Olá! Nossa reportagem de hoje revela que o Instituto Alicerce promete bônus e renovação de contrato a tutores com salários atrasados em Porto Alegre, enquanto a prefeitura não confirma a continuidade do projeto. A edição também mostra como o calor extremo aprofunda desigualdades na periferia e analisa o avanço do endividamento entre aposentados gaúchos.
Na primeira edição do ano da Tudo É Gênero, Marcela Donini comenta um aspecto da masculinidade tóxica: a normalização da violência entre jovens.
Roger Lerina resenha Living the Land, que retrata as transformações da sociedade chinesa nas últimas décadas.
Juremir Machado da Silva fala de mentiras, espertezas e cinismos, estratégias frequentes do atual presidente dos Estados Unidos.
Compartilhamos também uma reflexão de José Mário Neves, publicada na Parêntese de sábado, sobre nossa relação com os bens materiais.
Boa leitura!
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Alicerce promete renovar contrato e pagar bônus a tutores sem salário
O Instituto Alicerce informou a tutores do projeto Porto do Saber que há expectativa de renovação do contrato com a prefeitura de Porto Alegre em 2026 e prometeu bônus e adiantamentos financeiros a quem permanecer no programa. As mensagens, enviadas pelo fundador Paulo Batista e obtidas pela Matinal, surgem em meio a denúncias de atraso no pagamento de profissionais contratados como MEI, que ficaram sem receber pelos trabalhos realizados em dezembro no contraturno de escolas municipais. A Secretaria Municipal de Educação (Smed), no entanto, não confirmou a renovação e afirmou apenas que há um processo em tramitação.
Segundo os relatos, o Alicerce atribui os atrasos à falta de repasse da Smed, que, por sua vez, apresentou versões contraditórias. A pasta reconheceu que não houve pagamento em janeiro porque o Tribunal de Contas do Estado (TCE-RS) autorizou o programa apenas até dezembro, mas também afirmou que “os pagamentos estão regulares”, sem apresentar comprovantes. No Portal da Transparência, consta um valor liquidado em fevereiro, descrito como referente à competência de janeiro de 2026, o que aumentou a confusão entre os trabalhadores.
A parceria entre a prefeitura e o Alicerce foi alvo de auditoria do TCE-RS e encerrada ao fim do ano letivo de 2025. O tribunal determinou que uma eventual continuidade do projeto só pode ocorrer por meio de novo processo de seleção, sem as irregularidades apontadas no contrato anterior, que resultou na condenação do prefeito Sebastião Melo e do secretário municipal de Educação. Ainda assim, o próprio TCE afirma que o Alicerce pode voltar a ser contratado, desde que cumpra todas as exigências.
Enquanto aguardam uma definição, tutores relatam insegurança financeira e falta de transparência. Contratados como MEI, com hora-aula de 17,71 reais, muitos dizem ter continuado trabalhando sem saber que o contrato já havia sido encerrado. O impasse ocorre em um contexto mais amplo de questionamentos sobre a terceirização de atividades educacionais e a precarização do trabalho no setor público.
Leia a reportagem completa:
O QUE MAIS VOCÊ PRECISA SABER
Calor extremo impacta a rotina de trabalhadores e moradores de bairros periféricos
Brincadeira para alguns, o termo “forno alegre” é mais literal em determinados locais da capital gaúcha. A cidade registrou temperaturas acima de 30º C na última semana, mas as ondas de calor impactam de forma mais profunda regiões periféricas de baixa renda e pessoas que, apesar do sol escaldante, não podem deixar de ir à rua para trabalhar.
Com 29 anos, a confeiteira Tatiara Viana conta que já passou mal enquanto transitava pelas ruas do Centro Histórico em dias mais quentes. Para sobreviver, há um ano ela vende doces, salgados e suco natural nas ruas do bairro. No Morro da Cruz, a educadora social Rosimeri Gomes vive um retrato da desigualdade ambiental: além de morar com dois dos nove filhos em uma casa sem sombra e ventilação, construída com materiais de pouco isolamento térmico, o dinheiro para comprar o ventilador – que estragou em meados de dezembro – disputa lugar com a alimentação.
“Quem olha de fora pensa que é fácil, que vivemos assim porque queremos, mas, entre comer e comprar um ventilador, a gente escolhe comer”, relata a educadora.
Mais do que dificultar atividades diárias, entre 2012 e 2021 o calor extremo provocou a morte de 550 mil pessoas em todo o mundo, conforme estudo publicado na The Lancet. No Brasil, 3,6 mil mortes estão associadas ao aumento da temperatura no mesmo período. Apesar disso, como mostrou a Matinal, o Plano de Ação Climática elaborado pela prefeitura de Porto Alegre carece de políticas integradas para lidar com um dos maiores problemas do século.
Endividamento de aposentados no RS reflete pressão global sobre renda de idosos
Aposentados e pensionistas do Rio Grande do Sul enfrentam um cenário crescente de endividamento. Dados do Serasa indicam que 23% dos gaúchos com mais de 60 anos têm dívidas, muitas vezes contraídas para cobrir despesas básicas como alimentação, moradia e medicamentos. Segundo o INSS, apenas em 2025 foram liberados 800 milhões de reais em empréstimos consignados no estado. A Defensoria Pública identifica três perfis principais: vítimas de golpes, contratos com juros abusivos e superendividados, que já têm quase toda a renda comprometida, além de alertar para riscos de violência financeira e falta de políticas de orientação.
