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"A Noiva!" atira para todo lado

Filme dirigido por Maggie Gyllenhaal faz releitura feminista de "Frankenstein"

"A Noiva!" atira para todo lado
Warner/Divulgação

Em sua segunda investida no cinema como realizadora, Maggie Gyllenhaal vira pelo avesso ícones da literatura gótica e do cinema de horror. Escrito e dirigido pela atriz, A Noiva! (2026) revisita a escritora Mary Shelley, sua célebre criatura revivida dos mortos e o filme A Noiva de Frankenstein (1935) em um libelo feminista repleto de som e fúria, violência e paixão, ousadia formal e pretensão artística.

Mistura de homenagem e desagravo, A Noiva! replica o expediente usado pelo diretor James Whale há mais de 90 anos: como a atriz Elsa Lancaster em A Noiva de Frankenstein, Jessie Buckley interpreta na tela tanto a autora de Frankenstein quanto a companheira especialmente ressuscitada para servir de companheira para o monstro encarnado por Christian Bale. A trama se passa em Chicago na década de 1930, que evoca tanto o submundo mafioso dos filmes e romances noir quanto o ambiente permissivo e libertário da Berlim do entreguerras, com seus cabarés e cenários expressionistas.

Warner/Divulgação

É nessa cidade sombria e decadentista que chega a criatura ⎯ apelidada de Frank ⎯ para pedir à Dra. Euphronius (Annette Bening) que conceba uma parceira como ele, igualmente renascida da morte. A escolhida é Ida (Buckley), uma garota recentemente morta por gângsteres em uma boate em meio a um surto ao ser possuída pelo espírito da escritora inglesa Mary Shelley. Perseguidos por bandidos e pela dupla de detetives Jake (Peter Sarsgaard) e Myrna (Penélope Cruz), Frank e a Noiva se lançam em uma fuga alucinada pelos Estados Unidos, confrontando audaciosamente uma sociedade hipócrita e patriarcal.

Warner/Divulgação

O frenético enredo de Maggie Gyllenhaal atropela ideias e propostas, empilha referências cinematográficas e literárias, cita de Ginger Rogers a Marlene Dietrich, de Ida Lupino a Myrna Loy, evoca filmes como Bonnie e Clyde: Uma Rajada de Balas (1967), Cabaret (1972), O Jovem Frankenstein (1974) e Coringa (2019). Favorita ao Oscar de Melhor Atriz por Hamnet (2025), Jessie Buckley literalmente se arrebenta em cena em uma atuação extenuante do ponto de visto físico, esfalfando-se nas longas de sua personagem tomada por repentes verborrágicos que se assemelham a manifestações da Síndrome de Tourette.

Warner/Divulgação

Se em muitos momentos A Noiva! funciona como vigoroso manifesto feminista contestador, o tom histriônico permanente da narrativa e a mixórdia de citações e temas sucedendo-se vertiginosamente na tela dispersam a potência anarquista do discurso. No final das contas, a protagonista feminina, a despeito de sua rebeldia, acaba reproduzindo o padrão de afirmação da mulher a partir da validação masculina ⎯ no caso, do companheiro Frank, por quem também foi enganada e manipulada na história.

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A Noiva!: * *

COTAÇÕES

* * * * * ótimo     * * * * muito bom     * * * bom     * * regular     * ruim

Assista ao trailer de A Noiva!:

Roger Lerina

Roger Lerina

Jornalista e crítico de cinema. Editou de 1999 a 2017 a coluna Contracapa sobre artes, cultura e entretenimento, publicada no Segundo Caderno do jornal Zero Hora.

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