Estão abertas, a partir de hoje, as inscrições para o edital da Chamada Aberta Zona de Confluência do projeto Istmo – Circuitos Criativos América do Sul, uma das mais abrangentes iniciativas culturais de inserção internacional das artes visuais do Rio Grande do Sul no cenário latino-americano contemporâneo. Artistas gaúchos ou residentes no Estado há pelo menos cinco anos, com idade mínima de 18 anos e em qualquer estágio da carreira, podem se inscrever até o dia 8 de abril.
Esta chamada aberta selecionará 40 artistas para apresentar seus trabalhos a curadoras e agentes culturais de Argentina, Uruguai, Chile, Peru, Colômbia, Equador, Bolívia e Paraguai. O projeto traz em uma programação intensiva que inclui leituras presenciais de portfólio, visitas institucionais, oficinas, formação, exposição virtual, catálogo e documentário sobre o projeto. A iniciativa busca enfrentar um dos principais desafios estruturais do setor no Estado: a baixa difusão internacional da produção artística gaúcha.
O edital propõe um mapeamento ampliado da diversidade artística do Rio Grande do Sul. Pelo menos 40% das vagas serão destinadas a mulheres, pessoas negras, indígenas, quilombolas, LGBTQIA+, pessoas com deficiência e integrantes de comunidades tradicionais. Também serão oferecidas sete bolsas de mobilidade para artistas de baixa renda do Interior do Estado, garantindo condições de deslocamento até Porto Alegre para as atividades presenciais.
“O Istmo – Circuitos Criativos nasce de uma experiência acumulada em quatro frentes — como artista, curadora, produtora cultural e professora universitária — que evidenciam um problema estrutural: o isolamento histórico do Rio Grande do Sul dentro do próprio Brasil e, simultaneamente, em relação ao restante da América do Sul”, afirma Laura Cattani, artista, curadora e idealizadora do projeto, ao lado de Munir Klamt. O Istmo surge como resposta a um isolamento histórico que atravessa a produção local.
Segundo Cattani, apesar da proximidade geográfica e das afinidades culturais, há um descompasso entre a cena gaúcha e as redes latino-americanas, que dialogam entre si de maneira muito mais fluida. “O Estado permanece afastado tanto dos circuitos brasileiros quanto dos circuitos latino-americanos. Essa dupla condição faz com que a produção gaúcha circule pouco, seja pouco percebida e raramente seja incluída nas narrativas continentais, apesar de sua força e singularidade.”
Ao propor a vinda de curadoras estrangeiras ao Rio Grande do Sul, o projeto opera como dispositivo de mediação ativa. “O Istmo foi concebido justamente para operar nesse ponto de fricção: como um dispositivo de mediação capaz de criar um primeiro fluxo sistemático entre a produção gaúcha e instituições de oito países sul-americanos”, explica Laura. Ela destaca que o projeto reduz assimetrias simbólicas e institucionais ao promover encontros presenciais. “Num contexto em que a internet amplia o acesso, mas não substitui o encontro, a mediação do Istmo funciona como um catalisador de relações profundas.”
Muitas vozes e muitas formas de produção
A proposta aposta na criação de redes afetivas, institucionais e econômicas baseadas na reciprocidade e na ética. “Relações realmente transformadoras só se sustentam quando há reciprocidade, intencionalidade ética e reconhecimento legítimo das diferenças culturais, e não quando se reproduzem dinâmicas de dependência ou hierarquia”, afirma. A escolha das curadoras convidadas, segundo ela, considerou não apenas excelência profissional, mas também compromisso crítico e comunitário. A seleção dos artistas seguirá o mesmo princípio de diversidade de linguagens, trajetórias e territórios. “A internacionalização só é sustentável quando representa muitas vozes e muitas formas de produção e não apenas aquelas já tradicionalmente visibilizadas.”
Ao reunir representantes de oito países para conhecer a produção local, o projeto também tensiona narrativas consolidadas sobre o imaginário do Estado. “O Istmo não se limita a apresentar 40 artistas: ele busca revelar um ecossistema”, afirma Laura. Segundo ela, a arte contemporânea gaúcha é frequentemente percebida de fora como homogênea ou rigidamente regional, quando, na verdade, caracteriza-se pela pluralidade e pela independência autoral. “Aquilo que mais nos interessa é justamente a multiplicidade da produção do Estado. O Istmo contribui para que essa pluralidade seja vista com nitidez — não como uma identidade única, mas como um coro polifônico.”
