Spray de pimenta
Feche as pernas.
Não use roupa curta.
Não dê mole.
Fale mais baixo.
Não chame a atenção.
Não saia sozinha à noite.
Avise quando chegar em casa.
Devia ter ficado quieta.
Por que não fugiu?
A responsabilidade de proteger-se contra a violência de gênero sempre recaiu sobre as próprias mulheres. No final de junho, ganhamos mais uma ferramenta de sobrevivência. Foi autorizada, pelo Senado, a venda de spray de pimenta para mulheres. Agora sim!
Nem vou entrar no mérito de ter de estar preparada para usar esse tipo de artifício ou calcular o risco de reagir numa situação dessas. A questão não é ser contra ou a favor de aulas de defesa pessoal ou outro recurso de proteção contra potenciais abusadores. O ponto é a frustração de se dar conta de que, às vezes, isso é tudo o que temos.
Apostar em ações individuais mascara o problema. Mas a violência contra as mulheres é tão complexa que, enquanto investimos em políticas públicas de educação de gênero, ampliação de rede de acolhimento para vítimas de violência doméstica, reeducação de agressores, não podemos abrir mão de alternativas que incidem na emergência do perigo cotidiano a que estamos submetidas. Afinal, o que está em jogo é nossa integridade – e nossas vidas, no pior dos cenários.
Penso no vagão exclusivo para mulheres em metrôs, como no Rio de Janeiro. Passageiras relatam a tranquilidade de embarcar num ambiente seguro, sem a preocupação constante, conhecida das mulheres que andam de transporte público e precisam escolher bem onde sentar ou calcular o quanto vão ter de se espremer para atravessar o ônibus inteiro lotado de gente – e homens.
Sim, porque às vezes nem parece que estamos falando de gente. No caso do metrô, é como se os homens fossem feras à solta. Mas em vez de domá-las, enjaulam as vítimas.
O vagão exclusivo é a ilustração perfeita da falência frente ao problema da violência contra as mulheres. Se o Estado não pode garantir a nossa segurança, simplesmente aceitamos que os homens não têm conserto. E mesmo assim, não queremos abrir mão dessa alternativa.
Mas saiu do metrô, é cada uma por si.
Melhor carregar seu spray de pimenta na bolsa.
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