“Quer viver de vento então?”, era a terrível pergunta que as mães lançavam aos filhos menos afeitos ao trabalho em Palomas. Ventava muito, especialmente na Semana Santa, o que permitia coalhar o céu de pandorgas.
Sempre penso nisso quando me preparo para ir Santana do Livramento e Rivera.
Livramento e Rivera formam um par singular, um casal com poucas brigas e muita união, o que chega a ser quase uma patologia. Não brigam mais nem por futebol. O interessante das fronteiras é que juntam e separam ao mesmo tempo. Itaqui e Alvear, Porto Mauá e Alba Posse, Uruguaiana e Libres, têm o imenso rio Uruguai no meio. É fronteira líquida. Tudo flui. A proximidade, apesar desse divisor natural, é imensa. O portunhol é falado com elegância e desenvoltura.
Já Livramento e Rivera estão separada apenas por uma rua e marcos de longe em longe. A distância, apesar disso, assim como a proximidade, é gigantesca.
São duas culturas, duas línguas, duas maneiras de fazer o corte das carnes, dois comprimentos das saias das meninas, dois estilos de futebol, dois tipos de pavimento das ruas (em Rivera predomina o cimento) e até dois tipos de cachorro-quente. Os “panchos calientes” são feitos com um pãozinho que serve de envelope para uma salsicha imensa. É até meio pornográfico. Leva-se uma meia hora da salsicha até o pão. Em cima, um risco amarelo de uma saborosa mostarda.
Rivera tem cassino. Livramento – por culpa do presidente Eurico Gaspar Dutra, que era meio taipa e muito influenciável, tendo dado ouvidos a uma tal de Dona Santinha – não. Em Rivera, aqueles uniformes estudantis, uns aventais brancos enormes com um tope azul, creio que nunca foram abandonados.
Dava uma charme todo especial.
Rivera tem vivido dos seus free-shop. Vende para brasileiros. Livramento agora também tem free-shop. É um vaivém de gente comprando e calculando.
Quando eu era criança por lá, quase todo mundo trabalhava na Cooperativa de Lãs, no Lanifício Albornoz ou nos Frigoríficos Armour e São Paulo e na Cervejaria Gazapinha. Quebrou tudo. Ficaram as marcas daqueles tempos em prédios.
Quatro clubes de futebol disputavam nossos corações: 14 de Julho, Fluminense, Grêmio (vermelho e branco) e Armour. Sempre fui 14 de Julho.
O Leão da Fronteira está voltando.
Quase tudo fechou, encolheu ou deu uma parada. Até o centenário Colégio Santanense, onde vivi as primeiras alegrias com leituras, foi-se.
Não faz muito tempo, se minha memória não me engana, fechou as portas a Casa Salim, aonde ia com a minha mãe comprar roupas a crédito para toda a família.
Surgiram outras empresas. Palomas foi descoberta pelos viticultores. Meu avô, certa vez, lamentou-se: “Livramento vai acabar vivendo de vento”. Acertou. A energia eólica pintou como salvação da lavoura. Talvez um dia Palomas seja tomada por moinhos de vento modernos. Eu me candidato a ser o Cervantes de Palomas. Ou Quixote. Ou Sancho Pança. Ou Rocinante. Ou eu mesmo.
Mas nem só de vento vive a região. Tem muita uva, azeitona e até soja.
E turismo, comércio, trem do pampa, etc.
Sem contar o minuano que continua soprando.