Um dos maiores nomes da história do cinema, Agnès Varda (1928 – 2019) é o foco de uma exposição inédita que destaca a produção fotográfica da artista belga. Fotografia AGNÈS VARDA Cinema mostra essa faceta ainda pouco conhecida da diretora de filmes clássicos como Cléo das 5 às 7 (1962), Os Renegados (1985) e Os Catadores e Eu (2000).
Concebida e realizada pelo Instituto Moreira Salles e pelas instituições francesas Institut pour la Photographie e Ciné-Tamaris, a mostra foi apresentada pela primeira vez em São Paulo em 2025, no IMS Paulista, como parte da Temporada França-Brasil. Agora, chega a Porto Alegre em sua primeira itinerância pelo Brasil, com abertura neste sábado (12/9), às 14h, na Fundação Iberê. No dia da inauguração, a entrada é gratuita.

A exposição reúne cerca de 200 fotografias tiradas por Varda, principalmente entre as décadas de 1950 e 1960. O conjunto traz imagens clicadas em viagens, incluindo registros inéditos na China, em 1957, fotos em Cuba, no contexto pós-revolução, e nos Estados Unidos, onde a artista documentou os Panteras Negras.

Há ainda fotos feitas em Paris, como as de uma peça encenada por Les Griots, primeira companhia de teatro negro na cidade. Em diálogo, a mostra apresenta trechos de filmes da autora, enfatizando como o comprometimento social, o olhar afetuoso e o humor caracterizam a sua produção.
A curadoria é assinada por Rosalie Varda, diretora da produtora Ciné-Tamaris e filha da cineasta, e João Fernandes, diretor artístico do IMS, com assistência de Horrana de Kássia Santoz, curadora vinculada à diretoria artística do IMS.
Neste sábado, às 15h30min, a curadoria promove uma visita mediada, seguido de uma conversa no auditório da Fundação Iberê – com tradução simultânea – com Rosalie Varda e João Fernandes, além de Marcus Mello, curador da Cinemateca Capitólio, e a cantora e compositora Juçara Marçal.

No domingo (13/9), a obra de Varda será tema de uma sessão com comentário musical de Juçara Marçal na Cinemateca Capitólio. A intérprete conduzirá duas apresentações, às 17h e 20h, ao lado de Kiko Dinucci (guitarra e sampler) e Juliana Perdigão (clarone, clarinete e sampler). O repertório inclui composições próprias de Juçara e canções de artistas que dialogam com a obra de Varda.
Também serão exibidos no Capitólio os curtas L’Opéra-Mouffe (A Ópera-Mouffe) (1958) e Black Panthers (Os Panteras Negras) (1968), ambos dirigidos por Varda, em cópias restauradas. As exibições serão intercaladas por apresentações dos músicos, que interpretarão canções em diálogo com as imagens e os temas dos filmes. Serão projetadas ainda fotografias de autoria de Varda, com o trio tocando simultaneamente.
Na entrevista exclusiva a seguir, a dupla de curadores detalha a exposição Fotografia AGNÈS VARDA Cinema e comenta as características e relevância da obra da artista, além de Rosalie lembrar a convivência com a mãe: "Ela é um exemplo de como uma mulher pode ser mulher em tudo quanto decida fazer na sua vida e com a sua vida".

Tendo em vista a extensa e longeva produção fotográfica de Agnès Varda, quais foram as premissas curatoriais para a seleção de imagens dessa exposição?
Essa exposição tem como objetivo apresentar um recorte da fotografia de Agnès Varda, oferecendo uma perspectiva sobre a sua relação com o cinema e com a vida da cineasta, nomeadamente com as viagens em que Agnès produziu ensaios fotográficos, assim como filmes em que ela registrou aspetos dessas mesmas viagens, como é o caso de Saudações, Cubanos!, um filme feito a partir das fotografias que Agnès realizou na sua viagem a Cuba, em 1962.
Outras viagens se tornam capítulos da exposição: desde o sul de França,
onde ela fará o seu primeiro filme, La Pointe Courte, até à própria cidade de Paris, onde ela fotografará a Rue Mouffetard, então uma rua dos deserdados da cidade, mendigos, pessoas idosas, moradores de rua, realizando igualmente um filme, L’Opéra-Mouffe. Agnès amplia também a sua deriva pelo sul da Europa, fotografando em Portugal e em Espanha na década de 1950. Em todas essas imagens, encontramos uma imensa empatia com as pessoas retratadas, com as pessoas mais vulneráveis que a sociedade muitas vezes invisibiliza, sendo de destacar a representação de mulheres e de crianças, assim como a presença de um humor tipicamente “Varda”.
Essa é uma exposição também pensada para o Brasil: Agnès foi fotógrafa de cena durante mais de uma década, tendo registrado centenas de peças de teatro. Escolhemos fotografias de uma dessas peças interpretadas pela Compagnie des Griots, a primeira companhia de teatro negra em França, fundada pela também cineasta Sarah Maldoror, que estava em contato com Abdias Nascimento e com o Teatro Experimental do Negro, no Brasil. Destacamos as fotografias da santeria cubana, que tantos diálogos podem estabelecer com o candomblé e com a umbanda.

