Deluce abre o ano de 2026 energizado. Pimenta, seu segundo álbum, com produção musical de Guri Assis Brasil (banda Pública), chega às plataformas dia 11 de março com uma sonoridade orgânica e influências brasileiríssimas, numa obra que prova como a arte muitas vezes nasce do ato corajoso de esfregar sal nas próprias feridas. “Durante esses dez anos que separam meu primeiro disco deste novo, aprendi muita coisa e creio que este álbum não teria sido possível para o Deluce de 2016”, afirma o artista. Com personalidade, conceito, reflexão, o vocalista da banda Cartolas apresenta oito músicas que percorrem sua infância, as relações afetivas, as marcas que resistem ao tempo e sua maneira de observar e reagir ao mundo.
O longo período que passou longe dos holofotes foi determinante na gestação do novo disco. Pimenta revela um artista menos preocupado em se posicionar dentro de uma cena específica e mais disposto a revisitar a própria trajetória com honestidade. Aqui, Deluce exorciza seus fantasmas ao abordar períodos desafiadores de sua vida e o constante desconforto diante da sociedade que o cerca. Não se trata de um relato literal, mas de reflexão transmutada em arte, em letras e melodias. “Hoje tenho maturidade suficiente para tocar nessas feridas” completa.
Fazendo jus ao título, Pimenta arde, provoca e desperta. O trabalho se desenvolve a partir de variações de clima e intensidade, marcado por interpretações de acento teatral e por um jogo constante entre tensão e leveza. Não à toa, o artista define a obra, com humor, como uma ópera burlesca tropical. Há uma franqueza libertadora nos versos, e o uso deliberado do exagero dramático como recurso expressivo encontra lastro na Tropicália. “Sou adepto da tradição de artistas como Mutantes, Tom Zé, Arrigo Barnabé e Jards Macalé, que souberam incorporar crítica, ironia e deboche à linguagem musical.”
Os arranjos do álbum foram escritos por Guri Assis Brasil para acompanhar a dinâmica das composições. Instrumentos de sopro, teclados e percussões se somam à guitarra, baixo e bateria para criar uma base sólida, sobre a qual vocais e coros se projetam com liberdade. A escolha por uma sonoridade orgânica, com timbres que evocam uma estética vintage, confere ao trabalho uma personalidade atemporal. Com o lançamento de Pimenta, que chega às plataformas pelo selo Loop Discos, Deluce inicia uma nova etapa de sua carreira. Ao assumir a vulnerabilidade como força criativa, suas experiências deixam de ser apenas memórias e se tornam o fio condutor de uma narrativa. “Durante muito tempo, achei que lançar algo novo seria como jogar uma garrafa no oceano. Precisei entender para quem e por que estava fazendo isso. Hoje sinto que tudo faz sentido e fico feliz por ter levado a ideia adiante. Com Pimenta, começo uma nova jornada com gratidão, entusiasmo e convicção” – finaliza.
Faixa a faixa por Deluce
Descansadão feat. Ava Rocha
Escrevi essa música, que foi o primeiro single do projeto, a partir da indisposição para discutir em ambientes hostis, onde o argumento racional desaparece e tudo vira ataque. Em tempos de agressividade permanente, ficar descansadão pode ser uma forma de protesto, uma recusa a alimentar o conflito. A participação da Ava Rocha surgiu naturalmente. A música tinha a ver com o universo dela, mostrei a faixa e ela topou. Sua presença ampliou o clima dramático da canção.
Quero Te Ver no Inferno
É um brado de um apaixonado rejeitado. Uma explosão de raiva que eu não expresso no dia a dia. A música já existia, mas, na produção, ganhou uma sonoridade mais tropicalista e teatral. É direta e intensa.
Tanta Polidez
Começou como uma ideia bem-humorada guardada havia anos. Voltei a ela porque traduz essa postura defensiva que a gente aprende a construir. Por fora é desbocada; por dentro, vulnerável. O arranjo cresceu muito com o Guri Assis Brasil, que acabou se tornando coautor.
Assim É Você
Nasceu de um sonho em que minha mãe cantava para o meu pai num clima de cabaré. Acordei com a música na cabeça e desenvolvi a letra a partir da memória da convivência turbulenta entre eles. O eu lírico é feminino porque a voz da canção é dela.
O Bullying (Eu Gritava)
Fala de experiências reais da minha infância. Durante muito tempo tive vergonha de tocar nesse assunto. Escrever essa música foi doloroso, mas libertador. É como acolher aquele menino que ainda existe em mim.
Todinho Seu
É uma canção sobre se apaixonar quando a intenção inicial era não se envolver. Alguém que começa querendo leveza e termina completamente entregue.
Pra Ela Eu Digo Sim
Versão em português de “She Plays the Part”, de Johnny O’Donnell. Reescrevi os versos a partir de uma experiência pessoal. Virou uma declaração de amor com a dúvida que sempre acompanha a entrega.
Bruxa Tropical
É uma oração surreal por inspiração. Apesar de encerrar o álbum, funciona como síntese do clima do disco e de suas referências brasileiras.