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Arrigo Barnabé apresenta mutação de “Clara Crocodilo” no Teatro Simões Lopes Neto

Compositor sobe ao palco do Teatro Simões Lopes Neto na quarta-feira (28/1)

Arrigo Barnabé apresenta mutação de “Clara Crocodilo” no Teatro Simões Lopes Neto
Foto: Gal Oppido

O álbum Clara Crocodilo (1980), de Arrigo Barnabé, marcou a música brasileira com suas composições experimentais. Mesclando falas, gritos, narrativas radiofônicas, histórias em quadrinhos, música popular e de concerto, o artista produziu uma obra seminal. Ao longo das décadas seguintes, o compositor rearranjou, para diferentes formações, as oito faixas do LP histórico, que será apresentado por um quarteto, nesta quarta-feira (28/1), às 20h, no Teatro Simões Lopes Neto,

“É uma redução do repertório da Banda Sabor de Veneno (que gravou o LP), com espaço para improvisações, que a gente não costuma fazer”, antecipa Arrigo, um dos mais conceituados compositores brasileiros, que fará o show acompanhado de seu irmão e baterista Paulo Barnabé, do pianista Paulo Braga – que colabora com Arrigo há mais de 30 anos – e do baixista Gustavo Boni. A apresentação integra a programação do Porto Verão Alegre.

Na entrevista por telefone à Matinal, Arrigo ajuda a decifrar algumas das inúmeras camadas de Clara Crocodilo – que chegou a ser classificado pela imprensa, no início dos anos 1980, como “a maior combustão criativa na música popular brasileira”. O artista rememora, como se fosse ontem, as origens do trabalho, que nasceu de encontros com o amigo e parceiro de composição Mário Lúcio Cortes, na virada de 1971 para 1972.

Arrigo tinha 20 anos, havia trancado o curso de arquitetura em São Paulo e mergulhado em seus interesses musicais – nos anos 1960, ele estudou música em um conservatório de Londrina (PR). Estava empolgado com as experimentações da música contemporânea que descobrira em um festival em Ouro Preto (MG) e com as ideias presentes no livro Obra Aberta, de Umberto Eco. Essas e outras referências motivaram Arrigo a criar composições em módulos, que pudessem ser tocados em diferentes sequências.

“Tinha que pensar de outra maneira, quase como uma montagem cinematográfica, com possibilidades muito instigantes, que continuam com uma carga de informação nova muito grande”, diz Arrigo, que nos anos seguintes cursaria Música na Universidade de São Paulo (USP).

Outra referência importante para a criação de Clara Crocodilo foi o livro Balanço da Bossa: Antologia Crítica da Moderna Música Popular Brasileira (1968), organizado pelo poeta e tradutor Augusto de Campos, que abordava, entre outros temas, o modo como a música popular bebe em fontes eruditas. No Brasil, na visão de Arrigo, era necessário iniciar uma nova fase desse diálogo, com base nas vanguardas da música de concerto, desconstruindo o formato canção.

“Havia Chopin em (Ernesto) Nazareth, Debussy no Tom Jobim. O próximo passo seria a música do século 20. Isso ficou evidente para mim”, conta Arrigo, que introduziu procedimentos do atonalismo – composições sem um tom preponderante – em Clara Crocodilo. Ao escapar das estruturas mais convencionais da música, o álbum provoca estranhamento entre os ouvintes, com sequências sonoras imprevisíveis, sem melodias marcantes.

Entre as referências musicais da criação de Clara Crocodilo, Arrigo destaca os ritmos do compositor húngaro Béla Bartók, a obra do russo Igor Stravinski, as reflexões do austríaco Arnold Schönberg sobre o dodecafonismo – que ele estudaria de modo mais aprofundado somente no final dos anos 1970 – e a faixa Acrilírico, presente em Caetano Veloso (1969), álbum homônimo do cantor e compositor baiano.

Entre 1971 e 1972, a partir das definições de compassos, ritmos e alturas, foram nascendo os módulos e harmonias de Clara Crocodilo. A construção do restante da obra se estendeu até 1979, adquirindo um forte caráter narrativo e performático. O universo das histórias em quadrinhos também foi encontrando espaço, influenciado por referências de HQs trazidas pelo amigo e ilustrador Luiz Gê, que assina a capa de Clara Crocodilo. Na faixa Office-Boy, por exemplo, um rapaz vira cobaia de um laboratório que o transforma no ser mutante que dá nome ao álbum.

Capa: Luiz Gê

Outro componente central de Clara Crocodilo é o coro feminino formado por Suzana Salles, Tetê Espíndola e Vânia Bastos, que dividem os vocais – cantos, gritos, falas – com Arrigo. Piano, guitarra, baixo, percussão, metais e sintetizadores compõem os instrumentos do álbum gravado com os músicos Bozo Barretti, Gilson Gibson, Itamar Assumpção, Otávio Fialho e Paulo Barnabé.

“Como consegui fazer isso?”

Foto: Gal Oppido

Ao concluir o álbum em 1980, Arrigo se assombrou com o resultado de quase uma década de dedicação. “Foi um peso. Como consegui fazer isso?”, recorda o compositor. Clara Crocodilo é considerado um dos marcos da Vanguarda Paulista – também conhecida como Vanguarda Paulistana –, nome atribuído à produção de artistas como Arrigo, Itamar Assumpção e Ná Ozzetti, e de grupos como Premeditando o Breque e o Rumo, de Luiz Tatit, entre o final dos anos 1970 e início dos anos 1980.

O álbum foi determinante para a trajetória de artistas como Arthur de Faria, que afirma ter se tornado músico por causa do álbum de Arrigo. “Ouvi o Clara Crocodilo quando tinha 13 anos de idade, e minha cabeça explodiu. Da minha geração, ninguém passou incólume. Ele inventou um jeito de fazer música absolutamente inédito, usando séries para fazer música popular e misturando com história em quadrinhos, groove e vozes femininas fazendo coro”, explica o músico e pesquisador.

Um dos ecos mais evidentes da obra de Arrigo, em roupagem mais pop, pode ser notado na Blitz, destaca Arthur, em músicas que trazem situações cotidianas nas falas teatrais de Evandro Mesquita, Fernanda Abreu e Marcia Bulcão. Segundo Arthur, a inventividade de Arrigo reverberou também entre nomes como Tom Jobim, Elis Regina, Caetano Veloso, Paulinho da Viola e Gal Costa

Para Arrigo, o principal legado de Clara Crocodilo foi a abertura de possibilidades estéticas. “Diferentemente de Hermeto Pascoal e Egberto Gismonti, eu estou mais próximo do pop. De repente podia falar, gritar, fazer um negócio mais louco. Tenho a impressão de que muita gente esperava por isso”, reflete o compositor.

Na faixa-título, Arrigo pergunta onde andará a personagem Clara Crocodilo, que se revela a própria música presente no álbum: “Será que ela está adormecida em sua mente esperando a ocasião propícia para despertar e descer até seu coração, ouvinte meu?”. Há 45 anos inquietando corações e mentes, Clara Crocodilo segue em mutação.

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Show “Clara Crocodilo” de Arrigo Barnabé Quarteto
Quando: 28 de janeiro de 2026
Horário: 20h
Onde: Teatro Simões Lopes Neto (rua Riachuelo, 1089 – Centro Histórico – Porto Alegre
Ingressos: entre R$ 25 e R$ 160, à venda no site do Porto Verão Alegre

Ricardo Romanoff

Repórter e editor de Cultura na Matinal. Também é tradutor, com foco em artes e meio ambiente, além de trompetista de fanfarra nas horas vagas. Contato: ricardo@matinal.org

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