Quais são as conexões e as diferenças entre as atividades de Varda como fotógrafa e cineasta?
Quando jovem, Agnès aprende fotografia porque achava importante dominar uma técnica que lhe permitisse ter uma profissão. É então contratada por Jean Vilar como fotógrafa oficial do Festival de Avignon e do Teatro Nacional Popular, em Paris. Pensando ganhar a vida como fotógrafa profissional, ela sabia que tinha um olhar específico sobre a vida, se assumindo como artista enquanto protagonista desse olhar. Nessa relação com a vida, faltava algo na fotografia: o movimento. Por isso ela vai desde 1954 acompanhar alguns dos seus ensaios fotográficos por filmes como La Pointe Courte e L'Opéra-Mouffe. Depois de ter fotografado a China após a revolução, Agnès vai fotografar uma outra revolução, a revolução cubana, realizando um filme todo ele construído a partir das fotografias que ela faz na sua viagem. Se ela parte da fotografia para o cinema, no final da vida, já na condição de “artista visual contemporânea”, ela realizará instalações em que tanto parte da fotografia para o cinema como do cinema para a fotografia, interrogando a relação entre a imagem fixa e a imagem em movimento.

Quais características e qualidades vocês destacariam como centrais na singularidade das imagens produzidas por Varda?
Uma arte particular no modo como ela demonstra que todos os instantes, por mais anódinos, são decisivos, porque são vividos por pessoas cujas imagens nos são apresentadas com uma empatia muito particular e com um humor singular. Os enquadramentos desses instantes aproximam, nunca distanciam, nem exotizam. Em cada fotografia de Agnès existe um olhar cinematográfico: ela nos dá conta
de que o mistério de cada pessoa é um filme possível.

A moradora da rua Daguerre explorou as possibilidades das antiquadas câmeras com tripé e placas de filme até os modernos equipamentos digitais, passando pela clássica Rolleiflex. O que Varda procurava ao experimentar os diferentes recursos técnicos de captação da imagem?
Agnès atravessa e acompanha com uma grande curiosidade o século 20, nas suas transformações tecnológicas a nível da captação da imagem. O seu percurso é o percurso de uma artista que era sensível ao seu tempo, que exercita a sua curiosidade e sensibilidade com uma sabedoria que lhe era muito própria. Utilizou todos os recursos técnicos que o mundo lhe ofereceu, ao longo da sua vida.

Agnès Varda é admirada pelo espírito livre, criatividade inquieta, mente arguta e visão humanista. Qual é o legado dela para as mulheres da atualidade? Quais exemplos ela deixou para você como mãe?
Rosalie Varda – Uma mulher nunca esquece que é mulher. Agnès nunca o esqueceu e acompanhou as lutas das mulheres do seu tempo, pelos seus direitos. Conheceu as dificuldades de ser uma mulher que fazia cinema e produzia cinema, atividades ainda hoje marcadas por uma predominância estrutural masculina. Saiu à rua com companheiras, fez filmes a respeito, as mulheres têm sempre uma presença essencial em todas as suas artes, enquanto fotógrafa, cineasta ou artista visual. Ela é um exemplo de como uma mulher pode ser mulher em tudo quanto decida fazer na sua vida e com a sua vida.
Como foi acompanhar a trajetória de Varda, primeiro como testemunha na infância e na juventude e depois como colaboradora na idade adulta?
RV – Eu tive a sorte de ter uma boa relação com a minha mãe. Ela me transmitiu uma visão da sociedade e uma relação humana com o mundo. O trabalho expandiu a relação familiar. Ninguém conhece a sua família, trabalhar com Agnès foi uma forma de a conhecer melhor também, e de compreender as dificuldades de ser uma artista.

SERVIÇO
Exposição Fotografia AGNÈS VARDA Cinema
Abertura: 12 de setembro | Sábado | 14h
Visitação: 28 de fevereiro de 2027
3º andar | Fundação Iberê
No dia da abertura, a entrada é gratuita
Visita mediada com a curadoria
12 de setembro | Sábado | 15h30min
Conversa com os curadores
12 de setembro | Sábado | 16h
Onde: Auditório da Fundação Iberê
Evento com tradução simultânea
Comentário musical com Juçara Marçal
13 de setembro | Domingo | 17h e 20h
Onde: Cinemateca Capitólio