Ampliando horizontes poéticos
As transformações esperadas operam em diferentes níveis. Para os artistas, a leitura de portfólio por profissionais internacionais pode representar um deslocamento crítico e estratégico de trajetória. “Ter o trabalho lido por profissionais de outros países oferece novas chaves de leitura e amplia horizontes poéticos”, afirma. Para instituições e aparelhos culturais, o projeto funciona como vitrine estratégica e possibilidade concreta de cooperação internacional. “No conjunto, o Istmo atua como catalisador de transformações concretas: gera reconhecimento, produz oportunidades reais de trabalho, fortalece instituições e projeta o RS dentro de um imaginário continental mais amplo.”
Comprometido com acessibilidade, o projeto contará com recursos como Libras, audiodescrição e legendas, além da atuação de um agente de inserção social. Este profissional estará dedicado a ampliar a participação de grupos historicamente preteridos das políticas públicas culturais.
Ao lançar o edital, o Istmo inaugura uma plataforma de circulação bidirecional que pretende consolidar o Rio Grande do Sul como território ativo nas redes sul-americanas de arte contemporânea. Em um momento em que a internacionalização se torna elemento estratégico para a sustentabilidade das trajetórias artísticas, o projeto transforma proximidade geográfica em aproximação cultural concreta — criando pontes onde antes havia distância.
FICHA TÉCNICA
Criação do projeto: Laura Cattani e Munir Klamt
Curadoras visitantes: Nancy Rojas (Argentina), Sofia Dourron (Argentina), Jacqueline Lacasa (Uruguai), Joselyne Contreras (Cerda Chile), Adriana Almada (Paraguai), Marisabel Villagómez (Bolívia), Syl Quezada (Equador), Florencia Portocarrero (Peru), Maria Isabel Rueda (Colômbia), Carolina Ceron (Colômbia).
Comissão de Seleção: Daniele Barbosa, Laura Cattani e Munir Klamt
Produção, roteiro e direção do documentário: Diego de Godoy
Gestão e Produção: Instituto Cultural Torus
Assistência de produção: Laura Cattani
Secretária: Isadora Müller
Assessoria Contábil: Lívia Britto
Assessoria Jurídica: Norberto Flach e Paulo Berni
Agente de Inserção Social: Jack Garcia
Fotografia: Anderson Astor
Oficinas de Portfólio e Identidade Visual: Tiago Gasperin
Design e Diagramação do Catálogo: Bruno Borne
Programação e Administração do site: Agência Bah
Consultoria em Acessibilidade: Eduardo Cardoso
Audiodescrição e Acessibilidade: Valentina Cherubini
Assessoria de Imprensa e Divulgação: Silvia Mara Abreu
Gestão de Conteúdo e Redes Sociais: Laura Yang
SERVIÇO
Como participar do Edital Chamada Aberta Zona de Confluência do ISTMO – Circuitos Criativos América do Sul
Quem pode se inscrever:
Artistas visuais gaúchos(as) ou residentes no Rio Grande do Sul há pelo menos 5 anos, com idade mínima de 18 anos, em qualquer estágio da carreira.
Objetivo da seleção:
Escolha de 40 artistas para participar de leituras presenciais de portfólio com curadoras e agentes culturais de oito países da América do Sul (Argentina, Uruguai, Chile, Peru, Colômbia, Equador, Bolívia e Paraguai).
Política de diversidade:
No mínimo 40% das vagas serão destinadas a mulheres, pessoas negras, indígenas, quilombolas, LGBTQIA+, pessoas com deficiência e integrantes de comunidades tradicionais.
Bolsas de mobilidade:
Serão oferecidas 7 bolsas para artistas de baixa renda do Interior do Estado, destinadas a apoiar custos de deslocamento até Porto Alegre para as leituras presenciais.
Período de inscrições:
De hoje até 8 de abril.
Processo de seleção:
Os artistas serão selecionados por uma comissão formada pelos curadores Daniele Barbosa, Laura Cattani e Munir Klamt
O que o projeto oferece aos selecionados:
- Leitura presencial de portfólio com curadoras internacionais
- Participação em atividades formativas
- Integração em exposição virtual
- Publicação em catálogo digital
- Registro em documentário do projeto
Acessibilidade:
As atividades contarão com recursos de acessibilidade (Libras, audiodescrição e legendas), além da atuação de agente de inserção social para ampliar a participação de grupos historicamente preteridos.
Informações completas e inscrição:
O edital completo, regulamento e formulário de inscrição estão disponíveis nos canais oficiais do projeto.
Acesse o link para a Chamada Aberta: https://torus.art.br/istmo-chamada-aberta/
No link, abaixo, acesse entrevista exclusiva com a artista e foto do projeto:
https://drive.google.com/drive/folders/1PRf-zTdp7o5cTQ6QRTkk_68ajWKGj2G