
Santo na cabeça
Peguei uma leva de romances e li: Oração para desparecer, que já comentei aqui, e A cabeça do santo, da cearense Socorro Acioli, e Setembro negro, do italiano Sandro Veronesi, de quem já tinha lido e resenhado Colibri. Socorro Acioli gosta do amparo de nomes consagrados. A cabeça do santo nasceu numa oficina em Cuba com Gabriel García Márquez. A expectativa sobe. Bate no céu das estrelas literárias. A leitura baixa a fervura.
É ruim? Não, é bom, mas com um texto hesitante que, às vezes, parece um tanto iniciante. Tem-se a impressão de que há mais recuperação de histórias populares do que criação ou imaginação. Qual o problema? Aí depende da matriz de análise. Georges Simenon considerava que ser escritor era contar o que não se viveu, ou seja, o que se inventou linha por linha. Traduzo com minhas palavras a concepção do grande autor de livros policiais, que, obviamente, não tinha em sua biografia os casos que narrou.
Em poucas linhas, A cabeça do santo conta a história de um homem que, depois da morte da mãe, por promessa feita a ela, vai a outra cidadezinha a procura do pai. Na sua pobreza, vai a pé. Chegando lá, perdendo os pedaços, acaba morando na cabeça da estátua de Santo Antônio, que não conseguiu ser elevada à altura dos ombros do milagreiro para ser instalada no seu lugar.
Ali, na cabeça do santo, o protagonista ouve vozes de mulheres pedindo para casar. Natural e sobrenatural, como marcas da escritora, misturam-se, nem sempre com boas emendas, numa torrente de insólitos.
Nos agradecimentos, Socorro Acioli conta que Gabo gostou e incentivou a continuação da sua obra. Quem não continuaria? Quem duvidaria?
Como sempre, o amor entra por uma fresta da história e compensa as misérias da existência, o que redime um pouco a humanidade por seus males.
É impressionante a riqueza da cultura popular brasileira, com suas mitologias, lendas, fábulas e acontecimentos reais transfigurados pela fé ou pela simples imaginação de cada contador de uma boa história.
Comparado com o texto de Sandro Veronese, o livro de Socorro Acioli tem certa frouxidão, com muita interpolação explicativa clichê, como esta: “Túlio era o seu nome, famoso pelo faro de detetive e pelas reportagens que não deixavam nenhuma pergunta sem resposta”. Mas quem precisa comparar? Que furor comparativo é esse? Qual a razão disso? Será que é implicância?
Implico com redundância: “Nada o impediria de ir embora de Candeia naquele momento, se o desejasse”. Por supuesto, se não desejasse, ficaria.
Ficou. Estava apaixonado por uma vez que cantava “mornas”.
“Mornas” são canções do Cabo Verde.
Passei bons momentos à beira do mar da Bahia lendo A cabeça do santo. Como quando vejo um filme, caso de O agente secreto, não consigo parar de pensar nas engrenagens da narrativa. O público, em geral, vai em frente.
Socorro Acioli tem o mundo literário para devassar. Será que consegue mudar de registro? Ou um escritor precisa encontrar a sua marca e nela permanecer para sempre? Não foi isso que fez o próprio Garcia Márquez