Uns quinze anos atrás, tive um momento de convivência com o Humberto Gessinger, o engenheiro havaiano. Foi quando ele e eu publicamos, pela mesma editora (Belas Letras, de Caxias do Sul), livros para crianças sobre o Grêmio, ele, e o Inter, eu. Andamos por cenários porto-alegrenses e por algumas cidades do interior fazendo lançamento e batendo papo com leitores.
Nem preciso dizer o abismo de prestígio que nos dividia, ele um popstar, eu um professor de literatura. Era ao mesmo tempo lindo e atemorizante ver os fãs que vinham pedir autógrafos e fotos pra ele. Um deles mostrou tatuagem feita na panturrilha com o rosto dele. Impressionante.
Mas o HG é gente muito boa, não apenas não faz pose como, pelo contrário, escancara sua inapetência para a fatuidade. E para completar, nos conhecemos desde muito antes, por alguns acasos da vida. Quando comecei a dar aulas, em 1980, eu com 22 anos, ele foi meu aluno, aos seus 17 anos; e mesmo antes nossas famílias interagiam socialmente. Só que ele virou um fenômeno artístico e midiático de proporções nacionais.
Ocorre que, naquele momento de divulgação de “Meu pequeno gremista” e “Meu pequeno colorado”, tempo em que, comparativamente, a internet era só pasmo e dispersão, o HG levava uma atividade que agora, com o Janones, tem todo aspecto de profética.
Eu pouco incidia na internet, salvo para alguma pesquisa (era ainda o Altavista?), nem facebook eu tinha; mas o Humberto tinha já naquele momento uma atividade ao vivo, em que interagia com fãs, não lembro se cantando ou conversando ou tudo isso. Se não me falha a memória, ele contou que tinha um encontro ao vivo tipo uma vez por mês, nas (digamos) primeiras terças-feiras do mês, às 23h.
Lembro vivamente que, ao saber dessa sincronia, fiquei, como dizer?, sem palavras. Então era possível estabelecer alguma convergência naquele mundo de cada-um-por-si da internet?
Era, e foi isso que o Janones comandou no Brasil e agora em outros quadrantes: instituiu um ponto focal, um nó, uma esquina, uma praça em que dez milhões de pessoas se encontraram simultaneamente. Ali onde tudo era força centrífuga, ele (e antes, em escala modesta, o HG) viu o poder da convergência.
Vai durar? Talvez apenas o que duram os grandes encontros, que são fugazes porque são assim mesmo, pontos luminosos no tempo.
Luís Augusto Fischer