
Sobre um caco de vidro azul
O sol atravessava o vidro azul perdendo a sua intensidade. Olhar através daquele caco sombreava o mundo como se, por um efeito de difração, tudo se tornasse mais calmo, quase em estado de não vida. Eu usava aqueles cacos para tentar modificar a natureza de cada coisa, as árvores, as nuvens, o campo a perder de vista, um cavalo encilhado, as roupas no varal.
De onde vinham aqueles cacos que, volta e meia, eu encontrava em algum ponto do enorme pátio, no pomar, entre as laranjeiras, sob os eucaliptos, junto ao grande e frondoso umbu com sua imensa cavidade na base, onde eu podia me esconder, não fosse a voz angustiada de minha avó gritando “sai daí, guri, pode ter cobra nesse oco, não te mete aí, guri”?
Então eu saía a examinar cada ente da existência com minha lente eufemística. A vida, às duas da tarde, quando todos sesteavam e o sol a pino castigava os bichos e o solo, ganhava uma dimensão esquisita. A cor azul daqueles cacos de vidro exercia sobre mim um fascínio inexplicável. Havia algo de intenso, de misterioso, de belo, uma beleza inusitada naquele azul leitoso difícil de ser encontrado em estado bruto em outro lugar.
Tudo era novidade naquele pequeno universo sem grandes acontecimentos. Numa manhã de inverno, ao olhar por cima da mata que se entendia na divisa do campo, constatei algo que me perturbou como nunca antes se dera com qualquer fenômeno natural. Saí desesperado gritando para minha tia: “O cerro sumiu. Não tem mais cerro. Tiraram o cerro do lugar”.
O cerro era o enorme morro do outro da mata, há uns três quilômetros, que se erguia impávido e colossal, num efeito de perspectiva, como se estivesse por tocar o nosso ponto de observação. Nada se podia ver naquele momento pelo vidro azul que eu escondia ao alcance da mão. Minha tia começou a rir, não podendo se conter, mas não querendo me magoar.
– Ele vai voltar até o meio-dia – disse, por fim.
Meu tio, que era um homem mais silencioso, apenas sorriu. Foi o assunto do dia. O sumiço do cerro. Então me explicaram o que era a cerração. Por algum tempo, achei que a cerração emanava do próprio cerro.
Ninguém parecia interessado em olhar o mundo com os cacos azuis que eu recolhia. O máximo que faziam era me avisar para ter cuidado, podia me cortar. O olhar dos adultos era estranho, desencantado, sem curiosidade pelo que me parecia mais fascinante, quase mágico, as cores do universo, os sons da natureza, o canto intenso das cigarras, o movimento da vida.
Não havia com quem compartilhar o encantamento que me dominava. Nunca haveria. Os cacos azuis não produziam sobre as pessoas o mesmo efeito que tinham em mim. Eu me sentia deslocado, vendo tudo por outra dimensão.
Quando voltei, anos depois, já não havia cacos azuis no chão, o pomar estava maltratado, a casa virara tapera, o velho umbu resistia, aparentemente mais combalido, apenas os sons da natureza eram os mesmos, como se as cigarras tivessem ficado para guardar a magia do passado. Então eu procurei num dos meus esconderijos favoritos um caco azul e o encontrei.
Não tive, porém, coragem de olhar.