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✉️ Candidato disfuncional

Tudo É Gênero #53

✉️ Candidato disfuncional
Quem faz a sua mala? Foto: Vlada Karpovich/Pexels


Candidato disfuncional

No vídeo, o foco está no candidato, mas a voz que ouvimos é da esposa, de costas para a câmera. Ela diz que já arrumou a mala do querido e lista quais roupas ele deve usar em cada ocasião.

Ele assente com a cabeça, diz “tá bom, tá bom, tá, amorzinho, vamo que eu tenho que gravar”, ela segue falando das peças que escolheu, ele mexe no celular e diz que vai esquecer, ela diz que é só prestar atenção, e haja saco para assistir até o final.

Corta.

Outro ângulo, foco no candidato, que diz “queria que, antes de tu sair, tu separasse a minha roupa”.

Santa paciência.

No post das redes do candidato ao governo do Rio Grande do Sul, homens e mulheres comentam que “homem é tudo igual”, “na nossa casa é a mesma coisa” etc. Os comentários não são em tom de crítica, pelo contrário: a situação é motivo de risos e celebrada por representar uma “família real”. Real, mas em total desacordo com o Manual do Adulto Funcional (que não existe, mas precisa ser criado imediatamente a julgar pelas figuras que encontramos por aí).

Para o candidato e seus seguidores e seguidoras, vale a cartilha do machismo, daquele tipo que quase passa despercebido, com “piadinhas” das quais até as mulheres dão risada. Uma gargalhada aqui, um sorriso amarelo ali, e acabam todas soterradas por pilhas de roupa e louça para lavar.

Nos comentários do post, repetem-se variações da velha máxima “aqui, a mulher manda, e o homem obedece”. Essa lógica é um dos pilares que sustenta o patriarcado porque refere-se a uma relação restrita ao espaço privado, para onde a mulher é empurrada, reforçando o entendimento de que a função dela é gerenciar o ambiente doméstico e cuidar do outro.

Se tem muito homem que sequer compra as suas cuecas, como revelou reportagem da Folha de S.Paulo, não surpreende o “candidato da família” depender da esposa para se vestir. Mas é lamentável uma campanha fazer um papelão desses em meio a um debate público sobre rever estereótipos de masculinidade e lutar pela autonomia das mulheres. Uma conversa impulsionada pela urgência em combater a violência de gênero, vale lembrar.

Cuidar do companheiro ou da companheira deve ser uma via de mão dupla. Ou os dois apoiam-se e são responsáveis pela casa e pelos filhos ou alguém está sobrecarregada – sim, no feminino, porque esse substantivo costuma ter gênero.

Rir do marido que não faz a própria mala e sequer presta atenção no que a esposa está dizendo, além de ser patético e desrespeitoso, naturaliza uma relação desigual. Na peça de marketing eleitoral, a narrativa do acúmulo do trabalho doméstico é torcida até chegar ao ponto de não mais parecer o que é, uma sobrecarga que esgota as mulheres. A distorção também mascara a preguiça (ou falta de vergonha na cara?) do homem que não é responsável pelo cuidado básico consigo e, assim, o fenômeno é apresentado como uma condição natural contra a qual não há como lutar.

Muito conveniente para o adulto disfuncional.

Mas vão dizer que é só uma piada.

Vai rindo.


As opiniões emitidas pela autora não expressam necessariamente a posição editorial da Matinal.

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