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✉️ Um vilarejo medieval na França

Newsletter do Juremir #190

✉️ Um vilarejo medieval na França
Um vilarejo medieval inesquecível | Foto: Ana Claudia Rodrigues

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Impressões, vento gelado

Estou cada vez mais refratário a fatos e mais sensível aos sentidos e impressões. Olho o mundo cada vez mais como se fosse uma pintura de Claude Monet. Vejo pontilhados, pinceladas, fragmentos.    

Não me espanto como outrora diante dos acontecimentos que povoam o mundo jornalístico. Nem a prisão de Jair Bolsonaro, em dia para ser comemorado na história da democracia brasileira, me arrancou dessa ataraxia (meus leitores são cultos). Meus olhos veem subjetividades.

Matthijs Gardenier, docente na Universidade Paul Valéry, em Montpellier, que fez pós-doutorado me Porto Alegre, na PUCRS, convidou-nos para um passeio no maciço do Larzac, região montanhosa do Aveyron. Fomos visitar o vilarejo medieval de La Couvertoirade, cujo castelo foi construído pelos templários no século XII. Os hospitalários, no século XV, fortificaram a cidadela em torno.

Com Matthijs Gardenier

O vento gelado de novembro soprava como uma música. O sol brando iluminava cada rochedo como uma projeção sobre um quadro de uma beleza naturalmente brutal ou brutalmente natural. O cheiro de um rebanho de ovelhas parecia acentuar a sensação telúrica do momento. Curvados pela ventania, conversamos sobre muita coisa, especialmente sobre a nossa finitude diante daquelas pedras seculares das paredes e com milhões de anos de existência nos paredões rochosos da imponente estrutura.

Menos de duzentas pessoas moram no vilarejo de ruelas, escadarias, tetos de telhas da região e da história, frestas para elevações e vales como oscilações de uma mão desenhando curvas. Comemos um pequeno restaurante do “village” ótimas “saucisses à l’aligot”: uma linguiça com um purê de batatas, creme, queijo e alho. Como há muito abandonei bebidas alcóolicas, ignoro mesmo os vinhos franceses, que Cláudia bebe ao meu lado. Uma vez, falei de coisas assim e fui repreendido como afetado, exibido, deslumbrado, metido.

Era só o cronista relatando a bela simplicidade de uma jornada. No vilarejo medieval que visitamos há um “four banal”, o forno comum a todos do qual Michel Maffesoli fala como local de encontro da comunidade, de comunhão, de compartilhamento. Há também um pequeno cemitério que nos obriga a pensar no tempo, na vida, na efemeridade.

No retorno, na bela paisagem rural, passamos num belvedere do qual se pode ver a majestosa expressão de Navacelles. No caminho, falamos sobre política. Matthijs nos brindou com a precisão dos seus conhecimentos da política francesa num momento em que a França patina na instabilidade e na polarização. O sol nunca nos abandonou. Parfait!

Fiquei com o vento nas orelhas, o sol nas retinas, os campos diante de mim, como se não pudessem ser apagados de uma tela, a paz do lugar na alma, uma espécie de solidão povoada de sensações e encantamentos. Uma alegria tão gratuita quanto tomar um pouco de sol.

Como estava à toa no final de sábado à tarde, resolvi escrever este texto de reconhecimento pelo passeio e de satisfação com as imagens. Meu álbum pessoal ficou mais rico de impressões. Elas têm a solidez de uma muralha medieval. Não desmoronam com meras narrativas.