Mulheres vivem menos do que os homens
A cena faz parte do primeiro ato de Rhinocerontes, da Cia. Teatrofídico, peça à qual assisti no Porto Verão Alegre em fevereiro. Uma mulher sobe na mesa para protestar. Logo, um homem começa a tocá-la nas pernas. Ela passa a tentar afastar as mãos dele. Aquilo a distrai, e ela perde o foco no discurso. Nossa atenção, como espectadores, também se divide.

Lembro de ficar na expectativa de que o assédio escalasse, mas a violência não evolui, e logo a cena muda.
É um momento secundário na montagem, inspirada em Eugène Ionesco e que se propõe a ser uma sátira sobre a alienação das pessoas frente à ascensão de regimes totalitários.
Eu poderia fazer uma resenha sobre a peça. Acontece que, assim como tantas outras vezes em que ensaiei escrever sobre qualquer coisa que não fosse violência contra as mulheres, me vi mudando de rota porque não é possível meu deus do céu preciso escrever sobre isso de novo. E de novo.
São as malditas lentes do gênero. Estão comigo para onde quer que eu olhe.
Lembrei da tal cena quando li sobre as críticas do apresentador Ratinho em relação à deputada federal Erika Hilton (PSOL-SP). Ele questionou a liderança da parlamentar à frente da Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher da Câmara dos Deputados por ela ser uma mulher trans.
Eleita em 2022, Erika apresentou ao menos 26 proposições relacionadas aos direitos das mulheres, segundo levantamento da Agência Diadorim. Poderia ser mais, se não tivesse de perder tempo respondendo a ataques transfóbicos.
Lembro ainda de uma manifestação da vereadora Natasha Ferreira (PT), no Festival MEL, realizado em dezembro do ano passado, quando ela mencionou a sobrecarga das mulheres que conquistam um cargo público e precisam escolher entre “discutir orçamento ou denunciar os ataques que sofrem”. No caso da petista, ataques transfóbicos, como os que Erika também sofre.
Tudo é gênero, tudo é raça
Na Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul, outro caso. Em uma publicação recente no Instagram, a deputada estadual Laura Sito (PT) denunciou a postura racista de colegas de parlamento que, com frequência, a confundem com Bruna Rodrigues (PCdoB). As duas primeiras mulheres negras a ocupar cadeiras no legislativo gaúcho têm de perder tempo explicando quem é quem depois de quase quatro anos de mandato. “Nossos corpos, ainda estranhos aos espaços de poder, são tratados como genéricos”, escreveu Laura.
Em um episódio do Rádio Novelo Apresenta, Luiz Maurício Azevedo e Fernanda Bastos contam sobre os desdobramentos da importunação sexual sofrida por ela no condomínio onde moravam em São Paulo (relembre aqui). Foram obrigados a mudar a rotina por segurança, enquanto a tensão crescia por serem uma família negra em uma região onde pessoas brancas são maioria.
Ao final, ouviram da polícia que aquele era um caso perdido, que o vizinho agressor, um homem branco e de família rica, era violento mesmo e que, diante das ameaças, o melhor a fazer seria deixar o prédio. Ou a cidade.
O casal, que tem um filho pequeno, acabou desistindo de São Paulo. E de todos os planos pensados para aquela cidade à qual tinham chegado não fazia muito tempo. Ao final do episódio, Luiz Maurício diz: “é muito fácil você roubar uma cidade de alguém”.
Mais fácil ainda se o ladrão for um homem branco, e a vítima, uma mulher.
No fim das contas, ainda que as estatísticas revelem que a expectativa de vida das mulheres é maior, a verdade é que vivemos muito menos do que os homens. Das microagressões no ambiente de trabalho aos minutos que perdemos pensando na roupa mais segura para vestir, é muito o que deixamos de fazer – produzir, criar, conquistar, aproveitar… – para dar conta das demandas que nos são impostas por nossa condição de gênero.
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