O fenômeno reflete uma tendência internacional. Uma reportagem da Reuters mostrou aumento do superendividamento entre idosos em países europeus, associado ao alto custo de vida e à insuficiência das aposentadorias, um pano de fundo que ajuda a dimensionar a vulnerabilidade enfrentada também no RS.

Casos de violência acendem alerta sobre necessidade de proteção aos animais comunitários
O porte pode ser pequeno, médio ou grande, mas a regra é a mesma. Não ter uma casa fixa não tira o direito de cães e gatos comunitários a uma vida plena. Após recentes casos de agressão e morte de animais registrados em Santa Catarina, Paraná e Rio Grande do Sul, o cuidado com animais companheiros voltou ao debate.
Em Porto Alegre, animais como Nala, Brit 1 e Brit 2 recebem o carinho da comunidade no Alto Petrópolis, como mostra reportagem do Correio do Povo. Ao todo, 17 animais estão registrados no sistema da prefeitura, que cataloga indivíduos em situação de vulnerabilidade nas ruas da cidade, da zona sul à Lomba do Pinheiro. Conforme Tatiana Guerra, do Gabinete da Causa Animal de Porto Alegre (GCA), o cadastro é essencial para o desenvolvimento de atendimento qualificado na área da saúde, o que inclui vacinação e castração. Atualmente, uma lei estadual de 2019 obriga a identificação de animais comunitários, com microchipagem e coleira com o número de um tutor responsável. Acesse aqui o formulário de cadastro do GCA.
Foto: Pedro Piegas / PMPA
OUTRAS NOTÍCIAS
O preço da cesta de alimentos no RS diminuiu 0,48% em janeiro, custando 289,83 reais. Considerando os últimos 12 meses, a queda é de 1,54% no valor.
As comportas 1, 2, 4 e 6 do sistema anticheias da capital estão passando por reformas, que devem ser concluídas em março.
Ainda não há previsão para o retorno dos oito tradicionais relógios do Mercado Público. O motivo é a necessidade de sincronização dos equipamentos e a instalação da fiação elétrica.
Desde a saída de Fernanda Barth (PL) da Secretaria de Desenvolvimento Econômico, a prefeitura de Porto Alegre está há 53 dias sem um secretário na pasta, e um novo titular deverá ser indicado até o final de fevereiro. Já no contexto estadual, Leite escolheu Gustavo Paim, ex-vice-prefeito de Porto Alegre, como novo secretário de Desenvolvimento Rural.
O último relatório do Dmae aponta seis locais seguros para banhistas na orla do Guaíba, todos em Belém Novo e no Lami. Dos 96 locais analisados pela Fepam ao longo do estado, 91 estão próprios para banho.
Desde novembro de 2025, 221 toninhas (espécie de cetáceo ameaçado de extinção) e 30 tartarugas marinhas foram encontradas mortas na costa de Albardão, extremo sul do RS. A região é impactada pela pesca e por projetos de energia eólica, e pesquisadores defendem a criação de duas unidades de conservação no local, para proteger as espécies.
Nesta semana estão disponíveis 372 vagas em concursos públicos no RS, com salários que podem chegar a 11,4 mil reais. Confira as oportunidades.
Juremir escreve sobre o jogo de poder de Donald Trump, entre a mentira, a esperteza e o cinismo.
Os Homens e as Coisas
por José Mário Neves
Para quem ainda duvida de que somos governados pelas coisas, cabe acrescentar que o domínio delas não apenas hierarquiza as pessoas e os grupos sociais, mas determina a vida que cada um leva – vidas muitas vezes confinadas às fronteiras da desumanidade, como vemos cada vez mais vagando pelas ruas das nossas cidades.
Leia o texto completo →
A violência praticada por meninos
Como explicar para o meu filho que meninos não muito mais velhos que ele, que até pouco tempo também brincavam com seus dinossauros, são capazes de agredir e matar um cãozinho? Pior: como explicar que esse não foi um caso isolado? Adolescentes torturam e matam animais diariamente e exibem-se em grupos formados em redes como o Discord, como explica a delegada Lisandréa Salvariego, do Núcleo de Observação e Análise Digital (Noad), da Polícia Civil de São Paulo. “O que motiva tudo isso é a violência pela violência. Não tem nenhum objetivo, além de ficar famoso, conhecido e ter status dentro daquele grupo”, disse Salvariego à BBC.
CULTURA
“Living the Land” despede-se da China rural e ancestral

Ganhador do Urso de Prata de Melhor Direção no Festival de Berlim, o belo e comovente Living the Land (2025) é o réquiem de um país que não existe mais: a China rural anterior à revolução tecnológica e ao crescimento econômico. A partir de suas memórias de infância, o diretor e roteirista Huo Meng acompanha um menino que testemunha as profundas transformações nacionais a partir da vida de sua aldeia de camponeses no começo dos anos 1990. Leia a resenha de Roger Lerina.
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