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"Bugonia" é retrato perturbador do nosso tempo

Filme é a quinta parceria do diretor Yorgos Lanthimos com a atriz Emma Stone

"Bugonia" é retrato perturbador do nosso tempo
Universal/Divulgação

Não se pode esperar nada convencional de Yorgos Lanthimos. Um dos mais inventivos nomes do cinema contemporâneo, o diretor grego volta às telas com mais uma esquisitice: Bugonia (2025), mistura de humor sombrio com ficção científica que lança um olhar satírico para temas como teorias de conspiração, negacionismo, capitalismo, alienação e ecologia.

Em Bugonia, os primos Teddy (Jesse Plemons) e Don (Aidan Delbis) acreditam que alienígenas estão vivendo entre os humanos, manipulando a natureza, a política e a economia a fim de dominar o planeta. Liderados por Teddy ⎯ sujeito esperto, mas que acredita nas mais absurdas fake news ⎯, os dois caipiras sequestram Michelle (Emma Stone), poderosa e bilionária CEO de uma farmacêutica que acreditam ser uma extraterrestre vinda da galáxia de Andrômeda. Enquanto mantém a executiva em cativeiro esperando, a dupla aguarda um eclipse que deverá coincidir com a chegada da nave espacial da suposta ET.

Universal/Divulgação

Adaptação da comédia de ficção científica sul-coreana Save the Green Planet!(2003), Bugonia foi batizado com a palavra do grego antigo que significa "descendentes de um boi" ⎯ referência a um ritual que surgiu de um mito segundo o qual abelhas podiam ser geradas espontaneamente a partir da carcaça de um boi morto sem derramamento de sangue, em um tipo de sacrifício que geralmente resultava em sofrimento prolongado para o animal. No filme, o personagem de Teddy é um apicultor ⎯ e o mito grego ecoa como metáfora mórbida com tons de "moral da história".

Apesar das bizarrices da trama, Bugonia talvez seja o filme menos arrojado do ponto de vista narrativo de realizador de Dente Canino (2009), O Lagosta (2015) e Pobres Criaturas (2023). Se parece menos cifrado e mais facilmente digerível do que os títulos anteriores de Lanthimos, o novo longa do cineasta não deixa de desconcertar ao final desse retrato sócio-político e cultural da sociedade estadunidense atual, que se debate entre a paranoia, o conservadorismo e o choque de classes.

Em sua quinta colaboração com o diretor e roteirista grego desde A Favorita (2018), Emma Stone ⎯ vencedora do Oscar de melhor atriz por Pobres Criaturas ⎯ está outra vez excelente em Bugonia, qualificando-se para disputar novamente a estatueta dourada com sua atuação. Mas quem de fato brilha em cena é Jesse Plemons, capaz de imprimir credibilidade e complexidade em seu personagem, despertando no público tanto simpatia quanto repulsa por uma figura que é o retrato perturbado e perturbador do nosso tempo.

Universal/Divulgação

Bugonia: * * * * *

COTAÇÕES

* * * * * ótimo     * * * * muito bom     * * * bom     * * regular     * ruim

Assista ao trailer de Bugonia:

Roger Lerina

Roger Lerina

Jornalista e crítico de cinema. Editou de 1999 a 2017 a coluna Contracapa sobre artes, cultura e entretenimento, publicada no Segundo Caderno do jornal Zero Hora.

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