tudo verdade. Mas voltamos ao problema inicial. O “Viagra feminino” está para a saúde assim como o “Pelé de saia” está para o futebol: são manifestações do machismo, sob diversas perspectivas.
Simone de Beauvoir sempre teve razão: a mulher é tratada como O Outro, só existe em relação ao homem. Não é um sujeito autônomo, é mais um objeto. E objetos não têm desejo, não têm talento, não têm prioridade.
Mas não precisamos de uma referência masculina para exaltar nossas conquistas ou atingir nossos objetivos. Existe prazer sem Viagra. Assim como existe Marta sem Pelé.
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