
Zema quer trabalho infantil
Não passa uma semana sem que algum político produza uma declaração impressionante para apreciação da mídia, dos especialistas e dos humoristas. Quase sempre, o humor possível arranca lágrimas, não risos.
O Brasil é o país do golpe, do contragolpe e da dosimetria, apelido moderno da velha e sempre presente anistia para “virar a página”.
É também o país em que quase tudo se repete como novidade, de novela velha a partido novo, de truque de mágica a golpe na internet e no celular.
Romeu Zema é do Novo. Foi governador de Minas Gerais. Curiosamente nada parece tão velho quanto as suas ideias. A mais recente proposta indecorosa do pré-candidato ultraliberal à presidência da república é a possibilidade do trabalho infantil. Zema acha que trabalhar desde criança educa para a vida. A genial proposição de Zema foi feita no 1º de maio.
Segundo ele, “criou-se no Brasil essa ideia de que jovem não pode trabalhar”. Acima de 14 anos pode atuar como menor aprendiz em alguns tipos de atividades. Pelo jeito, Zema quer criança mesmo no batente: “Eu sei que o estudo é prioritário, mas toda criança pode estar ajudando com questões simples, com questões que estão ao alcance dela”, sugeriu com ar sábio. Vale sublinhar nessa declaração o sibilante “toda criança”. Toda! Uai!
Zema é tão velho que defende um tipo de trabalho para crianças extinto: entregar ou distribuir jornais. Propositivo e categórico, avisou: “Aqui é proibido, está escravizando a criança. Então, é lamentável. Mas tenho certeza de que nós vamos mudar isso aí”. Aí está: primeiro ponto da plataforma de Zema, o novo, ou o velho: reintroduzir o trabalho infantil.
O intrépido Romeu Zema tem tudo para transformar o argentino Javier Milei num comunista de carteirinha. Na sua ode ao trabalho infantil pedagógico e salutar, sustentou: “Hoje é dia do trabalho e aqui no Brasil parece que a esquerda criou essa noção de que trabalhar prejudica criança. Lá fora, nos Estados Unidos, criança sai entregando jornal, recebe sei lá quantos centavos por cada jornal entregue no tempo que tem”. Nos Estados Unidos, porém, a lei também só permite trabalho a partir de 14 anos.
Para um mineiro ele não tem a dita discrição, nem a desconfiança. É autoconfiança pura. Vai direto ao ponto. O jornal O Globo deve gostar. Em editorial, outro dia, o jornal da família Marinho defendeu aumentar a carga semanal de trabalho no Brasil, não diminuir. Ficou subentendido o 7 x 7.
Na era da aceleração tecnológica e da inteligência artificial, em que se fala de pós-trabalho, Zema quer engrossar o exército laboral de reserva com mão de obra infantil. Deve ser por algum objetivo altamente nobre como derrubar a inflação, aumentando a oferta e diminuindo o custo do trabalho.
Mineiro é estereotipado como raposa, ainda mais em política. O raposão Zema quer cuidar do galinheiro em nome das galinhas. Tudo desinteressadamente como deve ser um político na sua opinião objetiva.
Acossado, Zema amarelou , deu para trás e disse que falava de adolescentes na condição de Jovens Aprendizes. Era bem mais do que isso.
Romeu Zema e o Novo deviam ler, num deslocamento para Brasília, um tal de Max Weber: a política como vocação. É velho texto sempre novo.