O problema são os adultos
Uns anos atrás, ganhou holofotes um movimento chamado “childfree”. Começou com a legítima bandeira de quem não quer ter filhos e descambou para quem queria vetar crianças em estabelecimentos diversos em defesa do sossego.
A ideia de separar crianças do convívio social é só mais um exemplo do quanto as pessoas estão cada vez mais intolerantes ao outro. Logo, um outro que berra, corre entre as mesas e diz o que pensa na hora que quer é demais para uma sociedade que se acostumou com o conforto da sua bolha e a medicar-se a qualquer sinal de incômodo porque sequer consegue lidar com as próprias angústias.
Seria muito mais benéfico para a população mandar para o cantinho do pensamento alguns tipos de adultos, como os que fazem campanha anti-vacina, por exemplo – não fosse essa gente, a cobertura de doenças como a gripe não estaria tão baixa em diversos estados brasileiros. Ou fumante que dá baforada na cara dos outros. Homem que bate em mulher ou não paga pensão. Gente grande que não cumprimenta o porteiro. Bebe e dirige. Acha que racismo é questão de opinião. Gente que vota contra o fim da escala 6X1.
Adultos têm potencial para provocar grandes estragos para a sociedade. Vejam o que fizeram pais e mães de estudantes do 4º ano do Colégio Militar Dom Pedro II, gerido pelo Corpo de Bombeiros do Distrito Federal. Tentaram censurar o uso de um dos maiores clássicos da literatura infanto-juvenil brasileira, o livro A Bolsa Amarela, de Lygia Bojunga, escritora nascida em Pelotas, hoje com 93 anos.
A obra de 1976 foi lançada em plena ditadura militar para, 50 anos depois, ser questionada pelas famílias de bem do Distrito Federal. Segundo notícias na imprensa, o colégio explicou que um recorte da obra foi usado em um material complementar para estudos sobre análises textuais e que, após as manifestações recebidas, “foi retirado preventivamente para reavaliação pela área pedagógica, que concluiu que a atividade estava adequada, sem prejuízo aos alunos e sem viés ideológico”.
O auê custou algumas horas de trabalho para a equipe pedagógica do colégio e umas páginas dos portais. O pior efeito certamente foi contribuir para inflamar a turma do Escola Sem Partido, que não sossega. Ainda mais em ano eleitoral.
Mas o que tem de tão assustador na Bolsa Amarela? Apenas os sonhos de uma menina de 10 anos, que nunca encontra acolhimento para seus anseios.
Raquel, a protagonista, quer crescer logo porque sente que as crianças não são levadas a sério, não são ouvidas, são impedidas de fazer muitas coisas. Mas ela não quer ser apenas adulta, ela quer ser menino, porque também percebe cedo que eles gozam de mais liberdade. E mais: deseja ser escritora.
Cansada de ser calada e ignorada, ela começa a guardar todos os seus desejos na tal bolsa amarela. Quanto mais Raquel esconde suas vontades, mais a bolsa vai ficando pesada e difícil de carregar (Freud manda um abraço).
Na sua bolsa, também cabem seres imaginados, como animais falantes, e eu me pergunto por onde andam os amigos imaginários das crianças de hoje. Acho que não sobrevivem ao primeiro play no tablet ou outro desses recursos infalíveis para manter as crianças quietinhas, sem interromper o sossego dos adultos.
O povo que tentou censurar o livro certamente não o leu e achou que se trata de um panfleto da tão temida “ideologia de gênero”. Nas mensagens dos grupos das famílias, tinha gente falando em “homossexualismo”, misturando alhos com bugalhos. Implicaram mesmo com o fato da menina querer ser menino. Preocuparam-se à toa, porque Raquel não faz cirurgia de afirmação de gênero. Falta imaginação e sobra literalidade para quem lê pouco e só se informa por grupos de WhatsApp.
Sempre achei genial essa sacada da Lygia: a desigualdade de gênero é tão óbvia já na infância que até uma menina de 10 anos percebe, daí o seu desejo de ser menino. Mas o livro vai muito além de uma discussão de gênero. Ele fala sobre os direitos de uma criança enquanto indivíduo. Direito de ser ouvida, respeitada, de poder manifestar seus medos e dar vazão à imaginação, à curiosidade e às dúvidas típicas da infância. Lygia traz todas essas questões à tona com criatividade, humor e sensibilidade, sem escorregar no tom moralista tão frequente na literatura infantil.
Raquel queria ser adulta porque, na sua fantasia infantil, adultos fazem tudo o que querem. O problema é que tem adulto que acha que pode mesmo fazer o que bem entende.
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